DE CRENÇAS E SUPERSTIÇÕES

Li um artigo sobre as superstições, na Revista Galileu, de agosto de 2004, em que Camila Artoni dizia que é próprio da cultura o homem acreditar em coisas que dão sorte e coisas que dão azar e que as superstições não têm nada de ignorância. O ser humano recorre ao pensamento mágico sempre que precisa sair de uma situação de aperto.  As práticas de bater na madeira para evitar o mal, benzer-se quando vê um gato preto ou não passar debaixo da escada, aparentemente sem sentido, fazem parte de nossa herança cultural inconsciente.

 

Ela cita Freud e Jung, que estudaram o assunto e disseram que as crenças e práticas supersticiosas estão profundamente enraizadas nos processos mentais inconscientes do homem e que a superstição não é algo próprio das pessoas sem instrução.  A escolaridade pode até influenciar no formato da crença: os menos letrados procurariam benzedeiras, os mais cultos seguiriam gurus, mas, al fin y al cabo...são a mesma coisa.  Há um quadro em que o neurofisiologista Renato Sabbatini, professor da Unicamp, propõe que uma forma de contrabalançar o uso do pensamento mágico é desenvolver o pensamento crítico, aquele que nos faz duvidar das coisas que vemos e ouvimos e nos leva a refletir e a elaborar as situações. E é ele quem propõe que o pensamento mágico se mistura com o religioso, pois o misticismo e a religião buscam respostas para a satisfação das necessidades humanas.  “Hoje, acreditar em anjos é uma forma de terapia”. E continua, dizendo que o apetite que o homem tem pelo milagroso cria um cenário propício para o surgimento de manipuladores, o que não deixa de ser uma ameaça à razão.

 

Pensando nisso, fui folhear uma reportagem da revista Isto É, de dezembro de 2005, em que o médium Robério de Ogum fazia previsões para 2006. Fiquei estupefata. Claro, é, de novo, a necessidade de desvendar o sobrenatural, ver o futuro, saber o que nos acontecerá.  Conhecer o futuro antes dos outros dá um poder tremendo a esse indivíduo.  Mas por que algumas pessoas teriam esse dom e outras não?  Dizem elas que é porque recebem a graça de Deus ou do Santo diretamente, porque sem a voz de Deus não saberiam dizer nada... e vão por aí afora.  Mas, eu insisto, por que algumas pessoas e não todas?

 

“O homem comum não quer proteção para a alma, ele deseja mesmo é uma boa sorte, uma boa colheita, escapar de acidentes, obter um emprego e ter sorte no amor”, diz o historiador Isnard Câmara Neto, naquele artigo da Galileu.

 

É isso aí.  Inconformados em aceitar cada dia e cada momento tal como eles se nos apresentam, forçamos a barra, inquirimos, buscamos ajuda extraterrena, mística, esotérica, o que seja, para nos ajudar a agüentar o dia-a-dia que, convenhamos, não é fácil para ninguém!

 

Volto na segunda-feira.  Um grande abraço,

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

CONSELHOS (POUCO) MORALISTAS

Não gaste energia ruminando coisas ruins que aconteceram com você.  Prefira lembrar-se das coisas boas, gostosas, dos momentos em que você agiu adequadamente, em que foi útil, ou daquela festa saborosa.

 

Mais vale o prazer inesperado que se apresenta agora do que sonhar com aquele, planejado, que talvez não chegue nunca.

 

Faça você mesmo.  Por que pretender que ela ou ele faça para você ou por você?

 

Não deixe para depois.  Faça agora.  Remédio amargo a gente toma logo.

 

Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer.

 

Conheça-se a si mesmo: identifique seus valores, suas crenças, as regras de conduta pelas quais você se guia.  Acredite que você, como todo mundo, tem um inconsciente, o porão de sua casa, e tente desvendá-lo, em vez de esconder-se dele.

 

Não saia contando casos, ao telefone.  Quem chamou, deve falar primeiro.

 

O corpo fala.  A testa emite sinais.  Os olhos se tornam opacos ou brilham.  As mãos são expressivas.  Dependendo das circunstâncias, o bocejo é aterrador.

 

Dê só um pouco de atenção, se for o caso.  Mas o pouco que dê que seja genuíno.  O sorriso forçado e as palavras amáveis inúteis são perceptíveis mais do que se pensa.

 

Voltarei na sexta-feira.  Até lá!

 

margamoura,sempreàespreita // escrevecomamãodireita

A BÍBLIA AO PÉ DA LETRA

Está imperdível o artigo de Rubem Alves na Folha de São Paulo de 30 de setembro.  Com muita propriedade, ele se vale da resposta de uma locutora de rádio norte-americana e transcreve a carta de um ouvinte, em resposta.

 

Cristãos fundamentalistas são os que acreditam que as sagradas escrituras foram ditadas por Deus e, portanto, tudo o que está ali escrito é divino, verdadeiro, imutável, devendo ser obedecido ao pé da letra.  Aquilo que Deus falou há três mil anos é válido para hoje e para todos os tempos futuros. Por isso, quando lhe perguntam sobre a homossexualidade, Laura Schlessinger responde que se trata de uma abominação, pois a Bíblia afirma isso em Levítico 18:22.

 

Um ouvinte, então, escreve-lhe uma carta, perguntando como deve comportar-se, tendo em conta expressões tiradas do mesmo livro de Levítico, a que a locutora se refere.  Por exemplo, ali se dizia que o ser humano pode ter escravas – quer saber como e onde pode obtê-las.  Diz que é impuro o homem ter relação sexual com mulheres menstruadas – ele quer saber como tomar conhecimento do fato, se as mulheres, geralmente, não o saem dizendo.  Indaga da proibição de tocar a pele do porco morto – e ele alega que joga futebol americano, em que a bola é de couro de porco.  E vai por aí afora, questionando passagens do mesmo Levítico citado.

 

Não fica claro se a carta realmente existiu ou se o autor a construiu, pois Rubem Alves tem conhecimento suficiente de religião para ter extraído os fatos do livro sagrado e elaborado a ironia do texto.  Mas isso não importa.  O que vale é o questionamento de pretender-se usar a Bíblia como se tivesse sido inspirada e escrita por Deus, e não como sendo textos escritos por homens religiosos e bem-intencionados, que deixaram ali transparecer todos os valores e as crenças vigentes em sua época.

 

Fato semelhante ocorre com os fundamentalistas muçulmanos.  Também eles crêem que o Alcorão foi ditado por Deus diretamente a Maomé e que tudo o que está lá constitui a palavra divina.  Também nele não se deve mexer e nem interpretar.  Ora, escrito por homens, o texto se prende a uma determinada época histórica, com seus costumes, tradições, crenças, valores e sentimentos.  Pretender seguir o Alcorão, hoje, ao pé da letra, sem nenhuma tentativa de interpretação, é querer manter-se cego aos acontecimentos e à trajetória da História.  É claro que, ao intentar traduzir as expressões e as idéias, haverá diferentes interpretações, tanto da Bíblia quanto do Alcorão.  Mas isso demonstra que vivemos no seio de homens, de grupos, de uma pluralidade de sentimentos, crenças, regras e valores, e cada qual é convidado a refletir e a meditar, a fim de escolher sua própria linha de conduta.  E não dar uma resposta tola, como a da locutora norte-americana, porque isso consta na Bíblia!

 

Volto na quarta-feira.  Venha comigo!

margamourablogadora // rimatambémcomescritora




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