UMA QUESTÃO DE ESTILO

 

Há vários anos me pergunto se meu estilo de escrever está correto, se está bom, se eu não poderia escrever de outra forma, ser menos clássica e rígida e me tornar um pouco mais solta.  Então, vivo atrás de autores que tenham escrito contos, relatos, memórias, ensaios, em busca de aprender com eles, de me mirar no espelho deles e ver se aprendo algo de novo.  Mas as coisas que descubro nem sempre são as que eu esperaria encontrar.

 

De um ano para cá, dei para ler contos de autores brasileiros e estrangeiros.  E se bem é verdade que me deparo com coisas excelentes, muito bem escritas, confesso que tenho lido alguns contos que me deixam embasbacada. 

 

Coisas boas são os contos de Dalton Trevisan, os artigos de Rosa Montero em “La Loca de la Casa”, os contos de Júlio Cortázar das décadas de 1930 e 1940 e os de Bioy Casares.  Esses dois autores argentinos são excelentes e dá gosto ler o que escrevem.  Também gostei muito dos contos de “El Rey de la Milonga y otros cuentos”, de Roberto Fontanarrosa, falecido em 2007.  Já alguns contos de “Sinistro com Fogo”, de David Means, alguns de “Vinte Contos e uns Trocados”, de Nei Lopes, e os dois primeiros de “Celular”, de Ingo Schulze, não chegaram à minha compreensão.

 

Interessante que se trata de autores que vêm baladados nas orelhas dos livros.  Adjetivos entusiasmados, superlativos, “um dos melhores desta safra de escritores...”, “está conseguindo dar à literatura uma forma renovada...”, “em seu estilo se percebe...”, mas eu não percebi nada.  E me frustrei, porque li e reli alguns desses contos e não enxerguei o objetivo deles, sua intenção, se é que há alguma.  É claro que pode ser um problema de tradução, como em Ingo Schulze, que escreveu em alemão.  Reconheço que às vezes o tradutor não consegue apreender o significado da frase ou de um parágrafo inteiro.  Mas também não acho que seja só isso.

 

Estou adorando Lourenço Mutarelli, em “Miguel e os Demônios”.  Ele tem tudo o que eu não tenho: frases curtas, diálogos rápidos, ação com poucas palavras.  Isso é uma das coisas que admiro em certos escritores – e Dalton Trevisan é um mestre. E, para terminar, hoje deitei os olhos num livro que não conhecia: “Otolina e a Gata Amarela”, de Chris Riddell.  É muito interessante.  Ela escreve de modo leve e aparentemente ingênuo e vai construindo suas ideias e suas frases de um modo que parece fácil.  O livro está cheio de figuras e desenhos, como se tivesse sido escrito para crianças.  Mas está exposto no setor de adultos.  Fiquei fascinada.  Fui olhar no Google: trata-se de uma ilustradora britânica de literatura infantil, mas agrada também os adultos.

 

É isso aí.  Se continuar a consultar esses autores, quem sabe em três ou quatro anos eu possa adquirir um novo estilo de escrita.

 

Vou saltar o feriado de segunda-feira.  Estarei de volta na 4ª. feira, dia 14.

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

 

 

 

 

 

CRÍTICA E ‘FEEDBACK”

 

Um artigo publicado no suplemento da Folha “The New York Times”, do último dia 05, de Alina Tugend, tece considerações a respeito das possíveis diferenças entre fazer críticas e dar “feedbacks”, um capítulo muito importante das relações interpessoais.

 

Há comentários de Robert Brooks, professor de psicologia em Harvard, do psicólogo clínico Leon F. Seltzer e Darren Gurney, professor do ensino médio em New Rochelle, Nova York.  Fazem diferença entre a crítica, que geralmente traz um tom negativo ao que é dito ao outro, e o feedback , que seria mais uma informação sobre o desempenho observado.  Gurney, acostumado a orientar equipes de beisebol, percebeu que os jovens estão mais propensos a revisar seu comportamento quando se pede que analisem em quê e como podem melhorar, em vez de simplesmente verem suas falhas ressaltadas pelo orientador.

