Analfabetismo financeiro e muçulmanos

 

 

Um artigo no Freakonomics do Uol, de 29 de julho último, chamava a atenção para nossa ignorância em matéria de assuntos financeiros, que Anna Maria Lusardi chamou de analfabetismo financeiro.  Devíamos ser informados, no banco escolar, a respeito de débito e crédito, como um cartão de crédito realmente funciona, quais as conseqüências da alta de juros, como economizar e investir mesmo quando se pensa que não se pode – e coisas por estilo.

 

Estou de pleno acordo.  O currículo do Ensino Fundamental é baseado em pressupostos estabelecidos num passado remoto e as cabeças das crianças se enchem de noções hoje desnecessárias, quando deveriam estar aprendendo coisas bem mais relacionadas com seu dia-a-dia.  Orientação sexual, por exemplo, é uma condição de sobrevivência.  É preciso conhecer o próprio corpo, saber como se processam os mecanismos básicos da reprodução humana, como distinguir os períodos em que a mulher está fértil, como evitar uma gravidez indesejada.  A menina de 15 ou 18 anos que hoje engravida sem ter programado passa por maus bocados, tem sua vida mudada completamente, da noite para o dia.  E, ou faz um aborto, o que é sempre uma violentação de si, de seu corpo, de seu estado psicológico, arriscando a própria vida numa operação insegura, ou tem a criança e passa a cuidar dela, adiando para não sei que futuro seus desejos e ilusões.  Noções básicas de biologia, saber interpretar os resultados de um exame de sangue, distinguir os glóbulos brancos dos vermelhos; quanta coisa útil, necessária, do dia-a-dia, nós precisaríamos saber e ignoramos.

 

Há tempos eu gostaria de pesquisar e escrever sobre os muçulmanos.  Esses árabes que se converteram ao Islã no século VII, depois que Maomé recebeu a palavra de Deus e se tornou seu Profeta, foram redescobertos naquele dia fatídico de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, quando as Torres Gêmeas vieram ao solo, fruto de um ataque terrorista.  Pouco se falava sobre o Islã e muito se passou a falar depois daquilo.  Notei, então, que essa história bonita, de amor e de tragédia, de entrega a Deus, de guerras, cuja religião se encheu de fanatismo, não é estudada em nossas escolas e pouca gente se interessa em saber o que acontece no Oriente Médio, na Ásia, na África, em que os muçulmanos vêm cada vez mais conquistando adeptos, deixando a Europa completamente insegura quanto à melhor forma de lidar com eles.

 

O que têm em comum o analfabetismo financeiro e os muçulmanos?  Dois exemplos de campos de estudo, cuja importância nossas escolas primária e secundária fingem ignorar, insistindo no ensinamento do seno, do cosseno, da tangente, do cateto e da hipotenusa, conhecimento que só interessa aos realmente aficionados. A mudança cabe a quem: ao Ministério da Educação, aos Conselhos Estaduais de Educação, à sociedade civil que não empunha essa bandeira?

 

Na próxima segunda-feira estarei de volta.  Até lá!

margamouraqueéblogueira // nãoestáprabrincadeira

VOCÊ LIDA BEM ...

com o amor?

 

Talvez tivéssemos que iniciar pela definição de amor.  Pelo senso comum, amar é gostar do outro, é querer-lhe bem, é agir com a intenção de fazer o outro feliz, sem que isso signifique a anulação de si mesmo ou subserviência.  Há o amor filial, fraternal, entre colegas; há a relação amorosa, que inclui a relação sexual. Há a dedicação da vida a uma causa, dispondo-se as pessoas até a morrer por ela. Enfim, há muitos modos diferentes de as pessoas se relacionarem entre si, com emoções, desejos, fantasias, idealizações, sentimentos fortes, paixão, camaradagem, narcisismo, que seria difícil relacional aqui.  Mas o amor é uma troca.  Lembra-se do “macaco que só coça as costas de quem coça as suas”?

 

Juan Arias, jornalista e escritor espanhol, entrevistou José Saramago em sua casa, em Lanzarote, nas ilhas Canárias, Espanha, em 1998, pouco antes de Saramago ser homenageado com o Prêmio Nobel de Literatura.  Essas conversas se converteram em livro, que saiu publicado no Brasil pela Manati, no Rio de Janeiro, em 2003: José Saramago: O amor possível. 

