Eles chegaram, assim, tão sorrateiros, 
Vieram de mansinho, os insensatos,
E, tal e qual um bando de posseiros,
Entraram dentro do meu coração,
Como imitando a letra da canção.
Eu nem sei se notei quando chegaram,
Mas todo mundo em volta percebeu.
Alguém me cutucou e disse: “Quando?”
Portei-me como quem não entendeu.
Mas quando me assaltaram, assim, de chofre,
Nem sei se para o bem, ou para o mal,
Eu me dei conta e caí na real.
Bem percebi que estavam já chegando
E fiz que não lhes dei muita atenção.
Vieram sem sequer pedir licença,
Nem receberam uma autorização.
Postaram-se ao meu lado, companheiros,
Como se cães fiéis de estimação.
São redondos e sempre em movimento,
Chamam bastante, mesmo, a atenção.
Também, pudera, vêm tão carregados,
De afeto, muita vida e muita ação!
Quanto já trabalharam, quantos fardos
Levaram pela mão e contramão,
Quantas vezes doído o sofrimento!
Quanta ternura, quantos bons conselhos
Presenciaram ao longo do caminho.
E, se são meus, então eu os acolho.
E saberei tratá-los com carinho.
Era notório, iria acontecer.
A data até estava já marcada.
E quando compreendi, com nitidez,
Me preparei, então, para acolher.
Um acontecimento, assim, tão forte,
É algo tenso, não se manda embora.
É para se encarar com lucidez.
Fiquei contente e vi que tive sorte:
Ao mesmo tempo, sábia e mais madura,
Compreendi tinha soado a hora.
Sou muito grata pela sua chegada.
Se eles me pertencem, que aqui fiquem.
Eu sou uma mulher realizada.
Vocês já adivinharam essa charada?
Quem foi que veio, assim, para o jantar?
Quem são eles, que chegam, sorrateiros,
Os primeiros a nos cumprimentar?
Sem fazer mal e sem nos causar danos,
Quando entram no corpo pra ficar,
Só podem ser os meus oitenta anos.
Voltarei na próxima segunda-feira. Venha comigo!
margamouraescritoraduradoura
Estando no Rio de Janeiro, fomos visitar o palácio do Catete, famosa sede de governo desde o final do século XIX até 1960, quando a capital do país se transferiu para Brasília. Ali estiveram Prudente de Morais, Campos Salles, Venceslau Braz e tantos outros, até chegar a Juscelino Kubitschek. Mas o que se guarda, mesmo, de lembrança do Catete, foi o suicídio de Getúlio Vargas, em 24 de agosto de 1954.

O palácio localiza-se no bairro do mesmo nome e apresenta um conjunto de edifícios, sendo o maior o corpo principal, seguido de pequenos outros, um deles, a antiga garagem do prédio. O projeto inicial data de 1858, quando os trabalhos tiveram início, ao se demolir a antiga casa de número 150, da rua do Catete. Quando, em 1897, Prudente de Morais, o primeiro presidente civil da República, ficou doente e se afastou, seu vice, Manuel Vitorino, comprou o palacete, que passou a ser a sede do Poder Executivo do Brasil.
Na construção original, o alto do edifício possuía águias fundidas em ferro, que, posteriormente, foram substituídas por estátuas de musas. A partir de 1910, por sua vez, as estátuas foram substituídas por novas águias, só que agora em bronze, obra do escultor Rodolfo Bernardelli. As antigas esculturas de ferro foram fundidas, para a fabricação dos bancos do jardim. Hoje, nas dependências do palácio, funcionam ainda um café, uma livraria, o Espaço Museu da República, que conta com um cinema, e o Museu do Folclore.
O jardim do palácio é muito bonito. Tem um pequeno lago, uma pontezinha, uma gruta e bancos para sentar. Aberto ao público, as pessoas sentam-se lá para descansar, ler ou apreciar o jardim e o edifício. Você olha para o prédio central e fica imaginando o que significava viver ali, no início do século XX. Pensa em Rodrigues Alves, que remodelou a cidade na década de 1910, pensa no Marechal Hermes da Fonseca, que veio do Rio Grande do Sul para ali passar quatro anos, lembra-se de Epitácio Pessoa, que veio da Paraíba para morar no Catete, rememora a saída de Washington Luís para o exílio, em 1930, e a chegada triunfante de Getúlio Vargas, e repassa com tristeza o suicídio do mesmo Getúlio Vargas, mais de vinte anos depois, ali, num daqueles quartos do terceiro andar, morto com um tiro no coração.
É uma bela visita. Conhecer o passado, reconstruir as linhas históricas do país em que se vive, é preparar-se melhor para compreender o presente e inventar o futuro. Porque, afinal, o futuro não está feito, mas está todo aí, para ser construído.
Voltarei na próxima sexta-feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
"O Rio de Janeiro continua lindo...”
Fazia tempo que eu não ia passear no Rio de Janeiro. Encontrei-o lindo como sempre. Com dias de sol esplêndido ou de céu nublado ou, ainda, de muita chuva, a cidade permitiu que fôssemos à praia e fizéssemos também passeios bonitos.
Ficamos em Copacabana, “a princesinha do mar”, dos anos 1940 e 1950. O tempo passou, a população envelheceu, mas o charme continua o mesmo. A praia m forma de meia-lua é generosa com os turistas, acolhendo-os por meio de uma vintena de quiosques de salgados e bebidas, onde prevalece a água de coco gelada.
Fomos assistir à Orquestra Sinfônica Brasileira, que nesta noite não teve a regência do titular, Roberto Minczuk, na sala Cecília Meirelles, no Largo da Lapa. Depois passeamos por ali, a pé, apreciando a população que se divertia, fazendo fila para um teatro ou freqüentando os barzinhos. Caminhando pelo bairro, as casas, em estilo colonial, nos deixaram entrever um pouco do passado da cidade.
Também ali estão os famosos Arcos da Lapa, que já se chamaram o
Aqueduto da Carioca, em outros tempos, e constituem a obra arquitetônica de maior porte empreendida no Brasil no período colonial. Construídos para permitir que se trouxesse água do rio Carioca para a cidade, a obra foi inaugurada em 1750, fazendo brotar as águas aos pés do Convento de Santo Antônio, em um chafariz de mármore, através de 16 bicas de bronze.
Fomos de bonde a Santa Teresa, o bairro preferido dos artistas. Esse veículo, que não circula mais em nenhum outro ponto da cidade, sai do centro, passa sobre os Arcos da Lapa e vai serpenteando sobre os trilhos, até chegar lá no alto. O bairro ocupa uma colina no coração da cidade e mantém aspectos preservados do Rio Antigo.
O passeio é delicioso, deixando-nos entrever a ponta de um castelo, aqui, um edifício vistoso, acolá, uma ladeira majestosa ou o Largo do Guimarães. E lindo é também o que se vê de lá de cima, como o mar, a ponte Rio-Niterói, a torre e o relógio da Central do Brasil, o Maracanã iluminado, num domingo de jogo.
O Centro Cultural do Banco do Brasil estava apresentando uma retrospectiva de Chris Marker, cineasta e artista multimídia francês. Só deu para assistir a um filme, mas a retrospectiva virá para São Paulo, em junho, no Centro Cultural do Banco do Brasil daqui.
E, finalmente, voltando para casa, hoje, saímos do Galeão e soubemos do avião da Air France que sumiu, uma nota bastante desagradável e triste, para encerrar um passeio que foi tão gostoso. Paciência! A realidade não é exatamente do jeito que a gente deseja.
Estarei de volta na próxima 4ª. feira. Venha comigo!
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