QUESTÕES DE HIGIENE

 

Estou lendo “1808”, de Laurentino Gomes, lançado pela Editora Planeta do Brasil, em 2007, sobre a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, em 1808, fugindo da ameaça napoleônica de invadir Portugal.

 

O livro é muito interessante e narra as peripécias de D. Maria I, a Louca, seu filho, o príncipe regente D. João VI, sua nora, Carlota Joaquina, os nove filhos do casal, e cerca de outras quinze mil pessoas que vieram nas embarcações que deixaram a Torre de Belém para refugiar-se no Brasil. Descreve as condições do Rio de Janeiro naquela época, de como a elite carioca teve que abrir mão de seu conforto para ajudar a realeza a se acomodar nas terras brasileiras e os benefícios que essa chegada da Corte trouxe para o Brasil, como a abertura dos portos à comercialização com o estrangeiro, a instalação das primeiras indústrias, a abertura de bibliotecas, a fundação de Universidades, a chegada de cientistas dentre os que nos visitavam – e muito mais coisas interessantes.

 

Mas o que realmente me comoveu foram as descrições da falta de higiene pessoal e grupal nas ruas e nas casas do Rio de Janeiro, na praia, no porto, no cais e dentro de casa. Não havia saneamento básico, de modo que a urina e as fezes de toda a população eram recolhidas em recipientes, à noite, sendo transportadas na manhã seguinte por escravos e jogadas no mar.  Quando havia festas e as pessoas se reuniam em ambiente fechado, os escravos abanavam os convidados com grandes leques ou plumas, para minimizar o mau cheiro, que era insuportável. 

 

Conta o autor que certa vez D. João VI caiu no mar, sem querer, e que esse foi o único banho que ele tomou nos treze anos em que permaneceu no Brasil. Além disso, ele não trocava de roupa.  As ruas eram sujas.  As hortaliças e as carnes que se expunham nas feiras e nos mercados não recebiam nenhum trato, misturando-se a outros produtos que houvesse no local. 

 

Não que eu não soubesse de tudo isso.  É que nos choca quando vemos por escrito, atestado, documentado, sintoma de ignorância, pobreza, pouco caso, falta de educação, falta de recursos para as melhorias básicas necessárias.  Mas o autor não iria deixar de mencionar isso só porque nos repugna, não é mesmo?

 

No início do século XX, o presidente Rodrigues Alves resolveu sanear a cidade do Rio de Janeiro e, nesse sentido, mandou derrubar cortiços, pardieiros, casebres, casas que estavam para cair. Queimaram-se colchões e roupas de cama em praça pública, visando à desinfecção. Pagava-se por cada rato morto que fosse entregue num determinado serviço público. E o sanitarista Osvaldo Cruz deu-lhe todo o apoio, lançando maciçamente as campanhas de vacinação, que tanta dor de cabeça trouxeram aos moradores daquela primeira década de 1900.  Ainda bem!

 

Estarei de volta na próxima segunda-feira.  Até lá!

 

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

O 9 DE JULHO

A Revolução Constitucionalista de 1932 foi a primeira grande revolta contra o governo de Getúlio Vargas e o último grande conflito armado ocorrido no Brasil.  Teve início em julho e terminou em outubro de 1932, com a derrota do Estado de São Paulo, que iniciara a revolução, pretendendo a derrubada do Governo Provisório de Getúlio, que tivera início em 03 de novembro de 1930.  Era a forma paulista de resposta ao governo federal, depois das humilhações pelas quais passara, em 1930.  Naquela ocasião, o presidente da República, Washington Luís, que tinha sido presidente de São Paulo, foi deposto, e o presidente eleito, Júlio Prestes, que também vinha de São Paulo, foi impedido de tomar posse.

 

Quando Getúlio Vargas tomou posse, no Rio de Janeiro, suspendeu a Constituição e nomeou interventores em todos os Estados, com exceção de Minas Gerais.  Para São Paulo, designou o tenente, promovido a Coronel, João Alberto Lins de Barros, considerado “o Pernambucano”, pelo povo paulista.  Em 1930, o presidente em exercício era Heitor Penteado.  Em 1932, a irritação com Getúlio não cedeu, quando o presidente nomeou o paulista Pedro Manuel de Toledo como interventor do Estado. A primeira manifestação coletiva dos paulistas foi um mega comício, na Praça da Sé, em 25 de janeiro de 1932, com cerca de duzentas mil pessoas.  Em maio do mesmo ano, novos comícios de caráter constitucionalista.  O estopim da revolta foi a morte de cinco jovens no centro da cidade de São Paulo, assassinados a tiros por partidários do governo federal.  Os jovens eram Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo e Alvarenga, fato que deu origem à sigla MMDC e que levantou a população paulista contra Getúlio.

