Hoje é quarta-feira Santa, conhecida também como Quarta-feira de Trevas. Isso porque estamos nas comemorações da Semana Santa, em que os cristãos e os católicos comemoram as atividades dos dias que antecederam a morte e a ressurreição de Cristo.
As celebrações já tiveram início no domingo passado, chamado de Ramos, em que se medita sobre a entrada de Jesus em Jerusalém, pregando ao povo e já em preparo para sua morte. Quando, de acordo com os evangelhos de Mateus e de Marcos, ele foi à casa de Simão, o leproso, e uma mulher lavou-lhe os pés com bálsamo e os enxugou com seus cabelos, Jesus teria dito que ela já o estava preparando para a sepultura. Entre nós, essa comemoração do Lava-pés se dá na Quinta-Feira Santa.
Na sexta-feira, não há missa, só a cerimônia alusiva ao enterro de Jesus e a procissão. No sábado, novas cerimônias na igreja, procissões e, à meia-noite, a missa da Ressurreição. Na segunda-feira e por toda a semana seguinte, comemora-se a Pascoela, nome que o povo cristão deu ao domingo da oitava.
Eu me ressinto de ter recebido uma orientação religiosa que encerrava as comemorações da Semana Santa logo no domingo, pela manhã, por ocasião da missa de Páscoa. Assim, tendo passado de quarta a sábado lamentando e chorando a morte de Jesus, só o domingo não era suficiente para eu entender que a Ressurreição tinha sido muito mais importante do que a morte. E, como eu, centenas de crianças aprenderam o cristianismo e o catolicismo como uma religião de sofrimento, de dor, de resignação, em vez de celebrarmos a vida, a natureza, a alegria, o gosto de viver.
Artigos recentes a respeito da igreja católica, sobre abortos, excomunhões, de vários articulistas interpretando as intenções da igreja e do papa, nos deixaram claro, nesse último mês de março, que a igreja católica quer a salvação da alma e, portanto, valoriza a morte e a vida eterna muito mais do que a vida terrena e a salvação do corpo. E se não houver vida eterna? E se não houver alma?
É por isso que, às vezes, eu penso que não é só a quarta-feira de hoje que é de trevas. Escurecidos estão os nossos olhos e cobertos de trevas estão nossos pensamentos, quando nos permitimos fazer da vida na terra um calvário, com o único fito de buscarmos o prêmio que nos virá depois da morte.

Voltarei na próxima segunda-feira. Até lá!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Ruy Castro, em artigo de hoje na Folha de São Paulo, relembra o festival de Woodstock e diz que em agosto serão comemorados os quarenta anos de sua realização. Estava-se em 1969 e os anos 1960 ficaram conhecidos como os anos das grandes transformações socioculturais. É dos anos 60 o estouro dos Beatles, uma revolução com R maiúsculo, na Inglaterra. E é daquela época, também, a invenção dos hippies, nos Estados Unidos.
A juventude saiu de casa para viver em comunidades de iguais, adotando as roupas largas, saias até os pés para as mulheres, barba e cabelos compridos, para os rapazes, a recusa formal dos valores e tradições de seus pais e a busca de uma vida por conta própria, ainda que com pouco dinheiro. Era uma forma de se opor à sociedade do capitalismo, que os jovens decidiram que não queriam para si. Uma avó norte-americana, nos seus 70 anos, confidenciou comigo, em 1968: “Não sei por que eles fazem isso conosco. Nós demos um duro danado para sair da Grande Depressão, trabalhamos, construímos nossas empresas, compramos nossas casas, mandamos nossos filhos às universidades – e agora esses jovens se voltam contra nós – e por quê?”. Bem, eu não tinha as respostas para ela, mas a sociedade as tinha Bastaria estudar o contexto em que essas mudanças se davam, a guerra do Vietnã que mandava os jovens para a linha de frente, a inflação em alta nos Estados Unidos e, em poucos anos, a queima em praça pública das convocações dos jovens para a guerra.

Os anos 1960 são os do surgimento da pílula anticoncepcional, que libertava as mulheres do pavor de obterem o prazer sexual em troca do risco de engravidar. A pílula passou a ser o símbolo da libertação sexual feminina e a sociedade começou a enxergar que a mulher tinha os mesmos direitos que os homens a uma vida sexual mais liberada. Isso, é claro, depois que a mulher tinha saído de casa para trabalhar fora, nas indústrias e nos escritórios.
1968 foi, também, o ano da revolução cultural na França, quando a juventude se rebelou contra as universidades. Teixeira Coelho tem um artigo interessante, a esse respeito, em “Guerras Culturais”, da Iluminuras, lançado em 2000: “Revisitando ‘68”.
Todos esses fenômenos socioculturais precisam ser lidos e entendidos em seu contexto histórico, político, econômico, religioso. Daí porque eu recomendaria, também, que além da releitura daquela época se fizesse uma comparação com os fatos políticos, históricos, socioculturais, econômicos e religiosos de hoje, para ver se, de lá para cá, aprendemos alguma coisa que tornasse o ser humano mais feliz. Ou estaremos apenas nos repetindo?
Estarei de volta na próxima quarta-feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
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