 

Para Saramago, o amor é possível, apesar de vivermos num mundo cheio de turbulências, em que a crueldade humana é, na opinião do escritor, a coisa mais difícil de se perdoar.  “Vivemos para dizer quem somos”.  Se é verdade que sempre queremos conhecer cada vez melhor as pessoas, é natural que também nós queiramos nos dar a conhecer.  Passar ao largo do mundo e dos fatos e isolar-se parece um modo pobre de viver.  Saramago fala sobre Deus com mais freqüência do que os outros escritores, embora não acredite em Deus.  Diz-se ateu, mas reconhece que Deus existe para as pessoas e respeita isso, que Deus está nas coisas que as pessoas contam.  E vai por aí o livro, gostoso de ler, a troca de idéias na sala de visitas de Saramago, em Lanzarote.  Na Nota da Edição Brasileira, Juan Arias conta que o livro saiu na Espanha com um erro, típico ato falho: El Amor Imposible era o título. Ironizando o ocorrido, Saramago perguntou: “Depois o pessimista sou eu?”

 

Para mim, também, o amor é possível. E pode ser desinteressado? Essas diferentes formas de aproximação entre as pessoas são puras, espontâneas, desprendidas, ou, no fundo, há sempre um interesse de cada um em receber alguma coisa do outro?  Não acredito no desprendimento puro, principalmente quando me lembro do vasto porão de inconsciente que temos em nossas casas.  O amor é uma troca e, como tal, é um dar e receber constante.  Amar, para mim, é ter prazer na relação.  E você só pode sentir prazer se a relação for uma coisa gostosa, amigável, de aceitação, mesmo quando passamos por momentos difíceis, de confrontação.

 

E para você, o que é o amor? É ele possível?  É desinteressado?

 

Estarei de volta na 6ª. feira.  Venha comigo!

blogqueéquasediário // témerececomentário

VOCÊ LIDA BEM COM....

a intolerância?

 

Neste fim de semana fiquei muito preocupada com as notícias internacionais que revelam uma intolerância e um fanatismo muito grandes. Começou com um artigo de Isabelle Mandraud, no Le Monde (Uol), de que os ecoterroristas estão com a corda toda, atacando empresas que mantêm animais em cativeiro, para testes. A vítima recente foi o laboratório Charles River, na França, filial de um grupo norte-americano.  Ali, os militantes puseram fogo em três veículos utilitários, deixaram queimar uma parte da estrutura do edifício e apuseram sua assinatura ALF = Frente de Liberação dos Animais. Mas esse é apenas um exemplo. Cerca de 40 empresas e 32 associações estarão reunidas hoje, em Bruxelas, com representantes da Europol, para tratar desses ataques, que têm ocorrido recentemente em toda a Europa. Eu até acho que você pode ser um militante da causa em prol da libertação dos animais, porém, atos como esses demonstram uma intolerância muito grande e um fanatismo sem limites.  É ser muito dono da verdade.

 
No Der Spiegel (Uol), li que os neonazistas usam sites da Internet para ameaçar seus oponentes. O texto é de 23 de julho, de autoria de Guido Kleinhubbert, e fala da ação dos grupos de direita, que saem em perseguição aos homens e mulheres que manifestam atitudes mais à esquerda ou pretendem controlar esses grupos neonazistas.   Um dos exemplos do artigo dá conta de que um juiz, que condenou um membro do Partido Nacional Democrático da extrema direita a pagar uma alta multa, foi atingido duramente: os neonazistas publicaram seu endereço em um site, revelaram quantos filhos tinha e afirmaram que alguns de seus leitores "adorariam a oportunidade de matar um juiz ou um promotor público no campo".  E acrescenta que “os sites de Nuremberg estão no servidor do negociante de itens nazistas Gary Lauck, que mora nos EUA, o que o coloca fora do alcance das autoridades alemãs”.

 

Por último, li no Uol, em Últimas Notícias, de 26 de julho, que há um partido islâmico do Turquistão prometendo afetar a Olimpíada de Pequim com atentados terroristas.  E hoje a notícia está na Folha de São Paulo: “Ameaça Terrorista: um grupo separatista muçulmano assumiu a autoria do atentado a ônibus que matou duas pessoas no sudoeste da China, na semana passada, além de ameaçar voltar a praticar ataques durante os Jogos. O Movimento Islâmico do Turquestão do Leste já vinha sendo monitorado pelos chineses”.

 

A intolerância é crescente e preocupa.  No plano individual, exigimos mudanças dos outros e reclamamos muito, quando nossas diferenças psicológicas, políticas, étnicas, religiosas, esbarram umas nas outras.  Lidamos mal com a compreensão do outro e com o perdão.  Que dirá quando se trata de grupos organizados e poderosos, que se julgam donos da verdade?

 

Tudo isso num fim de semana em que a seleção de vôlei do Bernardinho foi batida duas vezes.  Agora, fico na dúvida: desisto de ler os jornais ou desisto de torcer para a Seleção?

 

Volto na quarta-feira próxima.  Venha comigo!

margamourablogadora // rimatambémcomescritora




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