GOSTO MUITO DE MIM

Não me arrependo de nada do que fiz, ao longo de minha vida.  É claro que houve muita besteira e muita coisa que poderia ter sido evitada.  Mas não me arrependo.  Por quê?  Porque fui eu mesma que fiz, que disse, que perdi a calma, que aborreci minha amiga ao extremo.  E se fui eu, por algum motivo eu o fiz.  Não posso julgar minha conduta do passado com a percepção e a maturidade que os anos me deram.  E, acima de tudo, não me arrependo, porque gosto muito de mim.

 

Não sei como fui ceder à pressão daquele namorado, que por fim se revelou um cara sem princípios.  Nem como fui capaz de ficar um dia inteiro sem comer porque tinha levado um baita fora de um rapaz de quem eu gostava.  Não entendo como pude deixar que uma colega me roubasse um novo amor, assim, na minha cara, sem que eu reagisse, dissesse nada, tirasse satisfação!  Mas, se fiz, está bem feito.  Por algum motivo, um desejo escondido, uma fantasia de criança, um dissabor não trabalhado, aceitei aquilo, concordei em sofrer aquele tanto.  Mas havia motivos para tais comportamentos, embora nem sempre eu soubesse quais eram eles.

 

 

Uma ocasião, troquei um emprego certo por um duvidoso.  Deixei que o bom emprego saísse voando pela janela, enquanto eu me amarrava a um outro, chato, de pequenas proporções, que jamais me levaria aonde eu tinha imaginado.  Burrice?  Não.  Provavelmente, o segundo emprego apareceu de forma radiante e luminosa e o que parecia bom não era tão bom assim.  Senão, por que eu trocaria um pelo outro?  Não deu certo?  É claro que não.  Mas eu não me arrependo.  Eu era eu mesma, rejeitando um e aceitando o outro.  Gosto de mim, do meu jeito, do meu modo de ser.  Impulsiva, forte, metendo os pés pelas mãos ou dizendo o que jamais poderia ter sido dito, gosto de mim, do meu jeito de ser.

 

E por que nos lembrar apenas das coisas ruins a respeito de nós mesmos?  Por que não pensar naquela tarde em que ajudei aquele amigo a sair da grande encrenca em que se metera?  Por que esquecer aquelas palavras de ternura que eu disse na hora certa, quando aquela senhora estava sofrendo tanto?  E por que não trazer à tona aquela fala forte e autoritária que empreguei, num momento em que aquela pessoa estava precisando exatamente daquilo – tanto é que me agradeceu?

 

Gosto de mim pelos motivos que enunciei.  Mas, acima de tudo, porque, se eu não gostar de mim, não me aceitar com minhas falhas e qualidades, não me orgulhar das coisas boas que tenho feito e não rir do ridículo a que às vezes me submeto, quem gostará de mim?

 

Estarei de volta na próxima sexta-feira.  Venha comigo!

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A FONTE SECOU

                                             

                         Mas eu não sou água, pra me tratares assim,

                         Só na hora da sede, é que procuras por mim.

                         A fonte secou.”

 

 

Renato não se preocupa em dedicar um tempo extra a Maristela.  Sai com os amigos, vai ao restaurante com os familiares, à noite, com os primos, frequenta a discoteca.  Mas quando o negócio aperta, tem uma angústia ou um problema para resolver, é sempre no ombro de Maristela que ele afoga suas mágoas.  E ela o acolhe sorrindo.

 

Mercedes não gosta de emprestar seus livros nem para os amigos.  Tem uma bela coleção de romances, mas cuida deles com carinho e avareza.  Outro dia, como precisava que as amigas fizessem companhia a sua mãe, enquanto ela saía a tarde toda, permitiu-lhes que vissem na estante se algum daqueles romances interessava a elas

 

Aquele treinador de futebol estava indo muito bem no campeonato daquele ano, tendo levando sua equipe aos primeiros lugares.  Envaidecido, não hesitou em assinar, às escondidas, um novo contrato, dessa feita com um time adversário, para o período seguinte do torneio.  Não se passaram vinte e quatro horas, o contrato deixou de ser sigiloso e toda a mídia divulgou o que ele havia feito.  A diretoria do clube que ele dirigia sentiu-se agredida, humilhada, passada para trás.  E ele teve que amargar ainda quatro semanas na situação antiga, todo mundo sabendo que ele se bandearia para a equipe nova, assim que pudesse.

