LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Deu no jornal “El País”, no UOL, ontem, que um blogueiro jovem de Marrocos foi preso pelo que escreveu em seu blog.

 

Em Marrocos, reina o rei Mohamed 6º, que tem fama de sair entre a população, distribuindo benesses a seu bel-prazer.  Recentemente, ele teria premiado um guarda de trânsito com uma licença para dirigir um táxi, pela “badalada” que o guarda lhe deu, quando o monarcai falou com ele, na rua, enquanto dirigia seu próprio carro, acompanhado do filho de 5 anos.

 

Mohamed Errail, um jovem de 32 anos, residente em Agadir, escreveu em seu blog que o rei não tem o direito de proceder assim: "O rei não pode conceder essas dádivas (...) sem controle nem supervisão, a qualquer um que o elogie.  Assim se cria um exército de cortesãos que, em vez de ganhar a vida com o suor da testa, o faz proclamando elogios pouco verossímeis. Não precisamos de alguém que tenha piedade de nós, mas que garanta a distribuição eqüitativa da riqueza".

 

Essas palavras, que tudo indica que sejam verdadeiras e adequadas à situação em Marrocos, foram suficientes para que Mohamed Errail fosse conduzido à prisão, interrogado durante horas, enquanto sua residência era revistada e seus livros, apreendidos, e conduzido no terceiro dia a uma cela pequena, com presos comuns, em meio a ratos, sujeira e “odores pestilentos”.  Depois disso, foi condenado a dois anos de prisão e a uma multa de 400 euros, por “faltar ao respeito com o rei”.   O julgamento durou cinco minutos e o culpado não pôde ter um advogado.

 

Que o salvou dessa situação foi a mobilização da sociedade civil marroquina, que denunciou o atropelo à liberdade de expressão e reproduziu a escrita de Errail em dezenas de sites.  A Justiça recuou, o blogueiro foi libertado e outro tribunal se pronunciará sobre o recurso apresentado por seus advogados, agora numerosos, provavelmente com uma sentença mais branda.

 

Apesar de tudo, Erraji diz que não hesitaria em reescrever seu artigo. "Não fiz nada de mal, não insultei ninguém", insiste. "De toda essa história aprendi uma coisa: a liberdade de expressão ainda não está garantida."

 

Que loucura, hein!?  Se prendem e arrebentam por tão pouco, que dirá quando for uma coisa grave, de verdade!

 

Voltarei na segunda-feira.  Venha comigo!

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

O ARTISTA ESCRITOR

É incrível como há determinados escritores que sabem realmente escrever.  Digo isso porque não são todos.  Há muita coisa escrita, muito livro impresso, muito artigo em revista, mas nem todos eles têm aquele toque espetacular, aquele algo a mais, que nos deixa impressionados.

 

Estão na moda os escritores com nomes impronunciáveis, daqueles que juntam três ou quatro consoantes no nome e a gente não consegue falar direito.  É porque há toda uma onda de escritores orientais inundando nossas prateleiras, nas livrarias.  E coisas muito boas.  Markus Zusak está entre os primeiros, com A Menina que Roubava Livros e Eu sou o mensageiro, que dizem que são muito bons.  E Sándor Márai é outro.

 

Ontem, eu folheava a contra-capa de um livro seu, na Livraria Cultura, e fiquei extasiada com o modo como ele resumiu em um parágrafo o que rolou entre duas pessoas:

 

“Viveram lado a lado desde o primeiro instante, como gêmeos no útero materno.  Não precisaram fazer pactos de amizade, como costumam fazer os garotos dessa idade que se lançam com paixão e ostentação a rituais ridículos e solenes, dessa forma inconsciente e grotesca com que o desejo se manifesta entre os homens, quando decidem pela primeira vez arrancar do resto do mundo o corpo e a alma de outra pessoa para possuí-la com exclusividade.  O sentido do amor e da amizade estava ali.  A amizade deles era série e silenciosa como todos os grandes sentimentos destinados a durar uma vida inteira.  E como todos  os grandes sentimentos, também continha certa dose de pudor e de culpa.  Ninguém pode se apropriar impunemente de uma pessoa, subtraindo-a de todas as outras.”

