
Depois de dezenove anos de boa companhia e muita malandragem, foi-se a nossa Ximbica, bonita, de pêlo lustroso, muito dona de si, altaneira, reinando no lar. Foram anos e anos com ela a correr pelo apartamento, fazendo estrepolias e sentando-se à mesa do café, esperando seu bocado.
Durante muitos anos, Ximbica e o pretinho Xico reinaram na casa. Ele ia atrás dela e inventavam mil artes. O duro era quando chegavam os hóspedes, pois os dois gatos perdiam seus aposentos. Uma ocasião, ficaram espiando do lado de fora da janela, com tristeza, contando os dias para que aquele casal fosse embora. Só faltou pedirem para a ver a data da passagem de volta.
De outra feita, Ximbica e Xico se mudaram com seus donos para uma casa, em outra cidade. Lá, porém, havia uma gata, Mia Farrell, moradora no lugar há muito tempo, crente que fosse a proprietária, onde vivia sua dona, uma senhora muito bem humorada. Pois Ximbica e Xico nem tomaram consciência da presença de Mia, apossaram-se da casa toda. E a pobre gata, morta de medo deles, limitou-se a morar na cozinha, empoleirada feito um papagaio numa pedra que havia perto da janela, ao lado da pia.
Mas Ximbica era impagável quando se tratava de preparativos para partida. Se sua dona apanhasse as malas no alto do guarda-roupa, já a gata malandra, esperta, adivinhava que ia ser abandonada ou deixada aos cuidados de outrem. E isso ela não podia suportar. Não ela! Aos cochichos com Xico, pelo apartamento, ambos se preparavam para as represálias. Dois dias antes da viagem, sumiam da vista, desapareciam, não queriam agrados. Na hora da partida, malas na porta da rua, táxi chegando, ambos se apoiavam mutuamente e, grudadinhos de olhos na janela, viam a dona impiedosa partir. Mas eles sabiam que ela voltaria, pois nunca os abandonava. E o melhor estava por vir. Quando ela chegava, fingiam que não a tinham visto, não a reconheciam, voltavam-lhe acintosamente as costas. Emburravam. E isso durava três dias. Podia chamá-los, pretender acariciá-los, trazer-lhes biscoitos finos. Não queriam prosa com ela. Contudo, o tempo os acalmava. E, como as malas eram devolvidas a seus respectivos lugares, sabiam que tão cedo ela não os abandonaria de novo. E faziam as pazes com a dona.
Teve o dia em que Xico se foi. Adoeceu, veterinário, injeções, nada adiantou. E a pobre da Ximbica ficou feito zumbi, andando pelo apartamento, procurando pelo companheiro, sem entender porque ele se fora. Se nem sequer o vira fazer suas malas! Onde andaria o Xico? Pobrezinha da Ximbica. Mas agora – ela é que se foi. A juntar-se ao coleguinha de folguedos. Deve estar contente, se o tiver encontrado. Mas deixou um grande vazio. E sua dona, contrafeita e dolorida, está dando voltas no apartamento pequeno, a ver o que sobrou de sua companheira de dezenove anos. Só o tempo irá curar sua dor. E não adianta pensar em pôr outra Ximbica no lugar. Não haverá outra como ela!
Voltarei na próxima segunda-feira. Até lá!
quealegria,margamoura // vaiserescritoraumdia
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