OLÁ, TONI

Você, como sempre, comparecendo e dando suas sugestões.  Não acredito que todo mundo morra, conforme você perguntou, antes que o sujeito tenha tempo de encarar a realidade, não.  Acho que ela se apresenta diariamente aos nossos olhos, mesmo quando morremos de fazer de conta que estamos nos escondendo dela.

Quanto ao termo "autocracia", vou olhar no texto.  Talvez deva ser mesmo "teocracia", dado o contexto da notícia.  Al fin y al cabo, não faz muito diferença se você é autoritário porque cresceu assim, porque gosta ou porque faz tudo isso em nome de Deus.

Um abraço,

margamoura

PROTAGONISMO JUVENIL

Há vários anos, o protagonismo juvenil entrou na moda.  Os estudiosos descobriram que era preciso abrir um espaço na sociedade para que os jovens aparecessem mais, assumindo novas responsabilidades. Criou-se, então, a idéia de prepará-los para atuarem como monitores de outros jovens, em determinados assuntos. Isso passou a acontecer em escolas, centros culturais, clubes de recreação e associações, entre outros: colocar os jovens no centro da ação, como protagonistas, passando adiante conhecimentos e experiências para jovens de sua idade.

 

Diz Maria Eleonora Lemos Rabêllo, num artigo na Internet, que “protagonismo é a atuação de adolescentes e jovens, por meio de uma participação construtiva”.  Protagonista é aquele ou aquela que protagoniza e a palavra vem do grego, significando “o principal lutador”.

 

 

 

De fato, o protagonismo juvenil funciona.  Em vez de serem os adultos a ensinar os jovens, prepara-se um grupo de adolescentes, meninos e meninas, para estimularem o aprendizado de seus colegas, geralmente pessoas de sua mesma idade.

 

Há, porém, uma coisa que me preocupa: não basta os adultos se preocuparem em investir nos jovens na matéria sobre a qual deverão preparar-se: é preciso, concomitantemente, ensinar-lhes noções básicas de dinâmica de grupo.

 

O protagonista juvenil, assumindo o papel dos professores, precisa conhecer dois tipos de conteúdo: aquilo sobre o que ele tratará com o grupo de orientandos, que é o conteúdo propriamente dito; e a maneira como deverá abordá-los, interagir com eles, respeitar seus valores e idéias, isto é, o processo de interação.  De novo, aqui, os velhos produto e processo, de que tanto gosto.  Produto é o conteúdo sobre o qual os protagonistas e a turma vão debater: orientação sexual, saúde, pluralidade cultural, história do Brasil ou matemática.  E processo é a maneira pela qual os ensinamentos serão discutidos ou passados adiante, as perguntas serão feitas e respondidas, o clima de coleguismo ou de animosidade que reinará na sala.  O produto é fácil de se preparar com os protagonistas juvenis: duas ou três horas de conversa, a recomendação de lerem um livro ou duas ou três apostilas e está feito.  Já o processo não se prepara assim, de repente. É preciso um investimento nos orientadores jovens, para que desenvolvam sua própria postura de entrar em contato com grupos.  E, sobretudo, assimilarem a importância de não tentarem impor aos outros seus pontos de vista e seus valores.

 

Voltarei na próxima segunda-feira. Venha comigo!

 

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

 

DOIS FILMES DE ANIMAÇÃO

Fui ver a pré-estréia de Valsa com Bashir, do diretor israelense Ari Folman, que alguns estão chamando de “documentário de animação”, que se apresentou no Festival de Cannes, em 2008.  Para narrar um pouco do que foi a primeira guerra do Líbano, o diretor conversa com contemporâneos, para se lembrar do que faziam e onde é que estavam quando do massacre de palestinos em Sabra e Shatila, em 1982.

Também Persépolis, da iraniana Marjane Satropi, apresentado em Cannes, no ano anterior, era um filme de animação. Só que Marjane usa o desenho animado para narrar as desventuras do Irã, nos anos seguintes a 1979, quando se impôs naquele país um governo autoritário e religioso, seguido da longa guerra que moveram entre si Iraque e Irã, ao passo que Ari Folman recorre à animação de modo original, copiando os rostos das pessoas reais e tornando-as personagens, mais perto da história em quadrinhos do que dos desenhos animados.

