DE TRAGÉDIAS E CALAMIDADES

Chocados com o desastre que as chuvas vêm causando há quatro dias em Santa Catarina, o brasileiro fica horrorizado diante do sofrimento daquele povo, da tristeza dos que perderam tudo, da devastação que é olhar para aquelas águas caindo ou paradas, arrastando consigo o que encontram pela frente, telhados, paredes, barracos, casas inteiras – e se pergunta: tem que ser assim? essas desgraças que se abatem sobre nós, na temporada das chuvas, tem que ser assim ou há algo que se possa fazer?

 

Na noite de quarta-feira, a televisão norte-americana mostrou os destroços deixados em Mumbai, na Índia, pelos sucessivos ataques terroristas que houve naquela cidade, chamada anteriormente de Bombaim. Os atacantes assaltaram com armas pesadas sete ou oito lugares populares e públicos, durante o dia, como estações de metrô e praças públicas, matando dezenas de pessoas, e invadiram dois hotéis de luxo, cheios de turistas, fazendo reféns.  E, de novo, nós nos perguntamos: tem que ser assim ou há algo que se poderia fazer para evitá-lo?  Brigam os grandes entre si, brigam as autoridades entre si, soltam seus exércitos nas terras e nos mares, mentem, solapam influências, difamam, mandam matar e promovem as guerras, para reivindicar novos territórios, novos nichos de mercado, um pouco mais de petróleo -- e quem paga o pato somos nós, civis, moradores pacatos que não temos nada a ver com isso.  Quer dizer, temos e ao mesmo tempo não temos.

 

Temos, enquanto cidadãos, se levarmos os conceitos ao pé da letra, se formos conscientes de nosso papel na sociedade, nos unirmos e fizermos uma série de reivindicações.  Mas não temos, na medida em que o sistema de democracia nos chama para votar mas, ao mesmo tempo, nos distancia de nossos representantes no poder, de tal maneira que acaba sendo muito pouco o que podemos fazer.

 

O debate a respeito do Bem e do Mal não é de hoje.  Desde os primórdios se discutia sobre a figura de Deus, que, sendo tão bom e generoso, permitia que o Mal se apoderasse da terra, na forma de calamidades, terremotos, guerras, invasões, tsunamis.  Deus só fez o bem e o Demônio inventou o Mal?  Ou Deus é uma figura única, responsável tanto pelo Bem quanto pelo Mal que há na terra?

 

Questões difíceis de responder. Mas uma coisa é certa: tanto o desastre das enchentes quanto a tragédia dos atos terroristas poderiam ser evitados, se os homens se organizassem melhor, priorizassem o bem-estar da coletividade, negociassem melhor os problemas que surgem, investissem dinheiro onde teria que ser investido e adquirissem maior competência para administrar as coisas que lhes competem.  Enquanto isso não acontece... 2009 vem vindo com novas calamidades e não se sabe bem onde explodirá a próxima bomba terrorista.

 

VOU VIAJAR.  VOLTAREI EM 05 DE DEZEMBRO. ATÉ LÁ!!

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

O VANDALISMO NAS ESCOLAS

 

Deu na Folha de São Paulo de hoje, em Tendências/Debates, um artigo da professora Dra. Dagmar M. L. Zibas, a respeito do vandalismo nas escolas brasileiras.  A autora se refere aos incidentes ocorridos recentemente na escola estadual “Amadeu Amaral”, em São Paulo, em que houve depredação por parte dos alunos e uma repressão policial desmedida, mas suas considerações são mais amplas do que isso.

 

“O vandalismo praticado é um protesto contra a completa desesperança de encontrar na escola a chave para um futuro melhor”.

 

O que mais me impactou, na leitura do artigo, foi a parte em que a autora enumera o que um bom sistema educacional poderia conter: professores com capacitação inicial e continuada, aulas positivas instigantes, desenvolvimento de projetos interdisciplinares, professores que permanecessem em um único local de trabalho, o dia todo e fossem bem-remunerados. Maior permanência diária dos alunos nas escolas, em ambientes agradáveis e adequados, com boas salas de aula, bibliotecas atualizadas, laboratórios, equipamentos esportivos, dispositivos multimídia, Internet na escola ou no meio social circundante.  Acompanhamento individualizado das dificuldades e dos progressos de cada estudante, visitas a museus, acesso a teatro, concertos, cinema, que se constituem nos procedimentos didáticos complementares.

