
Tem dado o que falar o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que durante vários meses ameaçou que faria modificações em nossa forma de escrever e que, finalmente, entrou em vigor, em 2009. Essa questão de se alterar a ortografia é uma discussão de longa data, entre os países de língua portuguesa. Em 1986, o presidente Sarney promoveu um encontro, no Rio de Janeiro, desses sete países: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe, de que resultou a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Finalmente, depois de impasses e muitos altos e baixos, em 1998 aprovou-se no Brasil o Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que finalmente passou a vigorar a partir de 2009. Portugal o porá em prática a partir de 2010.
Comprei o livro Escrevendo pela nova ortografia, do Instituto Antônio Houaiss, editado pela Publifolha, e pus-me diligentemente a estudar as mudanças. A mais falada é, sem dúvida, a queda do trema, que muitas pessoas já tinham deixado de usar, há tempos. Mantém-se apenas nos nomes próprios, como Müller, mas cai por completo em frequentemente ou bilíngue, por exemplo. Outra mudança que decorei foi que as palavras ideia e jiboia vão sem acento. Então, cada vez que vejo uma palavra parecida com elas já vou tirando o acento. Joia e Doroteia, por exemplo, vão ser escritas assim, de agora em diante.
Mas onde o carro pega é no uso do hífen. Está muito difícil aprender onde ele se mantém e onde foi que ele caiu. Nunca foi fácil usar o hífen corretamente, mas agora está pior, porque não se chega a compreender o motivo da mudança. O fato é que extra-muros vira extramuros e dona-de-casa, dona de casa, mas guarda-roupa continua guarda-roupa e bem-vindo continua bem-vindo.
Um item em que as pessoas estão encontrando grande dificuldade é quanto ao uso do acento no presente do Indicativo do verto ter: eles têm continua acentuado, quem saiu fora foi o acento de veem, deem. Pôr e pôde mantêm os acentos que já tinham antes. Ele pode = presente, sem acento. Ele pôde = passado, com acento.
Bem, não é fácil aceitar-se uma mudança de ortografia assim, de repente, sem que se vejam com facilidade as vantagens de tais alterações. Há muito inconformismo, por parte de estudiosos, autores, escritores, jornalistas, e nem os que participaram diretamente do projeto de mudança na ortografia conseguem, às vezes, chegar ao consenso. Muita gente acha que não havia motivo para essas alterações, que a língua portuguesa nunca vai ser uma só, já que cada país tem suas características próprias de utilização do idioma. Por enquanto, estamos todos tentando pôr as mudanças na rua. Mas não sei se a tradição não acabará falando mais alto do que a lei.
Voltarei na próxima segunda-feira. Até lá!
blogqueéquasediário // témerececomentários

Houve um tempo em que fazia sentido dizer: “Hoje é dia de São João!”. Isso, quando uma grande parte do Brasil vivia na zona rural ou em cidades pequenas e mantinha-se a tradição de se celebrarem as festas juninas, de Santo Antônio, casamenteiro, São João, o padrinho das crianças, e São Pedro, o guardador das chaves do céu.
Rezava o costume que as moças vestissem trajes típicos, constituídos de vestidos ou saias muito rodadas, geralmente de babados, um lenço bonito no pescoço, chapéu de palha na cabeça e um sapatinho nos pés, de preferência com meia branca. Nem pensar em calçar tênis, imagine! Também os rapazes se paramentavam, calça e camisa de manga curta, rosto pintado com carvão preto, fingindo um bigode ou uma barba rala, lenço no pescoço – e toca a sair pelo terreiro, rapazes e moças, cada qual procurando seu par, torcendo para arrumar um namorado.
Nas festas juninas havia o “correio elegante”, uma espécie de recado por escrito, que se mandava pelo mensageiro, chamando o rapaz ou a moça para namorar ou apenas criando uma pequena confusão. A entrega era sempre de modo disfarçado, para que não se percebesse quem havia endereçado a quem o bilhete.

