A menininha perguntou à mãe, no dia em que completava 4 anos: Mamãe, o que é a vida?”. “A vida, filhinha, é esse modo de estar sempre juntos, o papai, a mamãe, seu irmãozinho. A gente sai da cama, toma o café da manhã, seu irmão e você vão para a escola, seu pai sai para o trabalho, a mamãe fica em casa, arrumando as coisas, e depois também sai para trabalhar. É isso que nós dizemos que é viver.”

Já para uma adolescente de 15 anos, apaixonada e desiludida, cujo namorado a tivesse trocado por outra, eu talvez dissesse: “A vida é cheia de enganos e desenganos. Hoje você está triste e não há nada que eu possa dizer para consolá-la. Mas em pouco tempo você irá perceber que tem tanta energia e há tanta coisa gostosa para fazer que esse seu desânimo irá passar num instante. Vamos! Coragem! A vida é isso mesmo. Hoje você chora, amanhã já estará rindo”.
A vida é, de fato, uma sucessão de acontecimentos, em que as tramas se vão sucedendo e se tece uma rede invisível de fios, de sentimentos, de idéias, de desejos, de alegrias, de frustrações, de fantasias, de cochichos, de arremedos, de falsidades, de inadequações... Cada fato, cada momento, cada circunstância, envolvendo uma, duas, dez pessoas, vai deixando entrever-se o que será o passo seguinte, a nova figura, a próxima decisão, o acasalamento ou a desunião.
Não acredito que a vida de cada um de nós esteja com suas linhas traçadas previamente. Não acredito neste tipo de determinismo, que os dados já tenham sido lançados, que nossa existência esteja sob signos pré-determinados. Pelo contrário, estou entre os que pensam que o futuro está aí para ser construído. O passado, o presente e a construção do futuro fazem parte da vida. E daí essa possibilidade imensa que temos de tecer a teia, debulhar os grãos, arrumar os fios, regar a plantinha, pô-la para tomar sol, fiar essa rede incrível de relações, na direção daquilo em que acreditamos.
A vida é maravilhosa, é um bem, é uma dádiva. E, com certeza, hoje, ela é uma e única. É essa que temos nas mãos. Para muitos, ela é múltipla, isto é, depois da morte volta-se a nascer. Para muitos, ela é terrena e, depois, eterna. Prefiro investir nessa, que me foi dada de presente, e fazê-la o mais possível original, bem vivida, bem aproveitada. Se houver uma outra, descobrirei quando acordar no outro mundo.
Voltarei na segunda-feira, dia 15 de junho. Bom feriado e até lá!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
A cidade era pequena, pacata, simples, deliciosa. As montanhas da Mantiqueira a envolviam num abraço gostoso, o céu era mais azul do que em qualquer outra parte, o sol brilhava e a chuva caía ali com mais intensidade. Era tudo muito bonito, muito gostoso, e nós nos apaixonamos. Compramos nossa casinha modesta, de pessoas do local que a haviam construído, de cimento batido, sem forro, sala, dois quartos, cozinha e banheiro, um fogão a lenha e mais nada. A porta da cozinha abria para um quintal de pura grama.
Mas como era bonita, assim, nessa simplicidade. E como era gostosa, aconchegante. Mandamos colocar o assoalho de tábuas e o forro de nós de pinho. Com isso, ela ficou mais baixa, encurtou, e se parecia demais com a casa dos sete anões. Aos poucos, fomos agrandando a casa. Primeiro, uma varanda, logo ali, na porta da cozinha. Depois, havia espaço, outra varanda, uma mesa branca e quatro cadeiras. Há espaço ainda? Dando para a outra rua, uma garagem “subterrânea” e um quarto de hóspedes, com um banheiro azulejado. Agora, sim! Os amigos já podiam hospedar-se lá fora, a casa tinha dois banheiros, que beleza!

Um dia, a visita de uma amiga arquiteta. “E por que não invertem os cômodos? Seu quarto de dormir está grande demais, a saleta é pequena. Se trocarem esses móveis de lugar...”. E assim se fez. O cômodo que tinha sido quarto abriu uma porta de vidro e outra, de madeira, para a varanda. Então, a sala agigantou-se, mudaram-se os móveis, tudo verde, tal e qual a natureza que circundava a casa.
Que lindo é vir aqui para passear, andar a pé, conviver com essas pessoas da terra, tão generosas, tão simples, tão amigas, subir e descer esses morros, cheirar essa terra molhada, apreciar esses distintos tons de verde! E à noite, bater um baralhinho, que bom! Uma cidade pequena pré-industrial é uma cidade não-consumista. E isso é fantástico!
O tempo passou. A cidade, a casinha, as pessoas e nós formamos uma comunidade extremamente prazenteira. Muitas crianças nasceram, muitos amigos faleceram, a cidade cresceu. Veio o asfalto, cobrindo a velha estrada de terra. Vieram os turistas, vieram os forasteiros, que resolveram ficar. Montaram seus estabelecimentos de comércio. Puseram placas de madeira na porta. E vieram as pousadas. Uma, duas, três, oito, dez... E, com elas, a propaganda pelos jornais. Então, a cidadezinha passou a ser conhecida num raio de mais de duzentos quilômetros. E chegaram as gentes. E chegaram os carros. E ela cresceu. E o entorno se ampliou.
Nem por isso perdeu a beleza, que quem lhe dá é a alma das pessoas que moram lá e a natureza que a circunda. E também não foi por isso que ontem encerramos um ciclo de mais de trinta anos. Contingências da vida, o tempo que passa, as novas necessidades que surgem, chegou a hora de partir. Com tristeza, o coração sangrando. Muito gratos à região, às pessoas, à cidade, à casinha que nos fizeram tão felizes, nesses anos todos. E guardaremos conosco a lembrança de todo esse tempo em que aprendemos tanto e que nos fez amadurecer. Obrigada, Gonçalves!
Voltarei na próxima quarta-feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
|
|
||||
|
||||
|
||||