EUTANÁSIA

Dulceboop e Toni Moura de volta ao site, com seus comentários sobre a eutanásia.        

Quer dizer que no caso da Eluana não teria sido eutanásia e, sim, permissão para que ela morresse e descansasse em paz?  A eutanásia acelera a morte, ao passo que a retirada de equipamentos artificiais concede à pessoa o direito de morrer?  Morte natural, digamos assim, uma vez que a pessoa já não tem a faculdade de viver por conta própria.  Sim, são dois procedimentos diferentes, porém, na prática, confundem-se e permitem que os teóricos e os religiosos embaralhem seus argumentos, pois de todo modo se está interferindo na faculdade de se tirar a vida de uma pessoa.

O que mais me molestou, no episódio todo, foi a igreja católica reconhecer que se pode deixar de esticar a vida eternamente, quando diz que se deve chancelar a chegada da morte, não se lutar tanto contra ela.  E, no entanto, quando a Justiça italiana permite à família que desligue os aparelhos, vêm representantes da mesma igreja católica dizer que "ela" não vê com bons olhos esse procedimento.

Obrigada pela colaboração.  Espero vê-los por aqui em breve.  Um abraço,

margamoura

TIRANIA INFANTIL

Contardo Calligaris nos brindou na quinta-feira última, na Folha de São Paulo, com o artigo Tirania Infantil, tema sobre o qual ele teria discorrido na TV Bandeirantes, a convite de Boris Kasoy, se tivesse achado um horário.  Isso não aconteceu, mas ele meditou sobre o assunto e nos ofereceu uma reflexão.

 

Quem são as crianças tiranas?  E por que se comportam assim?  Nossas crianças são tiranas porque os pais não lhes dão limites.  E por que não lhes dão limites?  Porque é muito difícil dizer “não” a uma criança, repreendê-la, fazê-la passar por frustrações. Os filhos são a continuação dos pais na terra e é preciso, que sejam crianças felizes – e se os pais ficarem indicando caminhos, dando orientações e sendo exigentes, podem perder o amor das crianças e sua confiança.  Os pais não conseguem castigar sem culpa e, por isso, geralmente tentam compensar seus atos com outros, que reparem o aparente desamor.  Então, um dos sintomas da criança tirana é dizer, com suas atitudes: “Castigue-me, estou a fim de um mimo”.

 

São muito interessantes essas observações do psicanalista. É verdade que os pais têm hoje uma grande dificuldade em impor limites a seus filhos. Daria para dizer que no passado era mais fácil, visto que a cultura preservava a autoridade dos mais velhos e as crianças não questionavam tanto?  Não sei.  Havia a autoridade preservada, mas havia o autoritarismo dos adultos, o que levava a criança a confundir medo e temor com amor e respeito. O fato é que, hoje, é muito duro segurar um “não” até o fim e a tendência é a criança cansar os mais velhos, de tanto pedir e insistir, até que eles, exaustos, converterão o “não” em “sim”. Uma coisa não vi no texto foi a questão do desencontro de opiniões entre os pais – ou entre os adultos que tomam conta da criança.

 

Quando o pai tem valores e crenças diferentes dos da mãe, é comum as crianças receberem um “não” de um e um “talvez”, de outro.  Nesse caso, além de gerar nelas certa insegurança, o desafio de continuar testando os adultos é grande, para ver qual deles vencerá.  E, se esse problema já havia há algumas décadas, imagine hoje, em que é comum a mãe das crianças viver com outro homem que não é o pai delas, que por sua vez terá seus filhos convivendo com outro homem, o padrasto delas. E como, nesses casos, é provável que cada pai e cada mãe tenha tido suas próprias experiências ao lidar com crianças, em suas relações amorosas anteriores, estaremos diante de um novo casal que se esforça por agradar, compreender, orientar, castigar as crianças – sejam suas ou de seu parceiro – num esforço de acertar na educação desses filhos.  Mas, consequentemente, o risco de esbarrarem em valores contraditórios é maior. Não será que isso aumenta as chances de se educarem crianças tiranas?

 

Voltarei na próxima segunda-feira.  Venha comigo!

 

margamoura,quealegria! // Vaiserescritoraum dia!

MORREU ELUANA

Morreu no último dia 09 Eluana Englaro, a moça italiana a que me referi há uma semana neste espaço, que se mantinha em vida vegetativa há dezessete anos, esperando por uma cura que nunca veio.  Vítima de um acidente, em 18 de janeiro de 1992, quando tinha apenas 22 anos, Eluana perdeu a faculdade de viver por conta própria, mantendo-se viva durante todos esses anos em estado de coma, alimentada e hidratada artificialmente, por meio de equipamentos. Seu pai fez várias tentativas, junto às autoridades italianas, ao longo desses anos, solicitando lhe fosse dado o direito de desligar os aparelhos e que se permitisse à moça o descanso da vida eterna.  Mas, como esse procedimento se trata de eutanásia, um modo de agir que levanta uma série de discussões a sua volta, a família de Eluana teve muita dificuldade em exercer seu desejo.