Havia a fogueira, o amendoim, o aipim, a pipoca, o quentão, a carne assada. E estouravam-se os fogos, desde os pequenos, conhecidos como “traques”, até os maiores, foguetes que explodiam no alto, fazendo um barulho enorme. Havia as bombinhas, que estouravam de leve, e as bombas maiores, que faziam um barulhão e enchiam as pessoas de medo. E havia os balões, ah! os balões, que subiam ao céu, para gozo da moçada reunida. Que lindos os balões, subindo, subindo mais alto, e descendo, sem que se soubesse em que lugar exatamente cairiam.
Com o passar do tempo, essas tradições vieram para as cidades grandes e tentaram ser revitalizadas, no mês de junho. Mas qual o quê! Não se consegue mais aquele clima de intimidade que havia, aquele jeito gostoso de se brincar e cantar, nas festas, de dançar a quadrilha, de se vestir de noiva e imitar o casamento de verdade. Não é fácil transplantar-se uma tradição de um meio rural para um meio urbano – tão urbano, com o asfalto tomando conta das ruas, com os inúmeros fios elétricos que acabaram impedindo que se soltassem balões! Vai ver que hoje nem a fogueira resiste ao solo de cimento que se tem nas cidades grandes.
Mas é assim mesmo. Costumes, tradições, lendas, festas populares, são vivências que se passam de uma geração a outra, sempre sofrendo adaptações para sobreviver. As festas juninas ainda acontecem na periferia das cidades grandes, nos clubes sociais e nos colégios. Mas, descaracterizadas, sobrevivem do melhor modo que podem. Sinal dos tempos.
Estarei de volta na próxima 6ª. feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Meu caro Toni,
Entendi o que você disse. Pessoas críticas não saem por aí dizendo o que os outros devem fazer ou deixar de fazer, não é mesmo?
Quanto à questão de ser crime, concordo com você que, se o sistema de vendas fosse mais transparente e mais bem organizado, não se necessitaria de filas imensas. Por outro lado, convenhamos, um jogo de futebol que será televisionado merece, mesmo, tamanho esforço?
Um abraço,
margamoura

Está na moda falar-se em “bullying”, uma palavra em inglês difícil de se pronunciar. Na verdade, ela é utilizada para descrever atos de violência física ou psicológica, da parte de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, com a intenção de intimidar o outro. Geralmente feitos para agredir, esses atos buscam pessoas que têm dificuldade de se defender. “Bully” é valentão. Sempre houve provocações entre crianças e jovens, do tipo “pego você na saída da escola”, mas parece que essas brigas estão tomando outras dimensões, pelo tanto que leio na Internet, pelo muito que se referem a isso como um problema.
Hoje, no suplemento do “The New York Times”, na Folha de São Paulo, há um ensaio de Perri Klass, um médico, sobre o assunto: “Revidando o “bullying”. Já não se pensa mais que essas provocações sejam “coisas de adolescentes”, como no passado. A Academia Americana de Pediatria vai publicar uma nova versão de uma declaração oficial sobre o papel do pediatra na prevenção da violência juvenil e, pela primeira vez, conterá uma seção sobre “bullying”, incluindo a recomendação de que as escolas adotem um modelo de prevenção, desenvolvido por Dan Olweus, professor e pesquisador de psicologia na Noruega.
O que tenho lido sobre o assunto diz respeito a tentativas de suicídio, por parte dos que se sentem oprimidos pelos grupos de colegas. Está muito em voga os grupos de adolescentes utilizarem a Internet para ridicularizarem os colegas, troçarem deles, ameaçarem-nos de agressão. E as vítimas nem sempre têm capacidade de revide, tendendo a entrar em depressão e a tentar o suicídio. Matérias recentes em jornais deram conta de que os pais desses jovens oprimidos estão entrando no circuito e se unindo, para enfrentarem os agressores na justiça. E o que é curioso é que os valentões nem sempre se dão conta de que poderão ser descobertos. Apesar de atacarem por meio de e-mails anônimos, é possível rastrear a origem desses e-mails e seus nomes virem a ser descobertos. E, em muitos casos, foi possível reverter a situação: os valentões, confrontados e sabedores de que poderiam responder a processos, se desculparam e prometeram não voltar a fazer aquelas “brincadeiras” maldosas. Há casos, também, de estimulação ao suicídio, por meio de e-mails: forma-se uma rede, em que as mensagens são no sentido de convidar o colega deprimido a suicidar-se. Isso, também, é uma agressão, tanto quanto os e-mails intimidatórios.
No artigo de Klass, o destaque para a nova teoria que está ganhando aceitação é trabalhar com aqueles que assistem às agressões verbais ou virtuais e envolvê-los na compreensão de que isso não se faz, conquistá-los para a causa da derrubada de tamanha carga de agressividade.
Voltarei na próxima quarta-feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
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