Feliz, sorrindo, ele acariciou o telefone, antegozando o prazer que ele lhe proporcionaria. Era ainda daqueles aparelhos antigos, preto, de buscar os números girando com o dedo indicador, ouvindo o barulhinho do disco, para frente e para trás, como se usava há muitos anos. Acariciou o fone, encostou-o na face e, pressuroso, ficou com os nomes e os números competindo entre si em sua cabeça, para ver quem seria o primeiro para quem ele ligaria.
Lembrou-se de Alice. Discou os três primeiros números. Interrompeu-se. Segurou o disco com o dedo. Parou para pensar. Valia a pena? Afinal, na última vez em que ligara para ela... Pensou em Beatriz. Afoitamente, atirou-se ao número de sua casa. Interrompeu-se momentaneamente, após discar os cinco primeiros números: seis horas da tarde, estaria ela ainda no trabalho ou estaria a caminho de casa? Então, melhor seria ligar para Eunice. E riu-se de forma cínica. Para falar com Eunice, era preciso que o marido dela não estivesse em casa. E daí: arriscaria? Pôs o fone no gancho. Para ligar para Esmeralda, era preciso consultar a caderneta, ele ainda não tinha decorado seu número novo. Foi atrás do caderninho de endereços. Ao lado do nome dela, viu o de Anunciata e, pela primeira vez, acreditou em seu impulso, de verdade. Ligou, Anunciata atendeu. Que sorte! “Como assim? Mas quem... quem? Você? Como tem a coragem de me ligar, depois de tudo o que me disse naquela noite? Atrevido!” E bateu-lhe o fone no ouvido.

Um tanto sem-graça, pousou o telefone no berço. Coçou a orelha direita, fez que ia assoar o nariz, desistiu, esfregou as costas. E, maldizendo o rapaz da telefônica, que vieram consertar o telefone num horário tão inadequado, retomou a revista que tinha estado lendo.
Voltarei na próxima segunda-feira. Até lá!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Na segunda-feira, refleti neste espaço a respeito dos limites da liberdade de expressão: posso dizer publicamente tudo o que penso? posso difamar, denegrir, criticar, fazer gozação dos valores do outro, em nome da liberdade de expressão? E, no artigo, referi-me a leituras que fiz sobre os problemas que a Alemanha, a França, a Holanda e a Grã-Bretanha, entre outros, estão enfrentando, ao conviver com um grande número de comunidades muçulmanas.

No fundo, é uma questão de aculturação. Para receber as culturas imigrantes e permitir que elas se acomodem nos novos países que escolheram para morar, é necessário que haja certa aceitação recíproca de crenças religiosas, valores, sentimentos, idéias, sistemas de poder e de vida econômica, para que os grupos possam entender-se e permanecer numa boa. O contrário disso é a imposição de uma cultura sobre a outra, sem concessões. Significa que, quanto mais diferentes forem esses valores e esses padrões de comportamento, mais difícil será essa aclimatação. Os recém-chegados poderão querer não se misturar – e então darão origem aos famosos “guetos”, que se tornam famosos pela vida típica que se desenvolve ali. Ou, pelo contrário, aceitam aproximar-se e misturar-se, por meio de casamentos mistos e, com o passar do tempo, acaba-se esquecendo quem veio de onde.
A História está cheia de exemplos em que diferentes culturas sofreram um embate entre si e levaram séculos ou milênios para se aculturarem. Basta pensar nas Américas, que trouxeram os negros da África, trataram-nos como escravos por uns tantos séculos e, finalmente, abolida a escravatura, permitiram sua aculturação com os brancos. Tem sido fácil? De nenhuma maneira. Mas a mistura tem havido, depois de muita morte, muito ódio, muita emboscada, muita revolta, muitas leis a favor, muitas leis contra. No Brasil, não houve propriamente uma luta armada, mas nem por isso a aculturação foi tranqüila. Nos Estados Unidos, estourou a Guerra de Secessão, em 1860, e a escravidão terminou em 1865 – e agora elegem o primeiro presidente negro. Significa que a luta acabou, que ninguém saiu machucado? De jeito nenhum. Significa que o processo de aculturação está em curso, com seus altos e baixos. A mudança de idéias, a renovação de conceitos, a diminuição de preconceitos, a instalação de um novo padrão de conduta, nada disso se faz na sociedade humana sem sofrimento, sem que morram os que estão à frente de seu tempo, até que a maioria comece a compreender e ensaie passos de mudança. Não vejo outra forma de se fazer isso. E o processo continua parecendo mais importante do que o produto final.
A Alemanha, a Holanda, a Inglaterra, a França, cogitam de rever seus códigos de lei para facilitar a aproximação e a convivência com os muçulmanos que se mudaram para lá. Isso é fácil? De jeito nenhum. Mas, como eu disse, faz parte do processo – de décadas.
Voltarei na sexta-feira próxima. Me aguarde!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Não é de hoje que o embate muçulmanos versus Ocidente vem dando o que falar, no tocante à liberdade de expressão. O Ocidente – Grã-Bretanha, Europa Ocidental, Estados Unidos – sempre se vangloriou de permitir que as pessoas se expressassem como quisessem e assumissem as conseqüências de seus atos. Quando, porém, o mundo muçulmano se revolta com artigos, idéias e livros publicados pelo Ocidente, a panela ferve no fogão.

