LIVROS

 

A Publifolha lançou, em 2003, uma publicação pequena, em tamanho e em número de páginas, mas grande, em conteúdo, chamada “Livros. Fez um desafio a sete escritores: “Se fossem náufragos em sete ilhas diferentes, que livros gostariam de encontrar em sua bagagem, para fazer-lhes companhia?”.  Cada um podia levar dez livros e os autores, então, falam sobre esses livros importantes que gostariam de ter consigo. 

 

Os autores são: Bernardo Ajzenberg, na época, ombudsman da Folha de São Paulo e romancista.  Carlos Heitor Cony, jornalista da Folha de São Paulo e romancista.  Contardo Calligaris, psicanalista, colunista da Folha de São Paulo e escritor. Manuel da Costa Pinto, jornalista e ensaísta, colunista da Folha de São Paulo.  Maria Rita Kehl, psicanalista, doutora, ensaísta e às vezes poeta. Moacir Scliar, médico e escritor, colunista da Folha de São Paulo. E Nina Horta, cronista gastronômica da Folha de São Paulo, autora de dois livros sobre culinária.  O epílogo fica a cargo de Nuno Ramos, artista plástico e escritor.

 

E o que vamos encontrar nas bagagens desses autores, que “naufragaram” em sete ilhas desertas?  Os resultados são muito interessantes.  Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, está entre os mais citados, assim como três livros de Machado de Assis, as obras completas de Freud e Madame Bovary, de Flaubert.

 

A poesia também estaria nas ilhas desertas, pois alguns autores levariam João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado e os poemas de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa). Um autor levaria os policiais de Perry Mason e só um levaria a Bíblia, não propriamente pelo lado religioso, mas pela riqueza que o livro apresenta, em termos de literatura, mitos, parábolas e textos que nos surpreendem.

 

Mas eu, definitivamente, me identifiquei com Maria Rita Kehl, que escolheu puramente livros de aventura e do imaginário infanto-juvenil, que inclui duas obras fantásticas de Monteiro Lobato e duas de Mark Twain, Peter Pan, Minha Vida de Menina, de Helena Morley, as aventuras de Mowgli, na selva, e as aventuras de Tarzan.   Diz a autora que, na infância, lia essas histórias infantis uma, duas, cinco vezes, e se identificava com os meninos, porque as meninas não faziam nada que tivesse graça. Ainda, Capitães de Areia, de Jorge Amado, e Robin Hood, escrito várias vezes e traduzido por vários autores, já que é uma lenda da Inglaterra. 

 

Com esses livros na bagagem, eu também não me incomodaria de ficar um ano perdida numa ilha deserta, com a sobrevivência garantida.  Mas com a condição, é claro, de que o dia e a hora do resgate estivessem assegurados, para eu poder voltar ao continente.

 

Estarei de volta na próxima segunda-feira.  Venha comigo!

 

margamouraescritoraduradoura

PENSAMENTO MÁGICO

 

Hoje é dia de São Judas Tadeu, um santo bastante poderoso da igreja católica, a quem aprendemos a recorrer nas causas consideradas perdidas.  Eu mesma recorri a ele, nos meus 15 anos, e achei que tivesse sido satisfatoriamente atendida. 

 

Tudo é uma questão de fé.  As igrejas do apóstolo se enchem de fiéis, no dia de hoje, tal sua popularidade e a crença de que ele realmente atende os pedidos das pessoas.  Mas, como toda crença, esse pensamento é irracional, não tem comprovação, não se pode pegar, sopesar, medir.  Ou você crê nisso e, portanto, reza, ou você não acredita que isso seja possível – e, portanto, nem vai à igreja e nem ora ao santo.

 

Na vida, há várias maneiras de se tentar satisfazer um desejo por meio do pensamento mágico.  Desde a crença no Gênio da Lâmpada, das histórias infantis, que satisfaz três desejos, até as crendices e superstições, que pretendem nos dar resposta para tudo. A princesa dá um beijo no sapo, que vira príncipe, a feiticeira faz um feitiço para prejudicar determinada pessoa, o técnico de futebol só vai aos jogos com aquela mesma camisa com que ganhou a medalha de prata.  Você espera ganhar na loteria, faz mandinga para conquistar o coração da pessoa amada, faz uma compra sem saber de onde sairá o dinheiro, pensa que seu marido está tão doente que não perceberá o quanto você o engana.

 

Estamos em cheio no terreno da magia, que se opõe à ciência e à religião.  Há inúmeras correntes, de caráter psicológico, esotérico, científico, ingênuo, de crença religiosa, para explicar os diversos fenômenos do dia-a-dia, as expectativas e desejos do ser humano, a forma de enfrentá-los e resolvê-los.

