
Houve um tempo, no Brasil, em que só os homens iam à escola, as mulheres não precisavam ser ensinadas. Os rapazes eram alfabetizados, cursavam a escola secundária e, quando podiam, eram mandados para as cidades grandes do Brasil ou para a Europa, para cursar a universidade. Voltavam geralmente advogados, médicos e engenheiros, as profissões preferidas pela elite, naquelas décadas do século XIX.
Depois, os tempos mudaram. No início do século XX, já havia no Estado de São Paulo dez Escolas Normais, que recebiam as moças de bons recursos econômicos, que se formavam professoras e iam para as zonas rurais ou ficavam nas cidades, para ensinar as crianças a ler e escrever. A mais famosa era a Escola Normal da Praça, a Caetano de Campos, na cidade de São Paulo. Ali, um punhado de moças aprendia de tudo: desde os hinos nacionais dos países vizinhos, para cantá-los quando vinham autoridades estrangeiras visitar a Escola, até trabalhar com o prof. Lourenço Filho, na adaptação de testes psicológicos para a população brasileira. Sabiam latim e francês, além do estudo bem desenvolvido da língua portuguesa. E muitas outras matérias e conteúdos, que estudavam com afinco. Fariam jus ao diploma universitário, se houvesse compreensão suficiente das autoridades de educação, naquela época.
O tempo passou. As cidades pequenas se tornaram maiores, as cidades grandes se tornaram gigantescas, a população brasileira aumentou muito. Chegaram as indústrias – e até já se foram, passando à era da prestação de serviços. A tecnologia revolucionou o mundo e o rádio tornou-se frágil perto da televisão tão poderosa – que, por sua vez, ficou com medo da concorrência da Internet. A população que dispõe de menos recursos financeiros e econômicos para sobreviver mora nas favelas, na periferia das cidades grandes, ou no centro, onde ainda existem os cortiços. E mandam suas crianças à escola pública, agora não mais dez Escolas Normais, porém, milhares de creches e escolas de Ensino Infantil, Fundamental e Médio, na esperança de que aprendam a ler, escrever e contar, estudem Geografia, História e Ciências, para conhecer melhor a si mesmas e a seu país de origem, as Artes, para desenvolver suas habilidades pessoais, e que vivenciem a oportunidade de conviver com colegas e professores que lhes ensinem o respeito pelo outro, a necessidade de ser tolerante, o mal que fazem os preconceitos e a riqueza de relacionar-se bem com os outros.
Mas, diante dos inúmeros obstáculos de caráter político, econômico, cultural, social, educacional, de saúde, de ausência de recursos e de falta de competência técnica que a sociedade encontra pela frente, resta muito pouco à escola pública por fazer. Para ser eficiente, precisaria contar com a participação dos pais e de toda a comunidade, das empresas, das indústrias, das associações, das ONG’s.do entorno social. Mas parece que isso é uma utopia, um sonho. É a única escola em que acredito.
Voltarei na próxima sexta-feira. Venha comigo!
margamoura,quealegria // vaiserescritora,umdia
Olá, Marisa,
Grande alegria em vê-la neste espaço, comentando um artigo meu.
É isso aí, o embate entre culturas não é brincadeira. Há até quem possa desorganizar-se interiormente, tamanho o choque de se encontrar num lugar tão diferente do seu, com alimentação, costumes, crenças religiosas, padrões de comportamento tão diferentes daqueles com que está acostumado.