 

Você acha que fica caro estruturar as escolas com esses recursos?  Ora, depende de os poderes públicos priorizarem esse setor da sociedade, em vez de colocar as verbas destinadas à educação em outras áreas não tão prioritárias.  E, enquanto o valor destinado à educação no Brasil foi de cento e quarenta e nove bilhões de reais, de 2000 a 2007, o valor reservado para pagar juros aos compradores de títulos da dívida pública foi de hum trilhão e duzentos e sessenta e oito milhões de reais.  Claramente, encerra a articulista, esse “vandalismo” é muito superior ao das escolas.

 

Concordo com a professora.  Acho que, mais do que falta de dinheiro, é uma questão de se dar prioridade a um assunto tão importante como o educacional e encontrar-se a competência necessária para elaborar bons projetos e fazê-los cumprir. 

 

Voltarei na sexta-feira.  Até lá!

 

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

DE DISCRIMINAÇÃO E PERSEGUIÇÃO

Salman Rushdie fala, em seu livro Cruze Esta Linha, de como passou quase dez anos no exílio e como necessitou de proteção para sobreviver.  Agradece, ao longo do livro, às principais figuras que o auxiliaram nessa luta.  É verdade que ela relata uma série de eventos dos quais participou, estados norte-americanos que conheceu, pessoas com quem conviveu, naquela época, e que resultaram em experiências muito interessantes.  Dão até um livro!  Mas isso é outra história.  O que importa é que ele sofreu uma perseguição ferrenha dos grupos muçulmanos, por seu livro Os Versos Satânicos, e teria tido morte prematura, se tivesse sido apanhado. Também Richard Dawkins se refere aos percalços de Salman Rushdie, em seu livro Deus, um Delírio, publicado em 2007, pela Companhia das Letras.  Interessado em mostrar como o ser humano tem a capacidade de abraçar a crença em Deus com fanatismo, sem usar a razão para ponderar sobre sua fé e suas conseqüências, usa o exemplo da perseguição que Rushdie sofreu.

 

Outro fato que ele narra é o que aconteceu com as caricaturas de Maomé, a que já fiz referência neste espaço, fatos que aconteceram em 2006 e conturbaram bastante as relações entre os muçulmanos e o Ocidente.  Relata Dawkins que, em setembro de 2005, o jornal dinamarquês Jyllands-Post publicou doze caricaturas do profeta Maomé. A indignação por causa disso foi sendo alimentada por um grupo de muçulmanos na Dinamarca, sob a liderança de dois imãs que ali haviam recebido guarida.  No fim de 2005, esses exilados, que Dawkins chama de malévolos, viajaram da Dinamarca para o Egito carregando um dossiê que foi copiado e circulou por todo o mundo muçulmano.  O dossiê continha falsidades sobre supostos maus-tratos sofridos por muçulmanos na Dinamarca e a mentira de que o jornal Jyllands-Post era estatal.  Às doze caricaturas originais, os imãs acrescentaram três, cuja origem não se conhecia. Eram três caricaturas genuinamente ofensivas – ou teriam sido, se retratassem Maomé.  A “mágoa” e a “ofensa” por parte dos muçulmanos explodiram cinco meses depois da publicação das caricaturas originais.  O pandemônio, as agressões, a queimação de templos, as provocações e as mortes que se seguiram a isso em vários países da Europa foram notícia em jornais, revistas e televisão.  E Dawkins prossegue, relatando tudo o mais que ocorreu.

 

Estou acabando de ler A Fonte, de James Michener, e estou impressionada com as cenas de violência que o livro narra, da primeira à última página. Conta a história da formação do povo judeu, desde séculos antes da era cristã, e vem até os dias de hoje e, embora esteja falando sobre fatos que todos nós conhecemos, ainda consegue nos surpreender com as constantes confrontações entre judeus e muçulmanos, judeus e cristãos, romanos e cristãos, muçulmanos e cristãos, mamelucos egípcios e judeus, numa seqüência de atitudes ilógicas e impensadas, carregadas de preconceito e de muito ódio, que se passam de geração a geração, tudo muito triste, muito maldoso, muito sem sentido.  Mas, como são fatos de que não podemos duvidar, ficam aí expostos até a eternidade, para que possamos, pelo menos, refletir sobre eles.

Estarei de volta na quarta-feira.  Venha comigo!

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