 

O movimento armado eclodiu em 09 de julho de 1932, quando os paulistas pensaram que poderiam ter as forças de outros Estados a seu favor.  Mas isso não aconteceu e o Estado de São Paulo lutou sozinho (houve o apoio de um grupo do que é hoje o Mato Grosso do Sul e, em Minas, o ex-presidente Artur Bernardes foi a favor da revolução).  Pedro de Toledo foi proclamado governador de São Paulo e o comandante civil da revolução. Mas, apesar de todo o empenho, de contar com cerca de quarenta mil soldados e de ter a seu favor a vontade popular, São Paulo não resistiu ao poder das forças armadas do governo federal e em outubro do mesmo ano a revolução chegou ao fim. 

 

De alguma maneira, houve um saldo positivo, apesar da derrota.  Em 03 de maio de 1933, realizaram-se eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, quando a mulher votou pela primeira vez no Brasil, em eleições nacionais.  E em 1934 foi promulgada uma nova Constituição brasileira.  O dia 9 de julho virou feriado estadual.

 

Voltarei na próxima sexta-feira.  Venha comigo!

 

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VIZINHOS INCÔMODOS NO TRABALHO

No suplemento The New York Times, que a Folha de São Paulo traz às segundas-feiras, há hoje um artigo de Phyllis Korkki, Consultor de Carreiras, sobre um tema oportuno e importante: como se livrar dos colegas,  vizinhos de mesa, que falam sem parar, invadem abruptamente sua mesa de trabalho ou comem comidas de cheiro muito forte. O autor menciona as sugestões de vários professores e consultores, ao longo do texto.

A questão é: como lidar com alguém que irrita você.  Há os que irritam só um pouco e há os que irritam bastante e se tornam insuportáveis.  A primeira coisa a fazer é olhar para dentro de si mesmo e ver se não é você que anda insuportável e que nem mais se aguenta.  Um pouco de tolerância, uma dose extra de paciência, poderá ajudá-lo a conviver melhor com as pessoas.

Mas, não.  É o outro que está, mesmo, sendo invasivo e impedindo você de trabalhar.  No ambiente atual das empresas, em que praticamente não há salas e nem divisórias, as pessoas ficam mais expostas ao contato, umas com as outras, e o ambiente de trabalho poderá conter mais ruído do que o habitual.  Em um local de trabalho "você coloca pessoas diferentes juntas; elas não querem necessariamente estar lá e têm motivações diferentes", disse Robert I. Sutton, professor e psicólogo organizacional na Universidade Stanford, na Califórnia.

 

Você pode tentar conversar diretamente com a pessoa e dizer-lhe o que é, no comportamento dela, que o incomoda.  Às vezes, uma cadeira pode ser posta perto de sua mesa, de forma a dificultar o avanço do invasor.  Outra forma, é sair de vez em quando da sala, criando o que Littman chamou de “alçapões” de fuga.  Outro jeito, ainda, é criar a arte de um distanciamento emocional, tentar ficar indiferente, evitar que aquele assunto ou aquela pessoa o atinja. Uma última saída é recorrer ao gerente do setor, mas isso se recomenda  apenas em último caso.

O artigo em pauta se refere ao ambiente de trabalho, mas é óbvio que as pessoas nos irritam e nós irritamos as pessoas, diariamente, em maior ou menor grau.  Amigos, conversas ao telefone, vizinhas de apartamento que se procuram, primos e primas, nosso universo é feito de relações interpessoais e há de tudo: pessoas amáveis, simpáticas, agradáveis, que falam baixo e nos encantam; e pessoas desagradáveis, que só se queixam, que só falam de si, que falam alto, que não veem o que se passa a um palmo do nariz.  É necessário encontrar as melhores formas de lidar com essas pessoas pouco sensíveis e isso se fará na dependência do grau de intimidade que se tenha com elas: desde uma conversa íntima, cheia de afeto, recomendando-lhe a procura de um profissional de ajuda até o engenho de não se deixar colher pelas inconveniências do outro, criando uma couraça para se defender dele, quando várias estratégias já tiverem sido postos em prática.

Estarei de volta na próxima 4ª. feira.  Venha comigo!

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