EU QUERIA TANTO!

Eu queria tanto ter de novo onze anos e me sentir naquela pracinha da rua Marquês de Três Rios, abraçando as árvores e queimando fogos, no mês de junho!  Eu queria tanto!  Estar de novo naquele quintal acimentado, ao lado dos meus irmãos, fazendo rolar os limões ladeira abaixo, apostando corrida, cada um com um nome de cavalo, a ver qual seria o limão que chegaria primeiro.

Mas eu não posso.  Eu não tenho onze anos e a pracinha já não é mais aquela.  Moro em outra cidade, já cresci, trabalhei e me aposentei.  Hoje, vejo aquele homem deitado no meio da calçada, em plena avenida Paulista, os braços esticados, como se pregado numa cruz, chamando a atenção de cada um que passa - e não pára, segue adiante, como se tivesse visto apenas uma folha caída da árvore.

Mas eu não posso.  Leio no jornal e vejo na televisão as imagens de uma Santa Catarina devastada pelas águas, as pessoas perdendo tudo, chorando, se lastimando, sem saber como irão recomeçar suas vidas - ou melhor, sem saber como passarão o dia de hoje, se não têm o que vestir, nem o que comer.

Mas eu queria.  Ter de novo meus dezesseis anos e sair para dançar, nos sábados à noite, nos domingos à tarde e nos domingos à noite.  Dançar, conversar, tomar um guaraná, comer um sanduíche, conhecer pessoas, fazer amigos. Estar de novo naquele colégio tão gostoso, estudar, levantar apressada para acabar de ler aquela matéria que falta.  Era a vida vivida de outra forma, era um tipo de responsabilidade irresponsável, era muito pouco o que era obrigatório se fazer e grande o tempo livre que restava.

Mas eu não posso.  Não tenho mais dezesseis anos, já não bailo mais, é grande a parte obrigatória por fazer e pequeno o tempo livre que resta.  O tempo mudou, o mundo ficou pequeno, as notícias correm, sabe-se de tudo num instante, é difícil tapar os ouvidos, fechar os olhos e dizer: "Não estou vendo nada".

Meu marido diz que não estou ouvindo nada do que ele fala.  Sou eu que estou ficando surda ou é ele que está articulando mal as palavras?  Os terroristas estão, realmente, cada vez mais bravos e ferozes ou é uma parte do mundo que os trata mal e eles estão apenas se defendendo?  Como você sabe onde começa o prazer daquela pracinha e acaba o desprazer de ter crescido e ter virado gente?  Não poderia ser o contrário: o prazer dos dez anos era irracional, irresponsável e fora de um contexto, ao passo que hoje, madura e envelhecida, tenho maior poder e mais elementos para sentir prazer?  Como se sabe?

E você - desfruta de prazer, hoje?

Na próxima segunda-feira estarei de volta.  Venha comigo!

margamouraqueéescritora // resolveuserblogadora

UMA ESCRITA DIFERENTE

 Há muitos anos, peguei um livro de Júlio Cortázar, um escritor argentino, tentei ler as duas primeiras páginas e não consegui.  Hermético, contraditório, palavras desconexas, não entendi e não gostei.  Fechei o livro e, como boa impulsiva, disse a mim mesma: "Júlio Cortázar?  Eu passo".

Agora, em plena maturidade, disposta a resgatar as besteiras que a gente faz na juventude e na primeira maturidade, caiu-me nas mãos um artigo sobre Júlio Cortázar, do Le Monde Diplomatique, e me interessei em saber quem foi ele.  Gostei do que li: nasceu na Bélgica, em 1914, e morreu em Paris, em 1984.  Seus pais eram argentinos, de modo que, aos quatro anos de idade, o menino já estava na Argentina, onde cresceu. Aos 37 anos, em plena ditadura de Perón, deixou a Argentina e mudou-se para Paris, onde viveu até sua morte.

 Formou-se professor em Letras e foi professor de literatura, na Argentina. Em 1938, editou um livro de poemas, sob pseudônimo.  Em Paris, trabalhou durante vários anos como tradutor da Unesco.  Interessado pela história política da América Latina, esteve em Cuba e, mais tarde, no Chile. Dois anos antes de morrer de leucemia, fez uma última viagem à Argentina.