Volte sempre! Um abraço,
margamoura

“Esquecemo-nos de que não há nada como o homem para desmoralizar uma utopia”. Ruy Castro termina assim seu artigo de hoje, na Folha de São Paulo, uma frase tão severa e, no entanto, tão verdadeira. Ele relata o número crescente de casos de estupro divulgados pela mídia, diariamente, em que pobres crianças e moças indefesas são atacadas por rapazes e homens feitos, sejam ou não conhecidos das vítimas. Os padrastos têm as crianças em casa e os homens que perambulam por aí atacam crianças soltas na rua ou moças sem proteção.
Este tema nos conduz a uma reflexão sobre o ser humano: o homem nasce bom e a sociedade o corrompe, como queria Rousseau, ou o homem nasce cruel e a sociedade tenta amansá-lo? Ou, ainda, uma posição intermediária entre essas duas?
As correntes teóricas se sucedem. Acredito naquela que diz que o homem, assim como os animais, de onde ele provém, nasce cheio de instintos: de defesa, de ataque, de preservação da vida, com necessidades a satisfazer, como a sexual, a de matar a fome, de aplacar a sede, de se defender do frio, de se abrigar; de lutar, de competir – e de inúmeras outras, que os animais também apresentam. Porém, para viver em sociedade, é necessário aprender a fazer concessões. Não se pode sair por aí, agarrando, atacando, derrubando tudo, unicamente para satisfazer necessidades – individuais e coletivas. Então, dá-se o processo de socialização, desde que a criança nasce, para que cresça observando o mundo a sua volta, aprendendo a comportar-se em pequenos e grandes grupos, assimilando os valores, crenças e normas de conduta de seu grupo, a fim de que compreenda em que sociedade está inserida e como deve comportar-se nela. Caso, contrário, haverá punições, como as admoestações, os castigos corporais, a supressão de regalias, a prisão, o banimento e a morte, em muitos casos.
Bem, seria assim, se esse processo de socialização efetivamente funcionasse. Mas o ser humano não vive sozinho, senão que pertence a grupos pequenos que se inserem em grupos maiores que, por sua vez, estão encaixados em grupos grandes. O entendimento entre esses grupos entre si acaba sendo muito difícil e, por meio de intricados processos políticos e econômicos, valores sociais e culturais diferentes, padrões de comportamento, crenças religiosas, modos de vida e muito mais do que isso, os seres humanos, individualmente ou em grupos, atacam, agridem, saem derrubando tudo por aí – com ou sem punição.
Então, a grande utopia acaba sendo o próprio ser humano: quando se dará sua consolidação como um ser socializado, capaz de fazer concessões para viver bem em sociedade?
Voltarei na próxima sexta-feira. Venha comigo!
margamoura,quealegria // vaiserescritora,umdia
Na semana passada, participei de um debate sobre o livro de Li Cunxin, o último bailarino de Mao, intitulado “Adeus, China”, da Editora Fundamento Educacional, lançado em 2007 (o original saiu na Austrália, em 2003). A história, baseada em fatos verídicos, vividos pelo próprio autor, narra sua infância na China, sob a influência da revolução cultural de Mao Tsé Tung, e, posteriormente, sua ida para os Estados Unidos, como bailarino.

Com 11 anos, Li foi selecionado para tornar-se estudante da Academia de Dança Beijing, administrada por Madame Mao. Ali, os sete anos de treinamento lhe ensinaram disciplina, determinação e perseverança. E, por meio de muito trabalho pessoal e força interior, o menino pobre ganhou uma bolsa de estudos para os Estados Unidos, quando completou 18 anos – e viria a se tornar um dos melhores dançarinos da China.
Uma das partes mais interessantes do livro é o embate entre duas culturas tão diferentes, como crescer chinês, nos anos 1960, e amadurecer nos Estados Unidos, nos anos 1970 e 1980. Não poderiam ser mais díspares suas experiências na China de Mao e suas vivências na América de Ronald Reagan. E o rapaz começa, então, a ter conflitos de consciência, uma vez que os valores que trazia consigo eram muito diferentes dos da nova terra. E mais: a forma rígida com que seus professores e a cultura local lhe haviam mostrado os Estados Unidos não condizia com a vida que estava levando. Tudo tinha sido condenado, como licenciosidade, um individualismo desenfreado, uma falta de respeito pelas pessoas. E, no entanto, não era o que ele via à sua volta. E então: os chineses lhe haviam mentido? Finalmente, Li rompe com as tradições de sua infância e aceita a nova vida que se descortina à sua frente. Mais tarde, muda-se para a Austrália, onde vive até hoje.
Lembrei-me, então, de uma outra história que eu havia lido, que também falava desse embate de culturas, e tinha a ver com os Estados Unidos: foi quando o egípcio Sawid Qutb, em 1948, ganhou uma bolsa de estudos e foi para Nova York. O impacto interior, a diferença de valores, a realidade nua e crua sobre os norteamericanos ali, em sua frente, foram muito fortes para aquele muçulmano convicto, de uma religiosidade profunda, pouco interessado na vida sexual e já exercendo influência sobre a juventude de seu país. Ao contrário de Li, Qutb se revolta violentamente contra tudo aquilo que ele chamou de “modernidade”, volta ao Egito, junta-se ao pessoal da Irmandade Muçulmana, torna-se mais intransigente do que quando partira. Decreta guerra moral a esse modo norteamericano de viver. Condenado à morte, anos depois, pelo governo Nasser, transforma-se em mártir e virá a ser um dos maiores mentores do atual fundamentalismo muçulmano.
Estarei de volta na próxima 4ª. feira. Venha comigo!
margamoura,quealegria // vaiserescritora,umdia
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