QUANDO EU FIZER 75 ANOS

À minha irmã mais velha, que hoje faz 75 anos.

 

Quando eu fizer 75 anos, quero sentir o perfume da terra molhada, quero a dama da noite com a corda toda, quero o cheiro dos eucaliptos bem perto de mim.

 

Quando eu fizer 75 anos, quero que os passarinhos façam uma grande algazarra, logo às 6 da manhã, embaixo da minha janela.

 

Quando eu fizer 75 anos, quero abraçar aquele jatobá bonito, antigo, pelo qual o pessoal de Santa Rita do Passa Quatro vela, para que não morra.

 

Quando eu fizer 75 anos, quero ir até o mar, ver o mar, ver a onda que vem correndo, desabalada, você jura que vai passar por cima de você e, no entanto, ele cai pequena e se esparrama pela praia.

 

Quando eu fizer 75 anos, quero voar de helicóptero e subir bem alto, bem alto, para imitar os pássaros que voam bastante e planam com as asas abertas, como se fossem um desses aviõezinhos de madeira que a gente constrói em casa.  E, lá de cima, vou torcer para passar por mim uma águia Harpia, linda, grandona, ai! que medo!

 

Quando eu fizer 75 anos, vou querer escrever que nem a Marina Colasanti, umas crônicas lindas, soltas, meio sem enredo, que encantam a gente.

 

Quando eu fizer 75 anos, quero passar a mão no violão e cantar, cantar bastante, a voz bem solta, a plenos pulmões, para mostrar como eu gosto da vida e o quanto sou grata por tudo o que recebi e construí.

 

Quando eu fizer 75 anos, vou querer alfabetizar uma criança, eu que só eduquei adolescentes e adultos, ao longo da vida, porque alfabetizar uma criança é lhe dar essa riqueza imensa que é ter acesso aos livros.

 

Quando eu fizer 75 anos, quero viver num país tão bom como este em que vivo hoje, em que a gente tem de tudo, miséria, riqueza, engenho e arte, ignorância e solidão, mas muita coisa boa para comemorar, muita gente gostosa para conviver, muita gente ilustrada para se aprender com ela, uma terra bonita, ampla, com uma imensidão de praia, de terras para cultivar, de muitos passarinhos, uma fauna incrível, uma flora belíssima, e poder dizer bem alto: Não há no mundo um país melhor do que o nosso.

 

E neste dia, Virgínia, quando eu fizer 75 anos, quero ter você ao meu lado, para cantarmos as canções bonitas que você me ensinou e tocar o violão que você me ensinou a dedilhar e acolher e rezar pelos doentes do modo como só você sabe fazer.

Um grande abraço,

margamouraescritouraduradoura

SAUDAÇÕES

Olá, Dedeka,

Que bom que você visitou meu blog.  É muito divertido escrever neste espaço crônicas, contos, conversas, coisas que a gente leu e aprendeu. É delicioso!

Olá, Rosa Maria,

Bem-vinda ao blog.  Nossa viagem foi maravilhosa e passou num instante, graças aos ensinamentos seus, do Lincoln e da Celua.  Um beijo,

margamoura

À ROSA MARIA

Ontem viajei com a Rosa Maria, uma professora de inglês que pesquisa sobre os pássaros do Brasil.  É incrível o número de passarinhos que ela conhece.  Além de apreciar seu canto, ela consegue assobiar como é que alguns passarinhos cantam.  Fiquei apreciando.  Estava também o Lincoln, que entende bastante do assunto, de modo que cada qual ficou se lembrando de mais pássaros e tentando distinguir uns dos outros.  Por exemplo, a rolinha se distingue da juriti, embora ambas sejam parecidas.  Já o fogo-apagou é um outro tipo de rolinha.

 

Lincoln disse que no parque do Ibirapuera há muitas aves, algumas delas soltas e passeando, para gozo dos visitantes, como o mutum.  Há dois pássaros cardeais, com o pescoço vermelho, que podem ser vistos sempre na mesma região.  Falaram de como o joão-de-barro constrói seu ninho, do pica-pau que pode ser visto não sei onde, do flamingo, da cegonha que não temos, da águia Harpia, que é linda de brava, do sanhaço, que é todo azul, do sabiá-laranjeira, que tem um canto lindo e do filhote de bem-te-vi, pequenino, quando acaba de nascer.  Falamos do tucano, que é um bichinho lindo.  O tico-tico e o pardal, que são os mais comuns, nem tiveram espaço na conversa.

 

Depois, Rosa Maria passou a falar sobre o ciclo de vinte-e-um-dias em que a galinha dá à luz, quer dizer, choca seus ovos.  Primeiro, ela fica 48 horas sobre eles.  Depois, a cada dia, sai por 20 minutos, para comer e fazer suas necessidades e “esfriar” os ovos.  Quando volta para o ninho, para uma nova série de 24 horas, ela rola cada ovo, faz com que rolem sobre si mesmos, mudando-os de posição.  E assim ela vai, até que nasçam os pintinhos.  Pois a chocadeira elétrica, que imita e substitui a galinha, faz igualzinho, desligando-se por 20 minutos, a cada 24 horas, para “esfriar” os ovos.

 

É uma pena que a Melhoramentos não edite mais o baralho de quarteto de aves, que ela fazia, nos anos 40 e 50, quarenta e oito fotos de aves, cada uma mais linda do que a outra.  E a gente aprendia muito, vendo aqueles pássaros bonitos, coloridos, nem todos ao alcance de nossas vistas.  Havia o de flores, os escritores e poetas e o de compositores de música clássica.

 

Fiquei encantada com essa conversa sobre aves, que a gente raramente tem, quando numa roda social.  Confesso que sempre achei as aves bonitas, mas nunca tive a chance de exercitar minhas habilidades de pesquisadora em relação a elas.  Gostei muito da conversa que, além de produtiva, tornou nossa viagem mais gostosa.  Chegamos num instante em São Paulo!

 

Obrigada, amigos, pelos conhecimentos.  Vivendo e aprendendo.

 

Um grande abraço.  Quarta-feira tem mais.

 

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