UMA SITUAÇÃO CULTURALMENTE INSTIGANTE

Achei interessante a maneira como minha amiga sintetizou em uma única frase o comportamento de um amigo meu, vidrado em vida cultural. Eu disse a ela que esse rapaz frequenta teatro e cinema, compra e assiste a filmes em DVD, ouve música, lê jornal diariamente e procura manter-se atualizado em relação aos principais eventos culturais que ocorrem a sua volta. E, como ele convida a esposa e os amigos a irem com ele, isso se torna “uma situação culturalmente instigante”.
É instigante o fato de você se sentir tentado a ir ver um filme no cinema, em vez de ficar com preguiça, dentro de casa. É instigante você ser desafiado a sair de casa para ir ao teatro, numa noite de chuva. Instigar é açular, é desafiar, é cutucar. Então, quando o mote das chamadas é de caráter cultural, é instigante você se ver espremido, entre seu hábito de ficar em casa, vendo qualquer coisa na televisão, e o convite para sair e ir assistir a um programa de caráter cultural.
É claro que nem tudo o que passa no cinema e se assiste no teatro é de grande valor. É claro que vale a pena você pesquisar um pouco, buscar informações, inteirar-se de quem montou a peça, qual é o diretor, qual o tempo de duração, porque essas dicas sobre o evento fazem abrir os olhos e facilitam a seleção. Há muito filme norte-americano que é puro passatempo e não lhe acrescenta nada: se ficasse em casa, talvez saísse ganhando. Mas, por outro lado, há uma filmografia europeia e asiática que dá de dez a zero em muita bobagem norte-americana que existe por aí. O Iran tem apresentado, nos últimos anos, filmes preciosíssimos, que dá gosto de assistir. A Argentina tem concorrido com filmes excelentes. Mas é preciso procurar, verificar onde é que estão passando, ir atrás.
Também não é verdade que os eventos culturais sejam caros. Há os espetáculos muito caros, há os mais ou menos, há os baratos e há muita coisa de graça. De novo, é saber pesquisar, buscar nos jornais, perguntar aos amigos, informar-se. Eu também gosto de um belo jogo de futebol, mostrados na televisão, em bons canais, como a ESPN. Mas não quero passar o resto da vida vendo apenas esporte. Gosto de variar, intercalando meus prazeres esportivos com belos espetáculos de caráter cultural. Ao lado de meus livros, é claro, que não abandono por nada no mundo.
Estarei de volta na próxima segunda-feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
COISAS DO INCONSCIENTE

É muito interessante o que acontece no dia-a-dia, coisas que dizemos sem querer, atos que praticamos sem pensar, respostas atravessadas que damos sem nem mesmo saber porquê, tudo fruto deste inconsciente que é o porão da nossa casa e que volta e meia intervém, mesmo contra nossa vontade. Veja esse diálogo:
ELA – Não estou conseguindo ligar essa televisão nova. Os controles remotos não me obedecem e os números na tela não saem do lugar.
ELE – Mas não é possível! Você não aprendeu isso até agora? (Larga o que está fazendo, sobe as escadas e vem ver). Lida, lida, mas, de fato, os controles não lhe obedecem. Aí, então, ele abre a caixinha interna e vai checar as pilhas: os dois controles remotos estão sem as respectivas pilhas.
O que se passou entre eles? Quando ela grita para ele, lá embaixo, que não está conseguindo acionar os controles, ele decodifica, intimamente: Não é possível! Essa mulher não aprende nunca? Quantas vezes eu terei que ensiná-la?) E sobe as escadas crente de que o mal é uma falta de habilidade da mulher, é claro que os controles estão funcionando, ela é que não sabe utilizá-los! E vem disposto a consertar o engano. Para sua surpresa, ela tem razão! Os números da tela não desaparecem, a um simples toque dos controles! E aí descobre que, simplesmente, era a falta das pilhas.
Descobrir que as pilhas eram importantes era uma questão racional. Se ele acreditasse na mulher, em vez de julgá-la, ele compreenderia que os controles não estavam funcionando. E, com calma, sem emoção, sem julgamentos, o racional faria o homem parar para pensar, lá de baixo, sem subir as escadas, e perguntar se ela checou as pilhas. Isso se o homem fosse de fato um ser racional. Porém, o ser humano é uma mistura de razão e emoções, em que umas atrapalham a outra, constantemente. Levado pela emoção de mostrar à mulher que ele sabia fazer a televisão funcionar – e ela, não! – ele perdeu uma excelente oportunidade de gritar de lá debaixo: “Você checou as pilhas?”, sem precisar largar o que estava fazendo e nem se dar ao trabalho de subir as escadas.
Este exemplo ilustra bem o que está por detrás de nossas ações e pensamentos. É importante atentarmos para a existência do inconsciente porque, na medida em que tiramos coisas escondidas daquele porão e as trazemos à luz, nossos atos melhoram, nossas relações ficam mais claras, acabamos por nos conhecer melhor e a controlar um pouco melhor aquelas respostas tolas e impulsivas que damos o tempo todo.
Estarei de volta na próxima sexta-feira. Venha comigo!
ablogueiramargamoura // fazcarreirapraescritora
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