
Estréia hoje o filme Entre os muros da escola, de Laurent Cantet, que enfoca uma classe de 7ª. série da periferia de Paris, na França. O diretor põe em cena tudo aquilo que normalmente acontece numa escola e numa sala de aula, de que qualquer um de nós ainda se lembra e que os professores, mais do que todos, vivenciam em seu dia-a-dia. Conversinhas em sala de aula, desrespeito com o professor, alunos que se negam a tirar os bonés, troca de insultos e empurrões fazem parte deste cotidiano, texto escrito por um educador, François Bégaudau, que é o protagonista do filme.
Uma das coisas interessantes é o fato de o espectador ficar na dúvida se o que está vendo são cenas da vida real ou se foram ensaiadas. E, além das dificuldades próprias de uma escola de crianças e adolescentes, há o problema da periferia de Paris, hoje tumultuada pelas diferenças étnicas e religiosas. As famílias que se mudaram para a França em meados do século XX, vindas da África, da Ásia, da Europa Oriental, assistem hoje ao crescimento de sua terceira geração. E, quando não se deu a devida aculturação, quando essas famílias se mantiveram apartadas do povo francês, o que se vê hoje é um clima de rebelião e de revolta, vivido nas ruas dos bairros, nos centros culturais criados por eles próprios, onde passam para os mais jovens suas próprias visões de homem e de mundo – e que acaba estourando também na escola, frequentada por esses grupos que se consideram discriminados
Antonio Carlos Egypto faz a crítica desse filme no blog cinemacomrecheio:
http://cinemacomrecheio.blogspot.com
Vale a pena entrar no site e conferir. Assim como vale muito a pena assistir ao filme, que está excelente.
Voltarei na próxima segunda-feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Olá, Toni,
Pode-se até dar o desprezo -- quanto menos pessoas falassem sobre isso, melhor. O assunto passaria em branco, não se congestionaria o meio de campo. Por outro lado, quando tanta gente se envolve no tema e se agita, vale a pena intrometer-se a colher torta e dar um pitaco.
Você tem razão: o aborto é realmente o problema central. Ocorre que eu tinha quinze anos quando ouvi de um padre, em Campinas, que a igreja não quer que se interfira na situação, mesmo quando se pressente que a mãe irá morrer e a criança se salvará. Como você vê, são os dois fatores: não extrair o feto e deixar que a natureza aja por si.
Um abraço,
margamoura
Muito interessante o artigo de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo de hoje.

Sob o título de “Estupra, mas não aborta”, fazendo alusão a uma velha frase de Paulo Maluf na mídia (estupra, mas não mata), comenta os incidentes do aborto da menina de 9 anos, em Pernambuco, e da excomunhão dos médicos e da mã da menina, por Dom José Cardoso Sobrinho, o arcebispo de Olinda e Recife. Nas considerações que tece, ele chama a atenção para uma bela frase na televisão do padre Márcio Fabri dos Anjos, que leciona bioética: “(...) a primeira palavra que eu esperava ouvir da Igreja é a de que Deus está do lado de quem sofre (...)”.
Mas o mais importante do artigo foi o fato de ele nos contar que o Brasil é um dos países que produzem e exportam uma bomba muito potente e arrasadora, chamada de bomba de fragmentação e conhecida como bomba-mãe, que, lançada ao longe, produz centenas de bombinhas que se espalham pelo terreno aberto. Como várias dessas pequenas bombas não explodem, elas irão constituir as chamadas minas que se encontram em todos os países onde tem havido guerra, sujeitando as pessoas ao risco de pisar em uma delas sem querer e fazê-la explodir. Segundo a Cruz Vermelha, há 400 milhões de pessoas vivendo em terrenos semeados com essas bombas.
Marcelo Coelho conta que obteve essas informações no site da ONU e em um outro site, que acrescenta que haverá nova reunião no próximo dia 18, para o Brasil rever sua posição atual e assinar o tratado. Isso porque nosso país participou apenas como observador de uma convenção internacional, no ano passado, na Noruega, em que 94 países assinaram um tratado para banir essas bombas. O Brasil é um dos países que produzem, estocam e exportam esse artefato bélico.
