ACIDENTES DO TRABALHO

Quando eu trabalhava em empresa, na área de Recursos Humanos, gostava muito de me juntar ao pessoal da Segurança no Trabalho, que organizava a CIPA, a Comissão instituída por lei para os assuntos ligados à prevenção de acidentes.

 

Evitar os acidentes é um tema importante e merece toda a atenção possível.  Machucar-se no trabalho, ferir uma mão ou o braço numa máquina, perder a ponta de um dedo, são acidentes graves e precisam ser evitados. 

 

Prevenir acidente tem a ver tanto com as condições do ambiente de trabalho quanto com as atitudes dos trabalhadores.  Um piso cheio de buracos, uma cadeira colocada na porta da sala, uma gaveta do arquivo de aço que se esqueça aberta, uma poça d’água no meio do pátio, são motivos suficientes para a pessoa escorregar, tropeçar e cair.  A isso chamamos de condições inseguras do local.  Ao lado disso, as imprudências que cometemos diariamente têm a ver com os atos inseguros, como fazer de uma cadeira uma escada, usar uma faca em vez de uma chave de fenda ou jogar um cigarro aceso pela janela, comportamentos que geralmente conduzem ao acidente.

 

Mas há outras situações no ambiente de trabalho que são mais graves e conduzem às doenças profissionais, como trabalhar constantemente sob um ruído acima do permitido, ou num ambiente muito quente, ou, pelo contrário, numa sala gelada.  Submeter-se a odores desagradáveis muito fortes.  Lidar com materiais compostos de partículas finas, como o pó de talco, a areia ou a poeira, ao varrer.

 

A prevenção se dá de várias maneiras.  Após o levantamento dos riscos existentes no ambiente de trabalho, tentam-se eliminar as condições inseguras: melhora-se o piso, substitui-se o telhado cheio de cupins, consertam-se as máquinas com defeito.  Não se conseguindo eliminar os riscos, é preciso minimizá-los, o que se faz pondo uma proteção extra naquela máquina, colocando-se um carpete, quando for o caso, ou substituindo-se a janela por outra, anti-ruído. Outra forma de minimizar os efeitos das condições inseguras é municiar os trabalhadores de equipamentos de proteção individual, como luvas, máscaras, capacetes, botas, ou coletiva, como os extintores de incêndio, entre outros. Isso tudo se complementa com o treinamento aos empregados, para que aperfeiçoem seu desempenho profissional e previnam acidentes.

 

O acidente de trabalho não é uma calamidade, uma desgraça que vem de Deus.  É algo que se pode prever e do qual se pode prevenir.  É questão de mentalidade da empresa, do quanto ela prioriza e investe nessa área, e dos empregados.

 

Segunda-feira estarei de volta.  Venha comigo!

 

margamouraescritoraduradoura

O DIA DO CLÃ

 

Hoje faz 60 anos que meus avós celebraram suas Bodas de Ouro, rodeados de filhos, genros, noras e netos.  Com onze filhos já com suas famílias formadas, eles estavam rodeados de pessoas, de afeto, de alegrias e de muitas emoções.  A metade veio do interior e hospedou-se com parentes.  A outra metade já morava aqui na capital.

 

O dia foi todo de festas.  Missa, pela manhã, com o batizado de duas netas gêmeas recém-nascidas, almoço festivo, salgados e doces, na parte da tarde, e uma representação artística, à noite, organizada e realizada só pelos membros da família.  Cada clã tinha sido orientado a preparar um número, com seus filhos, e assim se fez.  Houve declamações, canto a capela, gente tocando instrumentos, pequenos corais, em meio a muitos aplausos.  Meu pai fez quadrinhas para cantarmos ao som de uma música muito em moda na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, que dizia: “Fi-rin-fin-fin, fi-rin-fin-fin, nossa família é toda assim” e neste “toda assim” fazia-se aquele gesto que enrola o dedo indicador em torno da orelha, para mostrar que éramos todos lelés da cuca.  As quadrinhas fizeram tamanho sucesso que até hoje, 60 anos depois, nós ainda fazemos versos com essa música, nas festas de aniversário.