 

O pensamento mágico.  A vontade de se resolverem as coisas sem passar necessariamente pela construção diária, pela malhação, pelo confronto, pelo suadouro que dá determinada ação fruto de uma decisão difícil.

 

O pensamento mágico.  A vontade de que outros resolvam por nós, que outros enfrentem por nós, que possamos ser dispensados daquela tortura, daquele desafio, daquela situação dolorosa.  Então, mentimos, ocultamos a verdade, contamos as coisas pela metade, rezamos, acendemos uma vela, vamos ao bruxo, tomamos remédios, qualquer coisa nos parece válida para resistir àquela ansiedade, àquela angústia que toma conta de nós.

 

Quando dá certo, rezamos, em agradecimento.  Vamos à igreja e oferecemos uma vela ao santo.  Ou vamos a pé até Aparecida, para pagar a promessa.  Quando dá errado... bem, alguma coisa terá falhado.  Mas foi só dessa vez.  Da próxima, temos a certeza de que o pensamento mágico irá funcionar...  E dificilmente saímos disso.

 

Estarei de volta na próxima 6ª. feira.  Venha comigo!

 

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À MESA COM O CHAPELEIRO MALUCO      

Caiu em minhas mãos o livro “À Mesa com o Chapeleiro Maluco”, de Alberto Manguel, Companhia das Letras, 2009.  Trata-se de ensaios muito interessantes e muito bem escritos. 

Alberto Manguel nasceu em Buenos Aires, em 1948, e viajou tanto desde pequeno e morou em tantos países diferentes que dificilmente se poderá dizer que é um autor argentino.  Atualmente vive no Canadá e é autor, tradutor e editor.  Já escreveu inúmeros livros de não-ficção e romances. Tem muitas antologias literárias, talvez porque desde jovem tenha entrado para o ramo da editoração.  Seus gêneros de interesse são variados, indo das histórias eróticas e de gays até a literatura fantástica e de mistérios.

 Manguel leu muito, desde criança, e quando começou a trabalhar com literatura não parou mais.  Cresceu em Israel, onde seu pai era o embaixador argentino – e lá, deixado sozinho e quieto na casa, devorava literalmente a biblioteca paterna.  Mais tarde, de 1964 a 1968, em Buenos Aires, teve a sorte de ser um dos leitores de Luiz Carlos Borges, o famoso escritor argentino que, quase cego, precisava de pessoas que lessem para ele. Com 20 anos, Manguel viajou para a Europa, onde teve experiências gratificantes, na área da criação literária e da editoração.  Morou em Londres, Paris, em Milfor, Surrey (Inglaterra) e no Tahiti.  Em 1982, mudou-se para Toronto e desde então tem morado no Canadá, adquirindo cidadania canadense.

Eu já o conhecia, de “Uma História da Leitura”, da Companhia das Letras, em 1997, mas não cheguei a apreciá-lo como agora.  Nesse livro em que aborda a figura do “Chapeleiro Maluco” (popularmente, a melhor tradução seria “Louco”), tece uma série de considerações sobre os dois livros de Lewis Carroll, “Aventuras de Alice no País das Maravilhas” e “Através do Espelho”, comentando sobretudo o nonsense como o ponto forte do conteúdo.  Diz que não foram escritos para crianças, embora a gente pense assim.  Carroll tem uma grande facilidade em tecer filosofias ao longo das histórias, a convidar o leitor a pensar, sempre por meio do terrível nonsense que perpassa todas as situações que envolvem Alice.

Num outro capítulo do livro, Manguel descreve quem é o leitor ideal – e a gente fica sem fala, diante da criatividade dele, de tudo o que um leitor ideal é e deixa de ser:  “O leitor ideal quer chegar ao final do livro e ao mesmo tempo saber que o livro jamais terminará”. “Para o leitor ideal, cada livro é lido, até certo ponto, como sua própria autobiografia”.  “Depois de fechar o livro, o leitor ideal sente que se não o tivesse lido o mundo seria mais pobre”.  Não lhe parece rico?

Gostei muito.  Gostei e recomendo.  Vou reler o primeiro capítulo, sobre o nonsense que se encontra em Alice – ou, melhor do que isso, vou ler os dois livros de Alice --, para ver se acabo de compreender o autor.  Achei fascinante.

Estarei de volta na próxima 4ª. feira.  Venha comigo!

margamouraescritoraduradoura




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