 

Finalmente, o pai de Eluana obteve a vitória, na Justiça, em novembro de 2008.  Mas, ainda assim, não era em qualquer hospital, por isso a paciente foi levada para uma clínica em Udine, para morrer em paz.  E, de novo, surgiram os obstáculos.

 

Em artigo de ontem, na Folha de São Paulo, “Morre pivô de disputa sobre eutanásia”, o articulista diz que o governo conservador do primeiro ministro Sílvio Berlusconi, apoiado pelo Vaticano, fez oposição ao Judiciário e ao presidente da República da Itália.  Mas essa não foi a única fonte.  Artigos de jornal e da Internet dão conta de que, no dia 06 de fevereiro, Sílvio Berlusconi lançou um decreto que forçava a continuação do tratamento de Eluana e ameaçou jogar a Itália numa crise constitucional, quando o presidente italiano se recusou a assinar o decreto. Um dos pontos de controvérsia foi que os médicos haviam previsto cerca de duas semanas para o falecimento da moça após a retirada do apoio artificial, mas ela morreu em poucos dias – e isso também frustrou os que queriam a assinatura do decreto. 

 

Os políticos tomaram diferentes partidos.  E se, para uns, tratou-se de caso legítimo de eutanásia, que a legislação italiana não reconhece -- embora a jurisprudência autorize aos pacientes o direito de não se alimentar --, para a oposição, trata-se de uma jogada de Berlusconi para tentar aumentar seus poderes e desvirtuar a democracia italiana.

Eluana descansou, mas seu nome deverá vir muitas vezes à tona, porque o caso não está encerrado.  As correntes contra e a favor da eutanásia deverão encontrar-se com frequencia, no cenário social, agora que esse tema aparece cada vez mais na mídia, nos filmes, nas peças de teatro, nas novelas de televisão. Se as pessoas não tomassem partido tão depressa e dialogassem um pouco mais, quem sabe haveria chance de se obter a luz.  E – por que não? – um pouco mais de paz na terra.

Estarei de volta na próxima sexta-feira.  Venha comigo!

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A CAPACIDADE DE PERDOAR

Há alguns anos, ofendi sem querer uma grande amiga e fiquei consternada.  Magoada, não atendeu ao primeiro telefonema que lhe fiz, não queria prosa comigo.  Eu precisava explicar-lhe que se tratava de um mal-entendido, que não fiz por querer, que minha intenção não era...  Nada feito.  Tentei por correio, chamei o marido ao telefone para sua intercessão, nada.  Depois de várias tentativas, aceitei, resignada, e não nos vimos mais.  Uma pena.

 

É muito comum haver desencontros como esse, palavras ditas sem pensar, a competição acirrada irrompendo do inconsciente e acertando o outro feito um raio. Ou a mágoa provém de uma paixão descontrolada, de um gesto de ciúme, de uma vontade de vingar-se do outro... Para desentender-se, não é preciso esforço, acontece diariamente, com qualquer um.

 

Houve o desencontro, as pessoas estão de mal.  E agora?  Ou fica por isso mesmo ou há a tentativa de uma parte de resgatar a amizade.  Então, os telefonemas, os pedidos de perdão, o convite para um chope, os e-mails, aquela visita especial no dia do aniversário.  Feito o movimento em favor de uma reconciliação, vem a parte do outro: dispor-se a ouvir, preparar-se para negociar, exigir alguma coisa de volta, dialogar.  Sobretudo, saber ouvir.  Porque se as pessoas quiserem se explicar ao mesmo tempo não haverá compreensão e a mágoa poderá instalar-se de volta. Agora, o último passo, a reconciliação. Os pedidos recíprocos de desculpas, os abraços, o choro, os lenços, as desculpas aceitas, a volta do que

se havia perdido, amigos de novo, até a morte.  Não, até o próximo desentendimento.

 

E é nessa última etapa que o carro pega.  Porque pode não acontecer a reconciliação.  Porque a pessoa magoada não está disposta a perdoar.  Porque não quis nem receber o infrator.  Porque não quer ouvir, não quer ceder, não quer negociar.  Não quer reconhecer a parte que é sua. E diz, de modo desajeitado e falso: Não foi nada, deixe pra lá, eu até já me esqueci... mas não resgata, não concede o perdão.

 

Um dia destes fiquei muito comovida com o relato de um amigo.  Ele ganhou um cachorrinho e se diverte muito, quando chega em casa e brinca com o cachorro.  Leva-o a passear e conversa com ele. É um relacionamento afetivo que dá gosto de ver.  Pois ele me dizia que tem aprendido muito com o cachorro.  Primeiro, quando eles se encontram, o cachorrinho late e salta, late e salta, como se dissesse:  “Você gosta de mim?  Você gosta de mim?”.  Passada a euforia, acomoda-se e segue o dono.  E, diz meu amigo, ele compreende a gente, ele gosta da gente, ele perdoa.

 

Fiquei estarrecida, pensando num cachorrinho que perdoa e ensina você a perdoar.  E, sem querer, pensei naquela minha amiga.

 

Estarei de volta na próxima 4ª. feira.  Venha comigo!

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