TRAIÇÕES DO PENSAMENTO

O marido amoroso vê o bilhete da mulher, dizendo que foi à feira e já volta, e pensa: “Que danada, essa minha mulher.  E corajosa!  Já se levantou, tomou banho e foi à feira”.  Mas seu inconsciente pode traí-lo: “A louca da minha mulher já se levantou e foi pra rua.  Êta canelinha de ferro!”.  O marido amoroso e egoísta poderá pensar: “Será que depois da feira ela vai fazer aquilo que lhe pedi?”

 

A professora dedicada chama os alunos para se sentarem e acalmarem.  Estão muito agitados, hoje.  Ao loirinho, em particular, ela diz, com doçura: “Joãozinho, por favor, não comece, sim?”, enquanto, para si, ela murmura: “Vê se senta logo, garoto safado, em vez de começar a encher a minha paciência.”

 

O noivo, feliz, baba de contentamento.  Casamento marcado, terno aprontando no alfaiate, noiva bonita e apaixonada, o que mais pode querer?  Conversando com a mãe, no entanto, seu pensamento vai em outra direção: “Mãe, será que depois do casamento meu sogro me empresta um dinheiro para financiar aquele projeto?  Pensando bem, ele poderia até me dar uma parte do dinheiro...  Eles são tão ricos!”

 

A discussão era normal, desses bate-bocas que sempre há entre pessoas que se querem bem.  Ela o acusou de algo mal-feito, ele se defendeu, dizendo que não tinha sido ele.  Ela o interrompeu, lembrando-lhe que não era a primeira vez.  Ele não gostou.  Puxou, então, um mal-feito de dois meses atrás, culpa exclusiva dela.  Ela se irritou.  Começou a falar mais alto.  Defendeu-se.  Buscou, então, um mal-sucedido há um ano, por falha dele.  Ele agora gritava, para se defender e acusá-la.  Quando perceberam, estavam aos urros, ofendendo-se e xingando-se por uma bobagem.  Ela interrompeu o que dizia, parou para refletir, caiu na risada e correu para abraçá-lo: “Ora, cá estamos nós brigando feito cão e gato por uma bobagem.  Vamos lá, me dê um beijo.”

 

A futura mamãe sentou-se, pôs a mão sobre a barriga, suspirou e fechou os olhos.  Procurou relaxar.  Lembrou-se de algo que ouvira em criança, que um nenê que tenha problemas genéticos poderá nascer com sérios problemas.  Depois, pensou na priminha, que, de fato, sofrera muito, naquela época da talidomida.  Tornou a suspirar.  Estava em meio a esses pensamentos tristes, quando o marido chegou.  Tomou-a nos braços e rodopiou com ela: “Então, como vão essas duas criaturas aqui da minha casa?”.  Ela sorriu e apoiou a cabeça no ombro dele: “Vamos muito bem, obrigada”.  E foi preparar a refeição da noite.

 

 

Voltarei na próxima segunda-feira.  Até lá!

 

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

MEU CARO TONI

 

Não entendi a relação entre a fila e a venda de ingressos.  Onde é que está o crime? Concordo com os que dizem que deveria haver senha para os primeiros que chegassem, de modo que os que não tivessem recebido senha não teriam direito ao ingresso.  Mas não entendi onde está o "crime".

Porém, não era deste ângulo que eu tratava do assunto.  Por favor, leia a continuação que publico hoje e veja se você entende de que estou falando. "Crime", talvez, seja a forma como a mídia faz a cabeça da garotada, tirando-lhe completamente a faculdade de senso crítico. Um abraço,

margamoura

O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO (2)

Eu falava, na segunda-feira, na pobreza da escolha de ficar-se ao relento, numa noite de frio, para adquirir um ingresso para um jogo de futebol.  Voltemos ao assunto.

 

Um dos objetivos mais importantes dos processos de individuação e socialização é o de ajudar as crianças e os jovens a conseguir sua autonomia.  De heterônomos, isto é, aqueles que se deixam guiar pela vontade dos outros, para autônomos, quer dizer, aqueles que fazem suas escolhas e conseguem viver sobre as próprias pernas.  E, nesse sentido, o fundamental é pensar.  Pensar, sentir, agir, são mecanismos que o ser humano desenvolve e executa simultaneamente.  Não é que ele pense, primeiro, para depois emocionar-se, para depois agir.  Esses processos se dão em seu organismo ao mesmo tempo, embora sua expressão possa dar-se em momentos diferentes. O indivíduo, desde criança, recebe os inputs que lhe vêm do ambiente externo e os processa internamente.  Desse procedimento, ele tira conclusões, que são sua aprendizagem.  Portanto, as informações que lhe chegam, tanto na escola quanto pelos livros, pela televisão, pelo cheiro do perfume ou pelo paladar, são dicas que ele absorve e processa.  O ser humano está sempre transformando em aprendizagem as informações que capta pelos sentidos.