Já foi assim quando o romancista indiano-britânico Salman Rushdie publicou, em 1988, o livro “Versos Satânicos”. O aiatolá Khomeini, no Irã, publicou uma “fatwa” em que declarava o escritor jurado de morte e vários outros países também protestaram, considerando os versos como ofensivos a suas crenças religiosas. Os escritos de Rushdie são um misto de realismo mágico e história de ficção e um tema dominante de seu trabalho são as várias interligações entre os mundos oriental e ocidental. Ameaçado de morte, Rushdie passou praticamente dez anos escondido, viajando de um país para outro, sempre sob proteção, aparecendo pouco em público, até que a “fatwa” foi suspensa e ele pôde voltar a viver como um cidadão comum.
Em 2006, estourou na imprensa internacional a questão relativa às caricaturas de Maomé, tendo sido a Dinamarca um dos países a permitir a divulgação de tais desenhos, baseada no direito de “liberdade de imprensa”. O escândalo, porém, percorreu toda a Europa, tal o protesto dos países muçulmanos. As autoridades dinamarquesas vieram a público, alguns jornalistas foram punidos, enquanto muita gente, por outro lado, achava que cada qual tem o direito de expressar-se, com responsabilidade. Recentemente, tenho lido sobre os problemas surgidos na Alemanha a esse respeito e, no último dia 12, o Le Monde divulgou, por meio do Uol, um artigo referente à Holanda, que cogita de estreitar as leis relativas à expressão, proibindo que se ofendam inutilmente a raça, a orientação sexual e a religião de grupos e comunidades.
Trocando em miúdos, com minhas próprias palavras o problema se coloca assim:
enquanto o Ocidente dominava o mundo cultural, artístico, tecnológico, político e econômico, seus valores e crenças muito semelhantes entre um país e outro davam o tom dos debates e dos artigos. Agora, o mundo mudou. Os países orientais cresceram e apareceram e, dentre eles, o mundo muçulmano, que excede as fronteiras dos países e pode aparecer em bloco, quando seus valores, crenças e padrões de comportamento são questionados. Os muçulmanos estão gradativamente conquistando a Europa, mudando-se para lá, assistindo ao crescimento de seus filhos, netos e bisnetos em solo europeu, e há um verdadeiro choque quando se enfrentam os valores e as crenças desses dois mundos tão diferentes entre si. Estamos assistindo a esse fenômeno de embate entre duas culturas muito fortes e isso deverá persistir pelo menos pelos próximos vinte anos.
Eu acho.
Voltarei na quarta-feira. Até lá
blogqueéquasediário // témerececomentário
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