
Interessantes os tempos de hoje. Num mundo superpovoado, em que tanta gente passa fome e não tem onde morar, com a mídia divulgando tanto assalto, sequestro, invasão de domicílio, se você sair por aí acolhendo as pessoas na rua, parando para ouvir o que lhe perguntam ou abrindo a bolsa para tirar uma moeda, corre o risco de ser assaltado pela pessoa que parecia tão boazinha, estava só pedindo uma informação...
Tempos difíceis. No entanto, houve uma época em que a gente parava para ouvir, conversava com as pessoas na rua, não tinha medo das pessoas. Lembro-me de um documentário a que assisti em que o locutor mostra as pessoas nas ruas e nas praças, pedindo esmolas, e gente passando por elas sem sequer vê-las, sem lhes dar um sorriso. Ele dizia que são “as pessoas invisíveis”. E tem razão. Não olhamos para elas, não sorrimos para elas, não as vemos. Por outro lado, fomos educados, desde pequenos, a confiar nas pessoas, a tecer relações de confiança com os familiares, os parentes e os amigos. Já pensou crescer num mundo em que não se confiasse em ninguém, em que cada informação passada tivesse que ser checada, em que tudo tivesse que ser descoberto por conta própria, sem o auxílio de ninguém? Seria um mundo muito difícil, com certeza.
Esse assunto me leva diretamente a duas reflexões: uma, é a necessidade de se perceber a facilidade com que as personalidades políticas e a mídia podem nos enganar. Recentemente, li que o governo da Escócia liberou um preso considerado perigoso, condenado a prisão perpétua, e o devolveu à Itália. Questionado, respondeu que o motivo foi que ele apresenta um câncer de próstata e tem apenas três meses de vida. Mas, dizia a notícia, suspeita-se que tenha entrado dinheiro nessa história. “Não!”, negaram com veemência os governos da Escócia e do Reino Unido. Há muito tempo se descobriu que é possível fazer montagens de fotografias. Volta e meia a Internet nos assombra com uma foto única, especial, quase impossível de existir! e você vai ver foi pura montagem.
A segunda reflexão me leva a uma generalização dessa primeira: é preciso desconfiar. Duvidar. Desconfiar. Checar as informações, enriquecê-las, questioná-las, em vez de acreditar na primeira coisa que lhe contam. Não passar adiante informações que não tenham sofrido o crivo da desconfiança. Isso é que se chama de desenvolver o senso crítico, em lugar da consciência ingênua. O ingênuo é aquele que, além de acreditar na tolice que lhe disseram, ainda a passa adiante como se fosse verdade, “a” verdade.
E, falando nisso, o que é, mesmo, a verdade?
Estarei de volta na próxima segunda-feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora

Se o 24 de agosto de 1954 foi de arrasar, o 25 de agosto não ficou atrás. Só que sete anos depois, em 1961. O presidente Jânio Quadros, eleito presidente da República com mais de 5 milhões de votos, uma vitória acachapante, renunciou, em Brasília, e deixou o trono vago. A notícia chegou por volta das duas horas da tarde, agora já com televisão e pelas rádios. Foi uma bomba!
A gente sabia que a situação lá em Brasília estava periclitante, pois o presidente, homem sem partido e dado a seguir apenas o próprio coração, não se entendia nem com aqueles que o indicaram e apoiaram – que dirá com aqueles que estavam contra ele!
Na verdade, uma leitura mais profunda do panorama político brasileiro (e norte-americano) mostraria que as águas turvas de 1954 não haviam se tornado claras. Os ciúmes e as brigas internas entre os civis e os militares, que já se evidenciaram na década de 1920, não estavam resolvidos até a data. Os mesmos que pressionaram Getúlio pressionavam agora Jânio Quadros. Só que esse era feito de uma têmpera diferente da do outro. O poder lhe subira à cabeça, nos últimos seis ou oito anos, desde que iniciara sua carreira como vereador, em São Paulo, passando depois a governador, e se achava extremamente poderoso.
Não era a primeira vez que Jânio renunciava. Já na condição de candidato a presidente, quando vários partidos se uniram em torno de sua candidatura, ele ameaçara renunciar, diante da segunda ou terceira dificuldade surgida.
Jânio nunca disse à nação por que renunciou. Não conseguiu. Sempre enrolou as respostas. Mas nós sabemos. Pelo desenrolar dos fatos, a cara de Jânio, demissionário, ao subir no avião que o tiraria de Brasília; a entrega da carta de demissão na sexta-feira à tarde, com o pedido de que só fosse entregue ao Congresso na 2ª. feira – todo esse jogo de cena era para permitir que o país inteiro soubesse da renúncia antes de que o Congresso votasse se aceitaria ou não sua renúncia. Jânio queria voltar a Brasília pelos braços do povo, fechar o Congresso e tornar-se ditador. Afinal, Getúlio já fizera isso, antes dele.
Não deu certo. Jânio foi traído. A carta foi entregue ao Congresso na própria sexta-feira à tarde e já os congressistas votaram que estava aceita. Jânio não era mais o presidente do Brasil. E nem estava para voltar na segunda-feira seguinte.
O que se seguiu foi a continuação da crise política que já se prenunciava. As forças militares não queriam deixar que João Goulart, o vice-presidente, assumisse. Mas ele, finalmente, tomou posse. Durou pouco: em 31 de março de 1964, foi deposto, pelas forças militares e por um bando de civis, interessados em tirá-lo do governo. Deu no que deu: ditadura militar, até 1985. Ah! senhor Jânio Quadros!
Estarei de volta na próxima sexta-feira. Venha comigo!
blogqueéquasediário // témerececomentário
Hoje faz 55 anos que um tiro ecoou no 3º andar do Palácio do Catete. Eram 8:30 h da manhã. Getúlio Vargas se suicidara com um tiro no peito. Os primeiros que entraram no quarto, onde o presidente jazia, sozinho, na cama, ainda o pegaram com vida. Mas, pouco depois, ele expirava.
Choque imenso, para todos, amigos e parentes, amigos e inimigos, partidários e oponentes, os que o amavam e os que o odiavam. Choque, sobressalto, gritos de “Meu Deus, e o que será de nós agora”, desmaios, muito choro. O Repórter Esso deu a notícia, em edição extraordinária. Os jornais saíram imediatamente às ruas, com as últimas informações, e as rádios anunciaram a má notícia. As escolas liberaram os alunos, o comércio fechou suas portas, o luto se abateu sobre a população. Mais tarde, no Rio de Janeiro, filas em torno do palácio do Catete, para a despedida do povo. O presidente dera a vida pela nação brasileira, ele, que foi o que mais tempo governou o Brasil, nos tempos da República.
Era o final de um período politicamente muito conturbado, em que o jornalista Carlos Lacerda fazia oposição entranhada ao governo, levando consigo políticos, jornalistas e militares, conclamando Getúlio a renunciar ao cargo. Na noite de 23 de agosto, as autoridades civis e militares reunidas com o presidente, no palácio do Catete, discutiam e discutiam, sem cessar, levantando todas as hipóteses possíveis para debelar o impasse político, desde que, a 05 de agosto do mesmo ano, o Major Vaz morrera, em função de um ataque dirigido a Carlos Lacerda, em Copacabana. Tinha sido a gota d’água. A Getúlio, só restava o pedido de renúncia. Mas, nessa madrugada, os militares, ainda tentando contornar a crise sem derramamento de sangue, propuseram ao presidente que pedisse uma licença para tratamento médico. Sim! Uma licença, um afastamento para refletir, sair por algumas semanas desse panorama opressivo, uma viagem a uma estação de águas... Mas Getúlio não era homem para se refugiar numa mentira. Licença para tratamento de saúde? Não, ele não estava doente. Renunciar? Jamais. Pensando consigo mesmo, ele sabia que a melhor saída para o momento crucial de desafio que enfrentava – e, com ele, a sociedade brasileira – seria sua morte.
Aparentemente concordando com o pedido de licença para tratamento de saúde, ele encerrou a reunião às 3:30 h da madrugada. Já era o dia 24 de agosto de 1954. Ele sabia o que deveria fazer. Foi para seu quarto, dispensou o camareiro de auxiliá-lo, pela manhã, e, às 8:30 h, atirou em seu coração.
Hoje faz 55 anos. É bastante tempo.
Mas quem, como eu, viveu aquele dia, sabe o que foi o Brasil parar por completo, para acompanhar, pelos jornais e pelas rádios, aquela comoção humana, a perseguição aos algozes do presidente ou a caminhada pelas principais avenidas do Rio de Janeiro até o aeroporto, quando seu corpo embarcou, com algumas pessoas da família, para ser enterrado no Rio Grande do Sul.
São 55 anos. Faz bastante tempo. Mas a gente não se esquece de uma pessoa tão importante para o Brasil, como Getúlio Vargas.
Voltarei na próxima 4ª. feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
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