Marjane Satropi escreveu o livro Persépolis na forma de história em quadrinhos, narrando sua meninice em Teerã, ao lado dos pais, na época do Xá, que foi substituído pela autocracia religiosa de Khomeini.  Em 1980, o Iraque ataca o Irã e as coisas ficam muito piores do que já estavam.  Posteriormente, o livro de Marjane virou filme, feito na França, onde ela reside atualmente.  Já o diretor Ari Folman preferiu descrever com imagens, em vez de escrever um romance, tudo o que havia vivido naquele ano de 1982, recorrendo à animação.  No final, porém, ele deixa essa ilusão de lado e mostra uma série de imagens reais, confessando que tinha receio de que as pessoas saíssem da projeção com a lembrança apenas de um filme de animação, com desenhos bonitos e boa música.  Era preciso que não se esquecessem de que milhares de palestinhos haviam sido chacinados.

Consultando a Wikipedia, na Internet, encontrei que a primeira guerra do Líbano ocorreu de 1975 a 1990 e que Bashir Gemayel foi um líder miliciano e político do Líbano, eleito presidente do país em 1982, com o apoio de Israel, e assassinado dias antes de assumir o poder.  Ele se tornou um dos principais comandantes das Falanges Libanesas, uma milícia cristã de extrema direita.

Achei curioso que Marjane não mencionasse o nome do Aiatolá Khomeini, nem no livro, nem no filme, embora se saiba que foi ele quem voltou do exílio e instalou um regime de sérias proibições dos costumes, tudo em nome do amor a Deus.  Também o papel de Israel no filme de Ari Folman fica enevoado.  Embora se veja que o filme é uma produção israelense, quem não souber um pouco da história do Líbano terá dificuldade em entender quem está lutando contra quem e quem está massacrando quem. 

 

Estarei de volta na próxima sexta-feira.  Venha comigo!

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

ENCARAR OU FAZER DE CONTA?

Saiu no The New York Times de hoje, suplemento da Folha de São Paulo às segundas-feiras, um artigo intitulado: “O dinheiro sumiu -- como se adaptar?”.  O Ensaio é de Floyd Norris, que diz, entre outras coisas, que está muito difícil adaptar-se à nova realidade, em que o dinheiro sumiu. Há uma indignação generalizada a respeito das atividades do investidor Bernard Madoff, que caiu e arrastou atrás de si centenas de pessoas que perderam nos mercados de ações e imóveis e estão loucas por encontrar alguém para culpar. 

 

E o articulista pergunta: esses que perderam bastante devem admitir que estão mais pobres e adaptar seus gastos a um novo padrão de vida ou, pelo contrário, devem negar a realidade e esperar que, de algum modo, os bons tempos estejam de volta?

 

Menciona os problemas de falta de dinheiro de Museus, que estão proibidos por lei de vender obras de arte para levantar fundos, e de Universidades que investiram em fundos que fracassaram, como a Brandeis, em Massachusetts, ao mesmo tempo em que relata as dificuldades que governos municipais e estaduais estão encontrando para manter seus planos de aposentadoria. Dá o exemplo de Nova Jersey, que chegou a vender títulos tributáveis para levantar dinheiro e colocar nos fundos, o que salvaria o dinheiro do Estado, se os lucros dos investimentos dos fundos superassem os juros pagos sobre os títulos.  Agora, o Estado processou ex-diretores do banco Lehman Brothers, sob a acusação de que mentiram sobre sua posição financeira antes de que desmoronasse, gerando um prejuízo de mais de cem milhões de dólares para os fundos de pensão de Nova Jersey.

 

Outros artigos do mesmo New York Times dão conta das angústias que vão pelo mundo, das aflições geradas pela perspectiva de milhares de pessoas que deverão perder seus empregos dentro dos próximos meses.  Mas Floyd Norris termina seu artigo, dizendo: “Não é fácil adaptar-se a essa realidade. Mas simplesmente supor que merecemos viver como se não tivesse acontecido só vai piorar as coisas”.

 

Tal como tenho dito aqui, quando se trata das relações interpessoais, fazer de conta não tem ajudado as pessoas a conviverem bem com a realidade.  Empurrando, empurrando, empurrando para a frente, sempre chegará o dia em que se enfrentará a realidade, nua e crua.  E, nesse dia, o tombo poderá ser bem maior.

 

Voltarei na próxima quarta-feira.  Venha comigo!

 

blogqueéquasediário // témerececomentário




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