O que me chamou a atenção nesse escritor foi a maneira como ele foi mudando seu estilo.  Se eu não pude ler "O Jogo da Amarelinha", porque, de fato, é muito complexo, li com facilidade e um grande prazer seus contos, de uma fase que se estendeu de 1939 a 1945.  É incrível seu engenho, sua habilidade e, sobretudo, sua imaginação.  Se, como quer Rosa Montero, em La Loca de la Casa, o escritor precisa soltar sua imaginação, então Júlio não fica a dever nada a ninguém. Preciso pegar de novo aquele livro que recusei e ver se hoje eu o agüentaria ler.  Mas esses contos que estou lendo, da primeira fase de sua vida, são preciosos.

Outro resgate que pretendo fazer diz respeito a Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Márquez.  Foi outro livro que li, nos anos 80, e entendi muito pouco.  Agora, sob nova luz e nova maneira de compreender, sei que irei aproveitar muito mais.

Foi sob a influência de Júlio Cortázar que escrevi, neste espaço, outro dia, uma poesia sem pé nem cabeça.  É assim que ele fazia.  Ia embora, ia embora, sem medir as palavras, criando, criando.  Quero aprender mais com ele.  Quero soltar-me, tirar os pés do chão, e inventar, inventar, inventar.  Quem sabe um dia eu ainda acabe aprendendo.

Voltarei na 6ª. feira.  Venha comigo!

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

UMA BOA ALMA

 Ontem, fomos assistir a uma peça no teatro Renaissance, A Alma Boa de Setsuan, de Brecht.  Eu não conhecia o texto e adorei, tanto o conteúdo quanto a forma.  Levada a cabo por um grupo grande de artistas, o papel principal é de Denise Fraga, que está esplêndida nos dois papéis que representa.  Versátil, corajosa, com expressões faciais deliciosas, é um prato cheio.

 Um deus desce do céu e procura na aldeia chinesa de Setsuan uma alma boa que lhe dê abrigo, pedido que só é acolhido pela prostituta Shen-Te.  E, com o prêmio ganho por ela pela bondade, começam as peripécias da protagonista, numa terra em que cada um quer extrair dela um dinheirinho.  A personagem se vê, então, diante de um impasse: como ser boa sem sucumbir?  Diz ela: "Se lhes dou uma mão, puxam meu braço todo".  Na peça, ela encontra uma saída, mas, ao final, ela joga para o público o dilema, pedindo a cada qual que pense em casa.

 Bertolt Brecht deixou a Alemanha nazista e exilou-se em vários países antes de se fixar nos Estados Unidos.  Terminada a guerra, voltou à Alemanha. Essa parábola foi escrita em 1941, época em que se encontrava fora da terra natal. O autor afirmava que a bondade era o estado natural do homem. Segundo ele, a crueldade exigia um grande esforço. Entretanto, o preço para se praticar o bem em um mundo como o nosso seria alto demais.

 A peça, bem montada, ágil e com bons atores, prende a atenção durante as duas horas de duração.  A comunidade de pessoas pobres anseia por encontrar-se com a moça Shen-Te, pródiga em fazer o bem e pensar mais nos outros do que em si mesma.  No entanto, é muito difícil equilibrar-se nessa corda bamba.

Cá entre nós, não existe nem o Bem nem o Mal em estado puro e nós mesmos nem sempre nos damos conta de nossa capacidade interior de ser cruéis.  Quantas vezes dizemos alguma coisa que não deveríamos, tomamos uma ação que não se esperava de nós, atiramos uma pedra no outro, quando pensávamos que não fôssemos capazes de fazer isso.  O Bem e o Mal estão presentes em tudo o que fazemos, nas pessoas, nas relações sociais, nos planejamentos, nas ações, mesmo quando sequer nos damos conta de sua existência.  Somente o maniqueísmo nos fazia pensar que uma pessoa era perfeitamente boa e a outra era completamente má.

 A peça de Brecht nos faz parar para pensar se o homem nasce bom e aprende a ser mau ou se, pelo contrário, ele nasce mau e aprende a controlar sua maldade, ao longo da vida.  Mas precisa ser assim, ou uma coisa ou outra?

 

Na próxima quarta-feira estarei de volta.  Até lá!

 

blogqueéquasediário // témerececomentário




[ ver mensagens anteriores ]



Meu Perfil
BRASIL , Sudeste , SAO PAULO , JARDIM PAULISTA , Mulher , Portuguese , Spanish , Livros , Games e brinquedos

 
Visitante número: