Fui reler o livro “Reflexões para o futuro”, que a revista Veja lançou em 1993, em edição especial, comemorativa de seus vinte e cinco anos de existência. No editorial, Veja relembra que a revista chegou às bancas em setembro de 1968 e tem servido de elo para a compreensão da passagem do tempo, ao mesmo tempo em que homenageia seus leitores com um tributo ao prazer de ler. Trata-se de textos diversos na forma e variados em conteúdo, que não pretendem definir como será o futuro. Mas apenas fazer pensar.
Achei interessante voltar quinze anos no tempo. Consultando o índice, os três primeiros nomes já nos deixaram: o escritor norte-americano falecido recentemente, John Updike, num artigo traduzido por José Paulo Paes, excelente poeta, tradutor, crítico e ensaísta brasileiro, e Herbert de Souza, o Betinho, de tamanha influência no Brasil.
Eram tempos de “Em Busca do Ócio”, convites para maior lazer, do italiano Domenico Di Masi. O médico e psicanalista Jurandir Freire Costa falava da violência urbana no Brasil e Ana Miranda, trabalhando a questão dos gêneros, saudava a mulher brasileira após cinco séculos de história perversa do Brasil com o feminino. Já havia a preocupação com o novo tipo de família que está surgindo e com a xenofobia crescente na Europa, mas Umberto Eco pedia que não se acabasse com o século antes da hora. .
Eram tempos de discussão em torno do embate entre as civilizações, a partir do pensamento de Samuel Huntington, que contribui com um artigo para o livro, e a resposta do cientista político brasileiro, Wanderley Guilherme dos Santos, rebatendo a tese do “Choque do Futuro” e apontando para a falácia de se fazerem previsões de alto risco.
Eu me lembro de que, na época, gostei muito do livro e dos artigos. Eles, de fato, nos faziam pensar. Mas agora, vários anos depois, uma coisa me chamou a atenção: ele foi escrito e traduzido antes do 11 de setembro. Isso faz uma enorme diferença. Via a sociedade sob outra ótica, assinalava os problemas típicos do final do século XX, a violência urbana já chamava a atenção e o cientista político Zbigniew Brzezinski argumentava sobre o fim do império americano, que, em sua opinião, continha rachaduras morais. Mas nada que se comparasse ao que veio depois de setembro de 2001, trazendo à tona as dissidências políticas, econômicas e religiosas, o embate entre o Oriente e o Ocidente, o acirramento da questão palestina, os homens-bomba elevados à quinta potência e a constatação da grande insegurança que se instalou entre os seres humanos, em todo o planeta.
E nós -- sobre o que escreveremos daqui a quinze anos? 
Voltarei na próxima 2ª. feira. Até lá!
blogqueéquasediário // témerececomentário
Com o advento do computador, cresce o número de palavras que podemos utilizar no dia-a-dia, consideradas como jargões, já que são simples adaptações da língua inglesa, como deletar, inicializar, mouse e escanear, entre outras. O pessoal de língua castelhana diz parquear o carro, o que não chegou até nós, ainda, felizmente. São os neologismos, provas vivas de que quem faz a língua é o povo. No contato constante com outras culturas, é natural que umas assimilem das outras aquilo que lhes interessa. Quando surgiu o futebol, por exemplo, quantas palavras não vieram da língua inglesa, como corner, gol, falta, e assim por diante? E quando o francês exercia grande influência sobre os brasileiros era mais fácil dizer abat-jour, maiô, enquete e outras tantas palavras que entraram para a o idioma português.
Recentemente, começou-se a falar em resiliência, com certa frequência, sem que a gente saiba direito o que quer dizer. O dicionário registra como capacidade de resistir ao choque. Noto que os textos traduzidos ou, mesmo, escritos em língua portuguesa, estão trazendo a cada passo essa expressão. E isso me fez lembrar de consiliência, que vi mencionada pela primeira vez, em 1999, por ocasião do livro “Predictions”, organizado por Sian Griffiths. Ali se diz que “consiliência é o sonho, a esperança ou a súplica de que o que todos nós estejamos aprendendo sobre nós mesmos e nosso universo se conformará um dia em uma única visão que inclui e influencia todas as suas partes, contendo todas as nossas filosofias antigas, modernas e pós-modernas, todas as nossas artes e ciências, todos os nossos experimentos e todos os nossos sentimentos mais íntimos, incluindo os sentimentos ambíguos de esperança, medo, curiosidade, praticabilidade e autêntica diversão que nos estimulam a imaginar o futuro”.
