TRANSMISSÃO DE AFETO

 

Afeto é uma palavra bonita, perfumada, porque nos remete à figura do amor, do carinho. Porém, nem todos sabem que o ódio também é afeto.  No afeto estão contidas nossas emoções, nossos sentimentos, e nós tanto amamos quanto odiamos as pessoas.  Na maior parte das vezes, nós amamos e odiamos as pessoas ao mesmo tempo, pois as relações humanas são feitas de troca e, dependendo do que o outro evoque em você, sua resposta a ele sairá bonita ou feia, azeda ou agradável, em tom brando ou gritado.

 

Nossas emoções e nossos sentimentos variam, ao longo dos dias e dos meses, amadurecem com o tempo, tornam-se mais conscientes. Tendemos a demonstrar simpatias ou antipatias, a querer bem ou querer mal, a gostar ou a odiar, o que varia de acordo com cada pessoa, a formação recebida, se sofreu a influência forte do cristianismo apaziguador, que prega que raiva é pecado.

 

Ao estudar os padrões de transmissão de afeto, de uma pessoa para a outra ou entre grupos de pessoas da mesma família, pode-se observar como são diferentes as formas de se passar adiante o afeto. 

 

Há pessoas que gostam de abraçar, beijar e pegar fisicamente nas outras.  Geralmente carinhosas, alisam o cabelo da que está sofrendo, pegam-lhe na mão e levam muito jeito para socorrer aqueles que necessitam; já outras são mais tímidas, menos expansivas, abraçam e beijam os outros com dificuldade.  No entanto, podem ser as primeiras a largar o que estão fazendo para ir socorrer aquele que está em dificuldade.

 

Mas o interessante, mesmo, é quando se trata de um padrão assumido pela família – geralmente inconscientes.  Conheço uma família que utiliza o pano verde para distribuir o afeto: é em torno da mesa de jogo que se encontram, contam piadas, falam do que lhes aconteceu na semana passada e dão muita risada juntas; ou não, podem sair e saem brigas entre um e outro parceiro mais esquentado, mas o grupo, reunido, logo dá um chega-pra-lado e o mal-estar passa.  Estou falando de jogos mais leves, menos competitivos, mais descontraídos – não daqueles jogos em que um fura o olho do outro para vencer.  E, nesse caso do pano verde, há uma coincidência: as pessoas que estão distantes do afeto familiar dificilmente gostam de jogar.  Não sei quem chegou primeiro: se foi o desinteresse pelo jogo ou se foi a dificuldade em dar e receber o afeto.  Mais tarde, essas pessoas tendem a se aproximar do pano verde, quando alguém amadureceu, ou a família, ou ela mesma.

 

Outras famílias fazem sua aproximação por meio da música.  Cantam, tocam, ouvem discos, compõem, formam um pequeno coral.  Já outras famílias trocam o afeto por meio da discussão e da polêmica.  Estão tão acostumadas a se reunir e discutir, a estar juntas e polemizar, ver quem tem mais razão do que o outro, que dificilmente se dão conta de que esse foi o padrão assumido para trocarem afeto entre si.

E você – na sua família – já percebeu qual o padrão de transmissão de afeto que utilizam?

 

Voltarei na 2ª. feira.  Venha comigo!

 

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

A LOUCURA

Afinal, o que é a loucura: um estado d’alma, um desatino, uma doença, a senilidade ou simplesmente um desgaste de neurônios?  Uma das definições da wikipedia é que “a loucura ou a insânia é, segundo a psicologia, uma condição da mente humana, caracterizada por pensamentos considerados “anormais” pela sociedade”.  A loucura é uma doença mental ou a doença mental inclui a loucura.

 

O significado da loucura muda de acordo com o tempo e o espaço.  Numa época em que se acreditavam em deuses, o louco poderia ter sido tomado por um mau olhado ou o demônio poderia ter se apoderado dele; ou, ainda, os loucos estariam sendo manejados diretamente pelos deuses. Pinel trouxe uma contribuição significativa para o tema, quando defendeu que a loucura tem a ver com a perda da razão, separando, assim, o louco do criminoso.

Discutir o tema da loucura nos dias de hoje implica debater a questão do confinamento do doente mental, em locais fechados, ou acolhê-lo em casa e cuidar dele.  Confiná-lo em instituições públicas ou particulares pode significar que a família quer desfazer-se do doente e entregá-lo, simplesmente, a alguém, para que tome conta dele.  Se for um hospital particular, os familiares correm o risco de, ao pagar, pensarem que já estão fazendo tudo o que podem pelo doente.  Por outro lado, ficar com o doente em casa, dia e noite, cuidando dele, pode ser extremamente estressante, dependendo do paciente, de sua idade, de suas condições de vida e do estágio de sua doença.

Nise da Silveira foi uma médica psiquiatra brasileira, nascida em Maceió, Alagoas, (1906-1999).  Militante ativa nas causas sociais, dedicou sua vida à psiquiatria e manifestou-se radicalmente contra as formas agressivas de tratamento de sua época, como o confinamento em hospitais psiquiátricos, eletrochoques e lobotomia, entre outros.  Trabalhando no Centro Psiquiátrico Nacional D. Pedro II, no Rio de Janeiro, ela criou ateliês de pintura e modelagem, com a intenção de possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade, por meio da expressão simbólica e da criatividade.  E aí fundou, em 1952, o Museu de Imagens do Inconsciente, um centro de estudo e pesquisa destinado à preservação desses trabalhos de modelagem e pintura produzidos nos estúdios. Em 1956, Nise desenvolveu outro projeto igualmente revolucionário, criando a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada para a reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas. Ao longo do tratamento, muitos deles podem ser tratados como pacientes externos, numa etapa intermediária entre a rotina hospitalar e sua reintegração à vida em sociedade.

Parece que esse é o caminho, no tratamento de doentes mentais.  Recorrer a uma instituição que acolha o paciente durante algumas horas do dia, ficando a família com as demais horas.  Divide-se o peso da acolhida, nem desfazendo-se do familiar doente num hospital psiquiátrico e nem assumindo o doente em casa, 24 horas.

Voltarei na próxima quarta-feira, dia 30.  Venha comigo!

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