 

Bem, se isso não bastasse, dez anos depois, em 1º de outubro de 1958, lá estávamos todos nós, a família bastante aumentada, para comemorar as Bodas de Diamantes dos avós, 60 anos de casados.  A essa altura eles já estavam mais velhos, mas nem por isso deixaram de aproveitar a festa, que começou com uma alvorada com banda de música, e prosseguiu o dia todo, mediante a missa, o almoço festivo e, à noite, uma representação.  Minha mãe compôs as músicas das partes principais da missa e organizou o coro, composto dos filhos dos meus avós. E ela também escreveu a peça de teatro, representada por filhos e netos do casal, à noite. Nos intervalos, o conjunto que animou o salão era composto apenas por netos, ao violão, ao piano, na bateria, no instrumento de sopro.  Não é de se estranhar: afinal, uma família tão grande, que crescia em progressão geométrica, tinha que dar músicos, artistas, cantores, compositores, é claro.

 

Hoje faz 60 anos das Bodas de Ouro e 50, das Bodas de Diamantes.  São essas vivências que compõem nossas vidas.  É dessas aproximações e das emoções que vivemos juntos que se constroem nossas lembranças, nossos amores, nosso bem-querer.  Tem sido muito bom pertencer a essa família grande, em que há de tudo, um pouco de briga, de maledicência, de ficar de mal, e muito de troca, de aproximação, gente que escreve, que pensa, que vai ao cinema, que curte o teatro, que viaja bastante – e tudo isso nos une e nos deixa contentes.

 

O Dia do Clã.  Tal como no passado, em que as tribos se reuniam e celebravam seus deuses e seus ícones, também nós comemoramos o nosso dia.  E temos orgulho disso.

 

Volto na sexta-feira.  Venha comigo!

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UM ÚNICO ATO

 

Teve dificuldade de abrir os olhos, estavam secos, grudados.  Esfregou-os, amaciou-os, acarinhou-os, abriu-os.  Foi voltando à consciência devagar, levantou-se, tateou os chinelos no escuro.  Resmungando, saiu de pijama do quarto.

 

Sentou-se na varanda, em sua cadeira predileta.  O sol não tinha conseguido rasgar as nuvens que o cobriam, mas ele se esforçava por aparecer no horizonte.  Tudo nublado, um amanhecer feio, cinzento, tanto quanto sua alma.  Ainda sonolento, mau humor evidente, evitava despertar.  Pôs-se a pensar na esposa, carinhosa, miúda, morena, olhos brilhantes, que tanto o ajudara a cruzar os momentos difíceis.

 

Lembrou-se da filha, quando era pequenina, e esboçou um sorriso, mas não era, era comiseração por si mesmo.  Viu-a engatinhando no chão da sala, lembrou-se de que acenava para ela quando saía para a escola e tornou a vê-la vestida de noiva, feliz, no dia do seu casamento.  Sacudiu o torpor que o invadia, resmungou, levantou a cabeça para as nuvens cinzentas, viu que o sol despontava, enfim, no horizonte.  Olhou para os chinelos, sentiu frio, pensou Preciso ir lá dentro buscar um agasalho, mas não se levantou.  Permaneceu ali, na esperança de que o frio acabasse de despertá-lo.

 

Tornou a pensar na esposa e deixou que seu pensamento vagasse em torno do filho jovem que perdera.  Não, aquela lembrança doía muito, melhor voltar a lembrar-se da esposa.  Pobre esposa!  Que fim horrível tivera nas mãos daquele homem!  Apaixonar-se por um desconhecido e deixar a família, aos quarenta anos!  Quem poderia acreditar nisso?

 

Bocejou, resmungou, sentiu frio, tentou proteger-se.  Doía-lhe o peito, as nuvens voltaram, o dia era feio como seu coração.  Desgostoso, resolveu despertar de vez.  Iria entrar e fazer um café.  Isso!  O café lhe daria forças para o que tinha pela frente.  Afinal, matara um homem, naquela madrugada.

 

 

margamouraescritoraduradoura

 

Volto na quarta-feira.  Venha comigo!

 




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