O objectivo desta disciplina é compreender os processos que relacionam sensação e ação, ao revelar os mecanismos neurobiológicos subjacentes às decisões. Ou, nas palavras de Sérgio Oliveira, no site www.geocities.com/discursus/autores/soliveira.html, o texto de Edward Wilson, de 1999, nos oferece o representante máximo da retomada contemporânea do projeto da “unidade do conhecimento”. “O objetivo é fazer surgir, em um final futuro, uma imagem coerente (e única) da realidade”.
Dito assim, não parece de fácil compreensão. É um estudo que os neurocientistas e os biólogos estão fazendo, no qual os filósofos sempre encontram uma forma de entrar e de participar. Já resiliência é de compreensão mais fácil. Se se trata da capacidade de resistir aos choques, parece que é bem de que andamos precisando. Com os embates, as investidas, as surpresas, os arrastões e as aberrações com que nos defrontamos diariamente, cultivemos essa tal de resiliência e sejamos fortes. Já na consiliência vou deixar para pensar mais para frente.
Estarei de volta na próxima sexta-feira. Até lá!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
“Este livro está muito chato. Já li mais de vinte páginas e ele não chega a lugar nenhum!” Você é daqueles que larga o livro chato e o troca por outro, que já começa imediatamente a ler, ou você faz o tipo que insiste, e insiste, até que a leitura melhore ou você comece a encontrar algum encanto nela?

Há livros grossos e entediantes, que a gente até sente um alívio quando chegam ao fim. Ufa! Dei conta dele! E ficamos pasmados quando alguém, geralmente uma amiga de muitos anos ou uma pessoa da família comenta que aquele livro foi ótimo, que ela leu e se regalou, que... Mesmo sem saber que tivemos o livro em mãos, ela o elogia e diz que dificilmente lerá um livro melhor do que aquele. É demais, não é mesmo?
Tendo a ler mais depressa o livro emprestado de amigos. Mesmo que tenha vários livros em minhas estantes, esperando chegar sua vez, quando peço um livro emprestado trato de lê-lo logo, para devolvê-lo em seguida. Havia de ser muito melhor assim, viver de livros emprestados, do que comprá-los com as duas mãos, encostá-los nas prateleiras e não tirá-los nunca de lá para a leitura.
Há livros excelentes, há livros ótimos, há livros espetaculares. Histórias bem inventadas, enredos bem engendrados e, sobretudo, livros bem escritos. Aquelas histórias que não nos cansam, nos dão prazer, nos deixam intrigados, abrem vários caminhos de opção e, por fim, não têm um final previsível. Nem sempre é necessária uma boa história, se as linhas forem bem escritas, com descrições bem-feitas, personalidades bem constituídas, não há que ter necessariamente um enredo com princípio, meio e fim. Não é isso que define um bom livro. Mas a forma de expressão, a ternura que envolve uma ou outra personagem, a maneira como se dão as descrições. Para isso, é preciso talento.
É incrível como os autores e autoras são tantos e como divergem entre si, em matéria de estilo, fluência de escrita, uso do vocabulário, sagacidade na descrição das cenas, capacidade de humor, habilidade em preparar o leitor para o que está por vir...
Gosto muito de ler. Sou daquelas que largam o livro no meio, se não estiver me agradando. E volto ao livro já lido, para ver o que foi que encontrei nele, há anos, que tanto me encantou. Já li muito. Já saboreei romances e contos policiais, li livros de História, li biografias, livros técnicos, livros de estudo, livros de filosofia. Recentemente, os dois melhores livros que li foram: “O Menino do Pijama Listrado”, de John Boyne, e “Equador”, de Miguel Sousa Tavares. Excelentes!
Voltarei na próxima quarta-feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
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