 

Pensar por conta própria é ser capaz de refletir a partir de informações, metabolizá-las e tirar conclusões.  É poder distinguir previamente, por exemplo, se tal ação o levará à felicidade ou irá marginalizá-lo.  Cada vez que se dá o processo de pensamento com a reflexão sobre os prós e os contras de determinado passo, dizemos que as informações estão passando pelo crivo, pela consciência crítica do indivíduo. Pelo contrário, cada vez que as pessoas se deixam levar pelo pensamento de outras, sem filtrá-las, sem refletir sobre o que estão fazendo, dizemos que elas têm uma consciência ingênua.

 

Os processos de individuação e socialização devem ser capazes de ajudar as pessoas a desenvolverem o espírito crítico, para poderem alcançar a autonomia.  Pessoas críticas duvidam das informações que recebem e vão checá-las, antes de passá-las adiante.  Pessoas críticas fazem mais perguntas do que dão respostas.  Pessoas críticas não ditam a verdade aos outros, como se enxergassem mais longe do que eles – pelo contrário, ajudam as pessoas a encontrar seus próprios caminhos.  Pessoas críticas não passam noites inteiras de frio ao relento, por conta da obtenção de ingressos para um jogo de futebol que haverá na semana.

 

Voltarei na próxima sexta-feira.  Venha comigo!

 

blogqueéquasediário // témerececomentário

O PROCESSO DE SOCIALIZAÇÃO

 

Ouvi pelo rádio, hoje de manhã, que várias pessoas passaram a noite ao relento, no frio, fazendo fila às portas do estádio, para garantir um ingresso num determinado jogo de futebol que vai haver.  Fiquei impressionada com a tenacidade dessa gente.  Vício?  Obsessão?  Falta do que fazer?  Promessa?  E cheguei à conclusão de que uma sociedade que vê uma parte de seus membros fazendo isso não está cumprindo adequadamente seu processo de socialização.

 

Somos um em todos e todos em um.  Somos feitos da mesma matéria-prima, neste planeta Terra, nascidos no sul ou no norte, nas geleiras do Chile ou ao lado do Vesúvio: um corpo, coração, cérebro, músculos, sangue correndo nas veias.  E, por isso, crescemos de modo muito semelhante, uns aos outros, seres humanos feitos da mesma cepa. Por outro lado, cada um de nós se distingue em sua individualidade, porque somos únicos em nosso modo de ser.

 

O que torna um povo diferente do outro é a cultura, aquele acervo de traços culturais que herdamos dos que vieram antes de nós, tornando-os nossos, ao mesmo tempo em que os modificamos.  Passar adiante esse patrimônio cultural é tarefa da sociedade, por meio do que chamamos de processos de socialização e de individualização.Transmitir padrões de conduta, idéias, valores, sentimentos, crenças, sistemas econômico, político, social, ritos, tradições, costumes, modo de comportar-se à mesa, respeito pelos mais velhos, tudo isso já foi inventado antes de nós e nos foi ensinado, desde o nascimento.  As crianças são ensinadas desde o berço, pelos pais, pelos irmãos, pelos familiares; pela escola, pelos professores, pelos colegas; pela igreja, pelas orações, pelas tradições religiosas.  Ao receber esse ensinamento e transformá-lo, peneirá-lo, acatá-lo, rejeitá-lo, cada criança se torna um ser único, ela mesma, diferente de qualquer outro ser humano – e, ao mesmo tempo, igual a ele.  E, ao reunir-se em pequenos grupos, também ela estará reproduzindo o que recebeu e produzindo uma nova sociedade.

 

Ao aprender que somos um na multidão, que, ao mesmo tempo, é feita de cada um de nós, começamos a compreender o que temos em comum com os outros e o que nos diferencia deles.  Fica evidente que todos temos uma série de necessidades a cumprir, para nossa sobrevivência: precisamos de habitação, agasalho, alimentação, educação, saúde, trabalho, descanso – necessidades essas que são tanto individuais quanto coletivas.  E um olhar mais agudo demonstrará que só uma parte da sociedade consegue, efetivamente, satisfazer essas necessidades básicas. 

 

Diante de tantas crenças e tantos valores diferentes, de tanta coisa que ainda está por fazer, tenho para mim que uma sociedade que permite que uma parte de seus membros se apaixone pelo jogo de futebol a ponto de passar uma noite ao relento, em busca de adquirir um ingresso para um determinado jogo, está falhando em seu processo de socialização.  Você discorda?

 

Estarei de volta na quarta-feira.  Venha comigo!

margamourablogadora // rimatambémcomescritora




[ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL , Sudeste , SAO PAULO , JARDIM PAULISTA , Mulher , Portuguese , Spanish , Livros , Games e brinquedos

 
Visitante número: