À CECÍLIA

Cecília, você faria anos hoje,

Se não nos tivesse deixado tão depressa.

 

Hoje era um dia em que eu me levantava

E já lhe telefonava,

Desejando um belo dia.

Depois, mais tarde, eu me preparava

Tomava o metrô e ia, bem contente,

A lhe dar um abraço pessoalmente.

 

Era gostoso ver o seu sorriso,

Os olhos bem azuis iluminados,

– É sempre bom sentir-se alguém no centro

E saber que é o homenageado.

 

À noite, vinham as amigas,

As colegas fiéis da Prefeitura,

Para lhe dar com gosto um forte abraço,

E juntas relembrar os velhos tempos,

E juntas retornarem ao passado,

Entoando, talvez, uma canção,

Ao som de um gostoso violão.

 

Até que você viajou

Voltou à bela Europa de outros tempos

E, como se fora adolescente,

Sonhou seus sonhos todos, novamente.

Passou dez dias rindo até sozinha,

Nem percebeu que a tal doença vinha

Assim, tão sorrateiramente,

Fazendo companhia pra você.

 

Foram só poucos meses, dor, tristeza,

E você não pôde com a batalha.

Eu não estava na hora da partida,

Mas tinha havido já a despedida,

Todos nós temos que partir um dia.

Adeus! querida, durma entre seus sonhos.

Fica pra você a garantia

De que aqui, com dor e paciência,

Todos nós velamos sua ausência.

 

Com carinho,

margamoura

DECAMERÃO

Fui estimulada a ver algumas minisséries da TV Globo e, de repente, soube que estava começando uma nova, “Decamerão – A Comédia do Sexo”.  Interessei-me, então, por ela, embora não tenha podido ver o capítulo de abertura, na última 6ª. feira.  Como é baseada em uma obra de Giovanni Boccaccio, quis dar uma espiada no livro, a fim de ter uma idéia de que se tratava.

 

Boccaccio nasceu em 1313 e faleceu em 1375.  O autor foi o criador da prosa italiana e um dos grandes pioneiros da obra de ficção.  Foi também poeta e prosador em latim e italiano, embora, como poeta, não tenha chegado ao ponto máximo de sua criação.  Decamerão se constitui numa coleção de cem novelas, que se supõem contadas em dez dias, por sete moças e três rapazes, reunidos nas imediações de Florença, na Itália, fugindo da peste que havia assolado a região, em 1348.  A obra tem um tom vivamente realista, em que se entrechocam o estoicismo cristão e o epicurismo arrebatado. E a voluptuosidade erótica dá a tônica do livro.

 

Só li, por enquanto, a introdução, mas o que mais me chamou a atenção foi o fato de Boccaccio iniciar o livro com uma descrição da situação terrível vivenciada na Itália, na época da peste negra, na metade do século XIV. A peste alcançou toda a Europa, com mais furor numas regiões do que em outras, e o autor descreve muito bem o sofrimento da população e as formas que encontrava para fugir da influência da epidemia. É uma narrativa impressionante.  A forma rápida com que se dava o contágio fez com que as pessoas vivessem cada vez mais assustadas, a maioria sem coragem para tratar de um irmão, da mãe, da sobrinha doente.  À medida em que a morte ceifava o grupo todo, as famílias foram abandonando práticas seculares de solidariedade, como o recolhimento dos defuntos, as cerimônias do funeral, o modo de acompanhar os corpos até o cemitério, as orações que os padres rezavam. Todos esses rituais foram sendo deixados de lado, vendo-se os corpos mortos amontoados a um canto, jogados na estrada, abandonados ao vento, antes que surgissem dois ou três voluntários corajosos para cuidar deles. 

 

Foram meses terríveis.  Uma pessoa sadia, pela manhã, podia estar morta à tarde. A população não sabia de onde vinha o mal e desconhecia os remédios que poderiam curá-lo.  Ficavam à mercê de curandeiros, eles também não sabendo o que dizer para evitar que a peste negra fizesse novas vítimas.

 

Então, esquecendo-me, por uns momentos, da minissérie da televisão, lembrei-me de que estamos vivendo um período de sofrimento, em que a gripe suína nos ataca de um momento para outro, quase sem defesa de nossa parte.  E fiquei torcendo para que o sol viesse depressa, para ver se nos livra dessa situação, que não queremos ver, nem de brincadeira, parecida com aquela, descrita por Boccaccio.

 

Estarei de volta na próxima 4ª. feira.  Venha comigo!

 

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