 

Meu Deus!  Que forma linda de falar desse sentimento entre duas pessoas, desse misto de amor e de amizade, sem nos deixar perceber se fala do amor entre dois rapazes ou entre um rapaz e uma moça.  O livro é As brasas, de Sándor Márai, publicado pela Companhia das Letras, em 1999. O húngaro Sándor nasceu em 1900, escreveu bastante, fez sucesso na Hungria, de onde saiu em 1948.  Depois de passar por Suíça, Itália e França, fixou residência em San Diego, na Califórnia.  Aí mesmo, dez anos depois, suicidou-se com um tiro de revólver.

 

No meu último romance, criei a amizade entre duas garotinhas, desde meninas, que crescem e mantêm a convivência.  Sinto que esse parágrafo expressa tudo o que eu senti quando escrevi a história e como essa redação se encaixaria no meu livro.  Se eu pudesse pelo menos colocar esse parágrafo, só esse, no meu romance!

 

Sexta-feira tem mais.  Até lá!

margamouraegypto // rima mal com eu existo

O OUTRO 11 DE SETEMBRO

11 de setembro, de novo.  Sete anos do ataque terrorista às Torres Gêmeas, em Nova York. Mas houve outro 11 de setembro, de que a gente quase não se lembra: em Santiago do Chile, em 1973.  11 de setembro sangrento, o palácio de la Moneda devassado pelas forças armadas, bombardeado do alto, atacado nos flancos. O presidente Salvador Allende, eleito pelo voto popular, em 1970, mantinha-se lá dentro e disse que só sairia morto.  Quando percebeu que a entrada do exército era iminente, suicidou-se com um tiro na boca.  Foi levado na mesma noite, sem anúncios e nem cerimônia, num primitivo avião a hélice da Força Aérea, acompanhado apenas por sua esposa, Hortensia Bussi, e sua irmã, Laura, para ser enterrado em Valparaíso.

 

Quem narra esses detalhes é Miguel Littín, que entrou clandestinamente no Chile, em 1985, e conseguiu produzir mais de sete mil metros de filmes, com a ajuda de equipes que ele mesmo providenciara. O resultado foi um documentário de quatro horas para a televisão e outras duas, para o cinema. O documentário se chama Ata Geral do Chile.

 

Quem escreveu o livro foi Gabriel García Márquez e para aqueles que se interessam pelo Chile, tanto antes quanto depois de 1970, o livro é um relato muito interessante de um país que tanto sofreu sob a ditadura de Pinochet. 

 

Eu sempre me interessei pela história do Chile e acompanhei à distância os acontecimentos infaustos daquele 11 de setembro de 1973.  Mas depois que assisti à série de filmes feitos por Patrício Guzmán, revelando muito sobre o último ano de vida de Allende, as atividades políticas no país, a reação dos trabalhadores e sua solidariedade face à pobreza e aos bloqueios impostos pelos empresários, e a sanha das classes média e alta, fiquei muito comovida pelo sofrimento daquele país.  E é por isso que a leitura de García Márquez, relatando-nos como Miguel Littín entrou clandestino no Chile e foi filmar dentro do palácio de La Moneda, a dois passos de Pinochet, é um relato fascinante.

 

Foram dois 11 de setembro, em duas terças-feiras.  Mas a forma como aconteceu cada um, os países em que se deram e o número de pessoas que cada um envolveu, fazem com que seus significados passem para a História com pesos muito diferentes, maior o dos Estados Unidos do que o do Chile.  O que é uma injustiça.

 

                                                      * * * * * * * * * * * * *

 

Meu amigo Toni, operado, outro dia, passou muito bem, recuperou-se e voltou ao trabalho.  É isso aí, Toni!  Nosso grande abraço a você!

  

 

De volta na próxima 4ª. feira.  Venha comigo!

margamourablogadora // rimatambémcomescritora




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