A ÉTICA E AS RELAÇÕES HUMANAS

É interessante como o tema da ética mobiliza as pessoas a ler, conhecer, querer discuti-lo.  Tema aparentemente de difícil compreensão, tema que pouca gente consegue definir o que é, no entanto, quando nos debruçamos sobre seu significado, desvendam-se geralmente as maiores dúvidas.

 

De um modo simples, podemos dizer que as relações entre os seres humanos precisam ser regulamentadas.  Não se pode sair por aí fazendo o que qualquer um queira, gritando na rua, ofendendo os outros, tomando tudo para si.  Há leis escritas e orais (que são os costumes), determinando o que se pode e o que não se pode fazer.  Então, com base na tradição e naquilo que aprendem com os mais velhos, as crianças e os jovens vão treinando a convivência em grupos, a respeitar os outros, a executar seus deveres e a fazer respeitar seus direitos.  Aí, estamos em cheio nos terrenos da ética e da moral.

 

Esse processo de moldar o comportamento das crianças se chama “processo de socialização”.   Costumes, crenças, valores, normas de conduta, sentimentos, são aprendidos primeiro em casa, depois, na escola e na igreja, e, mais tarde, no trabalho e na comunidade.  Tudo isso é aprendido.  Tendemos a valorizar aquilo de que nossos pais e familiares gostavam.  Tendemos a recordar com carinho os conselhos de nossa mãe ou aquilo que disse o pregador, no sermão.  Ou não.  Depois de ter aprendido os sentimentos, os valores e as crenças, vamos mudando nosso modo de querer e de pensar.  Passamos a ter outros valores e a acreditar em outras coisas que não naquelas que nos ensinaram.  Quer dizer que os padrões culturais são transmitidos, aprendidos, reformulados, rechaçados, transformados, enriquecidos, empobrecidos. Mas continuamos a viver em sociedade e pagamos um preço por isso.  Todos temos deveres e direitos.

 

Só que falar é fácil, viver é outra coisa.  A ética e a moral pretendem que os seres humanos se enquadrem dentro dos limites razoáveis, para não prejudicar os outros.  E, para ajudá-las nessa observância, existem as leis, as ordens, os castigos, a prisão, as penas, as sanções, a morte.  Porém, não há garantias de que os seres humanos cumprirão o que lhes foi ensinado. Então, muitos assumem os riscos das sanções e abusam do convívio em sociedade.  Outros, os que crescem sem família e sem escola, nem chegam a aprender o que se pode e o que não se pode fazer.

 

Esse assunto é muito mais amplo, isso é apenas uma introdução.  Mas, antes de encerrar, quero lembrar a importância do afeto nesses processos de moldagem do ser humano.  Num clima de amor e carinho, a compreensão entre as pessoas se estabelece com muito mais facilidade.  Sentindo-se acolhidos, os seres humanos tendem a relacionar-se melhor, a acatar melhor as ordens e os conselhos.  É bom não perdermos isso de vista!

 

Estarei de volta na próxima segunda-feira, dia 04 de maio.  Venha comigo!

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DE MEDOS E DE FOBIAS

O medo faz parte do homem e atua como um fator de grande valia, evitando que nos lancemos em determinadas situações de perigo. Frente à visão de um tigre, por exemplo, as glândulas segregam o suor, o rosto fica pálido, os músculos se enrijecem para organizar a defesa. Já quando a barata nos aparece pela frente e sentimos um baita medo, estamos atribuindo a ela o porte e a cara de um tigre: começamos a suar, ficamos pálidos e tendemos a sair correndo.  Aí já não é o simples medo, mas a fobia, o medo irracional. A fobia tem a ver com o significado que atribuímos às coisas e não com seu valor real e a angústia é um tipo de medo frente a um objeto não determinado.

 

São esses os sentimentos de que trata o diretor Kiko Goifman, em seu Filmefobia, que entrará em cartaz no próximo dia 1º de maio.  Jéan-Claude Bernardet, figura conhecida do cinema brasileiro, trabalha como ator, interpretando o documentarista Jean-Claude, que acredita que a imagem verdadeira de um sentimento esteja por detrás da fobia.  E, para que se prove isso, o filme põe em cena situações com fóbicos, de três tipos: os de verdade, que aceitam expor-se frente às câmeras; os artistas, contratados para encenarem personagens fóbicos; e os artistas-fóbicos.

 

O filme explora a sucessão de sentimentos presentes o tempo todo: da parte de quem se expõe a vivenciar sua fobia, da parte de quem filma as cenas e da parte de quem assiste ao filme.  O que essa visão de pessoas, suando, sofrendo, gritando, evoca em cada um de nós, que assistimos a isso: voyeurismo, sadismo, masoquismo, prazer em assistir ao sofrimento do outro?  Ou será que nos permite entrar em sintonia com o sofredor e nos tornar solidários em sua dor?  Talvez, melhor, nos faça pensar em nossas próprias fobias, em como lidamos com elas, no dia-a-dia.  Há quem pense que o fato de expor-se a vivenciar a fobia possa curá-la, mas isso não está comprovado cientificamente.

 

Outro ângulo do filme que também nos faz pensar é a questão da verdade: é certo que a verdadeira imagem está na expressão da dor fóbica?  E o que é a verdade?  Sem saber quem é, no filme, o protagonista real e o ator contratado, como fica a dor estampada?  Como comparar a dor real da fobia com a situação de dramatização, o sujeito sabendo que está sendo observado pelas câmeras?  Expressará ele uma dor que não está sentindo naquele momento?

 

A questão da verdade e da mentira, do real e da simulação, do documentário e da ficção, são questões profundas e, aparentemente, sem solução, porque nossa realidade é mesclada, o tempo todo, de fatos e sentimentos, imagens e decisões, fantasias e significados, memória e momento presente, passado e futuro – o que dificulta a definição de realidade.  Mas é muito interessante deter-se a refletir sobre tudo isso.

 

Voltarei na próxima quarta-feira.  Até lá!

 

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