A VERDADE E A REALIDADE

Na quarta-feira, eu falava sobre a verdade, uma realidade que queremos ver definida e que, no entanto, nos foge a cada instante.  Quando a mãe espreme a filha de sete anos e ela responde: “Mas foi assim, mamãe, eu estou falando a verdade” ou quando, no tribunal, a testemunha jura sobre a bíblia “que está falando a verdade e somente a verdade” – que verdades são essas, vistas por quem, expressadas de que maneira?

 

A realidade está aí e é uma só, mas nós a captamos de modos diferentes, de acordo com nossos órgãos do sentido, que se juntam aos nossos sentimentos, nossos juízos de valor e crenças, tudo isso misturado dentro de nós, além de ser uma parte consciente e outra, inconsciente.  Por isso não fica fácil assumir que parte de você está falando exatamente o que viu e que parte de você vem de seu “porão” e se intromete no que você está dizendo, mesmo contra sua vontade.  Por isso dizemos coisas que não queríamos e fazemos coisas que não tínhamos pensado fazer.

 

É nessa mistura de interior e exterior, de processos conscientes e inconscientes, que nos relacionamos com os outros, estabelecemos relações interpessoais, escrevemos nossos artigos, vamos à televisão dar entrevistas ou narramos pelo telefone o último filme que vimos.  Sentimentos, valores, crenças, propósitos assumidos, imagens, flashes da memória, lances de criatividade, hesitações e desejos, somos assim o tempo todo, quando estamos sozinhos ou quando nos relacionamos com o mundo exterior.  E é com todo esse acervo interior, esse patrimônio cultural que carregamos conosco, que saímos em busca da verdade.  Então, vai ser verdadeiro aquilo que assumimos como verdadeiro – e não apenas nós, mas no seio de nosso grupo de parentes, amigos, colegas de trabalho.  Hà verdades estabelecidas entre nós e das quais não abrimos mão.  No entanto, no confronto com grupos de carga cultural diferente da nossa, vamos checar que aquelas nossas verdades não são verdadeiras para o outro.

 

A verdade faz parte deste conjunto que chamamos de realidade. A realidade é uma só, é objetiva, é externa, não se altera de acordo com nossos desejos.  O que muda é a forma de captá-la, absorvê-la, participar dela.  Assim é a verdade.  Ela faz parte desta realidade que está aí.  Mas é captada de forma diferente pelas pessoas ou pelos grupos de pessoas.

 

O problema em relação à verdade é quando grupos culturais se julgam os únicos possuidores dela e, sem levar em conta aspectos atenuantes da realidade, querem impô-la ao restante do mundo, por amor ou por ódio, por desejo ou por vingança. 

 

Voltarei na segunda-feira, dia 02 de março.  Bom Carnaval!

 

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"DEU NA MÍDIA"

Interessante a polêmica que se criou em torno do caso da brasileira que teria sido atacada na Suíça por jovens skinhead e, grávida, teria perdido filhos gêmeos.  De acordo com informações de Nelson de Sá, de 16 de fevereiro, na Folha de São Paulo, a notícia teria surgido na tarde do dia 11, no blog do Globo Online, em Brasília, incluindo denúncias do pai da jovem, secretário parlamentar do deputado Roberto Magalhães.  No início da noite de 4ª. feira, deu no Jornal Nacional, da Globo, que “brasileira é torturada por uma gangue e tem interrompida a gravidez de gêmeos”.

 

Eu li a notícia no dia seguinte, quinta-feira, no UOL e na Folha de São Paulo.  Acreditei, mas fiquei refletindo sobre o fato: como uma moça poderia ser atacada e cortada levemente com estilete por rapazes, numa estação de metrô, sem que ninguém visse?  Ou viram e não a vieram socorrer, como é comum nas cidades européias?  Também imaginei que ela, falando ao telefone celular com a mãe, estaria descontraída demais, numa estação pública, coisa que ela não se deveria permitir.

 

Estava eu nessas reflexões e em busca de maiores informações, quando começaram os desencontros: a Suíça nega que o fato tenha ocorrido, os exames feitos na moça não revelaram que ela estivesse grávida, não se encontram testemunhos de pessoas que estivessem na estação e tivessem visto a ocorrência. Noutro dia, eu li que a moça alega que correu para o banheiro e lá perdeu os bebês.  Ontem, uma colega da brasileira disse que as fotos de ultrassom que ela mostrou no trabalho podem ser encontradas num site ou no google, não sei.  A versão da polícia suíça, até o momento, é que a moça inventou tudo isso e ela mesma se mutilou.  O pai da moça diz que ela nunca teve problemas psicológicos. Quem está mentindo?  Quem está falando a verdade?

 

Afinal, o que é a verdade, senão aquela fração da realidade que cada um de nós percebe, capta, sente, vê e ouve?  No relato de um acidente, quando várias testemunhas apresentam seus fatos – e o fazem de maneira diferente, é claro, por causa dos diferentes ângulos de percepção – quem está falando a verdade?

 

Ontem, no Painel da Folha de São Paulo, um profissional da Central Globo de Jornalismo pedia ao sr. Nelson de Sá que incluísse a Folha de São Paulo como um dos veículos que também deram a notícia sem guardar as devidas ressalvas.  Quer dizer, quando nós lemos os jornais e assistimos à TV, precisamos tomar muito cuidado com o que vemos e ouvimos, porque nem sempre as notícias são tão “verdadeiras” quanto fazem supor.  É nisso que reside nosso senso crítico: duvidar, duvidar sempre, duvidar, questionar, ir em busca de novas informações e, não, apenas, acreditar em tudo, “porque deu na mídia”...

 

Voltarei na próxima sexta-feira.  Até lá!

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THE NEW YORK TIMES

 

 

Hoje fui buscar inspiração no suplemento The New York Times, publicado pela Folha de São Paulo, às segundas-feiras.  Há aí um material interessante de reflexão, que passa pela crise financeira atual, menciona os problemas do Oriente Médio, fala de uma livraria abertamente pró-jihad, na Indonésia, e nos ensina os melhores procedimentos a respeito de nossos erros.

 

Algumas coisas nos textos me chamaram a atenção.  A primeira é a diferença entre econômico e financeiro:  “(...) quando a crise financeira se transforma em econômica (...)”, em “Gerenciando riscos”.  Nossas escolas deveriam ensinar melhor essas diferenças, no Ensino Fundamental e no Médio, em vez de insistir nas questões de clima, latitude e longitude, que, al fin y al cabo, acabamos deixando o banco escolar igualmente sem aprender.

 

Em “Ilusões do Oriente Médio”, Roger Cohen chama a atenção para o perigo de se idealizar o Oriente Médio, em vez de se vê-lo tal como ele é. Menciona em que se transformou o Iraque, à luz dos sonhos norteamericanos, mas está mesmo é falando do Irã, país que se transformou numa nação islâmica, daquelas que seguem o Corão ao pé da letra, desde 1979.  Ressalta que, com seus altos e baixos, o país está longe de passar por uma nova revolução e que seria necessário que o Ocidente, principalmente os Estados Unidos, visse o Irã tal como ele é, sem ilusões.  E, por tabela, o articulista pede que esse olhar se estenda até Israel e o avalie pelo que é: “uma nação que recorre com frequência demais à força militar, como em Gaza, numa tentativa inútil de dobrar o Oriente Médio a sua vontade”.  É isso aí.  Idealizar menos e crescer em objetividade.  Todos nós sairíamos ganhando.

 

No tocante a cometer erros, os profissionais entrevistados dão seus pontos de vista.  Quando você comete um erro no trabalho, por mais que lhe custe reconhecer isso, justo você, tão hábil, tão esperto, foi cometer esse erro! Em vez de lamuriar-se, confesse-o.  Conte a sua chefia e a seus colegas que errou e dimensione as consequências de seu erro.  Peça desculpa.  As empresas abertas tendem a aplaudi-lo por essa atitude.  É claro que um chefe retrógrado e ranzinza poderá não compreender.  Mas tente, assim mesmo.  Livre-se do erro, confessando-o, e, não, tentando remendá-lo por caminhos tortuosos, que dificilmente livrarão você das consequências desastrosas.

 

Bem – fora dos artigos – eu pergunto: e quando são erros gigantescos, fantásticos, incomensuráveis, como esta guerra que se trava entre os israelenses e os palestinos, por exemplo.  Como curá-los?  Como confessá-los?  Como revertê-los?

 

Estarei de volta na próxima 4ª. feira.  Venha comigo!

 

margamoura,quealegria // vaiserescritoraumdia




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