 

Rodrigo admirava de verdade aquele colega de trabalho.  Rapaz inteligente, fino, habilidoso no trato das relações pessoais, Delfino era o que havia de bom companheirismo.  Tanto que Rodrigo não hesitou em convidá-lo a irem juntos para a nova empresa, quando surgiu uma oportunidade de gerenciamento para Rodrigo.  Trabalharam durante um ano lado a lado.  Rodrigo projetou-se, chegou a Diretor de Departamento, Delfino veio junto, exercendo seu papel com competência e habilidade. 

Até o dia em que Delfino foi convidado para substituir Rodrigo na chefia do Departamento.  Era pegar ou largar.  E Delfino não hesitou em demitir Rodrigo para ficar em seu lugar.

 

O macaco só coça as costas de quem coça as costas dele.  Mas o ser humano não é o macaco e ele tem condições de ir além disso.  Até o dia em que seca a fonte.

 

 

Voltarei na próxima 6ª. feira.  Venha comigo!

 

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

DE AMOR E DESAMOR

Mariana estava de saída, quando Denise tocou a campainha.  Deixou a bolsa sobre o sofá e foi atender.  Era uma morena bonita, empertigada, beirando os 40 anos.  Pintada, sem exagero, o cabelo estava aprumado, às quatro da tarde de um dia de sol.  “Olá, Mariana, passei por aqui para que você conhecesse o Tristão, meu noivo”.

 

(Nossa! pensou Mariana, há um mês era o namorado, agora já subiu à categoria de noivo?)  E, tentando esboçar um sorriso, Mariana apertou a mão do rapaz e disse: “Muito prazer”.  E virando-se para Denise: “Vamos entrar”.

 

“Não”, respondeu Denise, “estou vendo que você está de saída.  Por hoje, ficam só as apresentações.  Outra hora, vamos até a avenida Paulista, tomar um chopinho”.  E, dando um beijo no rosto da amiga, Tristão endereçou um sorriso a Mariana e o casal desceu as escadas em direção ao térreo. Com seus 35 anos, Denise não aparentava nem 25. Usava roupas folgadas, calçava tênis e trazia duas “maria-chiquinhas” no cabelo. Na calçada, Tristão comentou: “Puxa!  Não gostei da sua amiga, não.  Ela me pareceu tão... sizuda... fechadona... “Bobagem”, respondeu Denise, querendo desmanchar aquela má impressão.  Também ela tinha sentido a secura de voz no tom de Mariana, mas não queria pôr mais lenha na fogueira.

 

Mariana fechou a porta, apanhou a bolsa no sofá e se dispôs a sair.  Porém, não se moveu do lugar.  Refletiu sobre Denise, mais nova do que ela, Mariana, que se dava tão bem com os rapazes e sempre tinha um namorado, ao passo que ela,  por mais que se esforçasse, dificilmente conseguia um.  “Mas, cá entre nós”, pensou a moça, “esse Tristão, também... convenhamos... para ter um noivo assim até eu... Mal-vestido e com essa barbicha no rosto?  Qual é a dele, querendo parecer mais velho para enganar Denise?  Deve ter uns 15 anos menos do que ela.  Credo!”  E, assim pensando, chamou o elevador para sair.

 

O que se passou entre essas três pessoas, neste lapso de tempo em que se cumprimentaram e trocaram duas palavras?  Quais os sentimentos, desejos, fantasias, imagens, reflexões, valores, que vieram à tona e quais os que não foram explicitados?  Estará Mariana com ciúmes de Denise e por isso tenta fazer pouco da figura de Tristão?  Terá Denise passado por lá apenas para espicaçar Mariana – ou elas são amigas de verdade?  Quanto do inconsciente dessas três pessoas agiu por elas, “sem querer”?

 

Este é um exemplo dos sentimentos, desejos e reações das pessoas, quando se encontram.  E como é comum se deixarem levar pelas primeiras impressões!  Mas há muito mais do que isso, escondido ou explicitado.

 

Estarei de volta na próxima 4ª. feira.  Venha comigo!

 

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