Eu não sabia disso. Não tinha idéia de que fôssemos produtores de um equipamento de morte tão poderoso. A gente sempre pensa no país da gente como ingênuo, amistoso, sério, cordial, não tão desenvolvido a ponto de produzir artefatos que possam causar tantos danos.
E o articulista aproveita para fazer um gancho entre esse assunto das armas mortais e o episódio do aborto de dois fetos, em uma menina franzina, de 9 anos, amparada pelas leis, porque foi vítima de estupro. Apela às lideranças católicas, que poderiam envolver-se em lutas mais sérias pela melhoria do país, como, por exemplo, apor sua assinatura em um tratado de não produção dessas bombas letais, em vez de condenar a mãe de uma menina de 9 anos estuprada pelo padrasto.
Estarei de volta na 6ª. feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Nesta semana, os jornais noticiaram o estupro a que foi submetida uma garota de 9 anos por seu padrasto, em Alagoinha, Pernambuco. A menina sentiu dores, na semana passada, e, examinada no hospital, descobriu-se que estava grávida de gêmeos. Uma garota franzina, que vinha sendo assaltada sexualmente pelo padrasto desde os 6 anos de idade, assim como sua irmã, que tem 14 anos. Foi permitido que ela se submetesse ao aborto, nas mãos de médicos credenciados, o que se fez no último dia 04, com sucesso. O padrasto está preso. Mas o arcebispo de Olinda e Recife excomungou os médicos e a mãe da garota, não dizendo uma palavra a respeito da conduta do padrasto. Alega ele que, de acordo com a igreja católica, o pecado do aborto é mil vezes maior do que o do estupro. Não se pode atentar contra a vida humana.
Eu já tinha estudado esta matéria, nos anos 1950. O princípio básico da igreja católica é que a mão do homem não deve interferir quando está em jogo uma gravidez. Mesmo que a mãe esteja correndo risco de vida e tenha sete filhos para criar, não é permitido que se extraia de dentro dela aquele feto – porque ele significa esperança de vida. Então, é preciso deixar nas mãos da natureza: salvam-se os dois ou morrem os dois; ou morre o filho e salva-se a mãe; ou morre a mãe e salva-se o filho.
Isso nos leva a uma reflexão profunda sobre o valor dos princípios. Devemos ter princípios básicos rígidos em nossa vida para guiarem nossas condutas ou podemos negociar frente aos princípios? Princípios e conceitos são aquelas noções básicas que aprendemos desde crianças e que trazemos dentro de nós, para iluminar nossas ações. Pergunto: os princípios valem em si mesmos, valem por si? Ou são bastões, parâmetros de conduta, para usarmos nas necessidades? O princípio deve ser tomado ao pé da letra, de modo inflexível – ou pode ser flexibilizado e adequado de acordo com o contexto histórico, sociocultural, político, econômico e religioso em que se vive?
Se o ser humano, com todo o desenvolvimento tecnológico de que dispõe hoje, não puder interferir nos corpos das pessoas, para salvá-las da dor, do sofrimento, do risco de morte – então, de que nos vale a medicina? Se é para deixar que a natureza decida, não se deve extrair o tumor e, sim, dispensar a medicina e a tecnologia e esperar serenamente a natureza agir? Ou podemos interferir e extrair o tumor ou, então, retirar dois fetos de gêmeos do ventre de uma menina de 9 anos, aviltada pelo padrasto?
Tenho para mim que os princípios são balizas do nosso comportamento moral, são a lanterna que ilumina nossas ações. Eles são flexíveis e servem para iluminar nosso bom senso, mas não para decidir por nós. E, acima de tudo, têm que levar em conta o contexto histórico, sociocultural, político, econômico e religioso em que se vive. Tratá-los fora do contexto cultural é cegueira.

Voltarei na próxima 4ª. feira. Venha comigo!
margamoura,quealegria // vaiserescritora,umdia
|
|
||||
|
||||
|
||||