 

Shinobu Kitayama, professor de psicologia na Universidade de Michigan, outro especialista citado no artigo, identificou diferenças claras nas reações a críticas, manifestadas nas culturas americana e japonesa.  Os japoneses parecem mais abertos às críticas do que os americanos, que parecem preferir os feedbacks positivos.  E ele aponta que isso teria a ver com os objetivos que têm em vista, levando-se em conta as diferenças de cultura: enquanto os japoneses estariam mais interessados no autoaperfeiçoamento, os norteamericanos,  ao sentirem as críticas como uma ameaça, estariam dando preferência ao desenvolvimento da autoestima.

 

Uma recomendação do artigo é que não se aceitem as críticas por aceitar, mas que o que recebe as críticas ouça e acolha o que tem a ver com ele e questione o que parece que não casa com seus sentimentos e percepção.

 

Tenho para mim que a crítica e o feedback podem ser sinônimos, uma vez que tanto uma quanto o outro são dicas que se dão às pessoas de como elas estão sendo percebidas de fora. Mais importante do que aquilo que está sendo dito ao outro, na minha opinião, é o modo como se fala e, sobretudo, a capacidade de aceitação que existe entre as pessoas que trocam informações. Quando não há aceitação, o que se diz ao outro geralmente soa como crítica, como vontade de mudar o avaliado.

 

Você, leitor, já reparou na diferença que há entre a conversa que leva com uma pessoa que gosta de você e, em outra ocasião, a interação que mantém com uma pessoa que você cisma que não gosta de você?  Preste atenção: a fala pode ser mansa, o tom de voz pode ser baixo, mas a forma e o conteúdo da interação mudam completamente, quando feitos entre pessoas que se amam, se estimam e se respeitam – e, pelo contrário, pessoas que estão competindo entre si, cada qual querendo transformar a outra à sua imagem e semelhança.

 

Estarei de volta na próxima sexta-feira.  Venha comigo!

blogqueéquasediário // témerececomentário

EU VI MIGUEL LITTÍN

 

Soube que o cine SESC ia passar um filme dirigido por Miguel Littín, no sábado à noite, e quis ir até lá para ver esse trabalho.  E, para minha surpresa, era uma Mostra Ibero-Americana, aberta pelo Ministro da Cultura, Juca Ferreira. E lá estava Miguel Littín, em carne e osso, dirigindo umas palavras ao público, em companhia de alguns de seus colegas de filmagem.

 

Miguel Littín é hoje um dos mais famosos cineastas chilenos.  Ficou conhecido quando de sua façanha, em 1985, entrando clandestinamente no Chile para realizar um filme de denúncia dos abusos da ditadura de Pinochet.  Na ocasião, esteve inclusive no Palacio de la Moneda, sem que fosse descoberto.  Foi uma aventura e tanto, descrita em livro por Gabriel García Marques, em português : “A Aventura de Miguel Littín clandestino no Chile”.  O filme que ele editou e tornou público, depois dessa façanha, se chama “Ata Geral do Chile”.

 

Foi nomeado por Allende diretor da estatal Chile Films, em 1971 e, por ocasião do golpe militar, em 1973, refugiou-se no México.  Com a redemocratização, Littín voltou a viver no Chile, mas já não ficou só lá.  Conquistou o mundo e viaja constantemente a vários países. 

 

O filme de sábado foi “Dawson, Isla 10” e a sessão foi de pré-estreia.  Ele vai entrar em cartaz só no próximo novembro.  Trata-se de uma obra de ficção feita para mostrar como foram os primeiros meses de cárcere dos que tinham exercido papéis de relevo no governo Allende, como seus ministros, embaixadores e secretários de Estado.  Levados para a ilha Dawson, no sul do Chile, ficaram lá cerca de 15 ou 20 meses, diretamente sob as ordens dos militares.

 

Miguel Littín, em sua fala de abertura, disse que essas cenas não são mostradas propriamente para nos emocionar ou nos fazer chorar, mas para nos permitir uma reflexão sobre o que o ser humano é capaz de fazer e nos permitir olhar para o passado para construir um futuro melhor.  Gostei!  De conhecê-lo e de seu filme.

 

                                            

 

Estarei de volta na próxima 4ª. feira.  Venha comigo!

 

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

 




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