Todas as famílias têm suas expressões peculiares, que passam de pai para filho e são incorporadas, constituindo-se na cultura daquele clã familiar. Também nós temos as nossas, que são muito interessantes.
Um fazendeiro recebeu o empregado novo e mandou ordenhá-lo a vaca. Deu-lhe, para isso, um balde e um banquinho. Muitas horas depois, veio o empregado com o leite. E aí, como é que foi? Por que demorou tanto? Ah! senhor, foi duro fazer a vaca sentar no banquinho!
O rapaz saiu de casa para comprar um remédio na farmácia e nunca que voltava. A mãe, aflita, achando que tinha acontecido alguma coisa, chega o rapaz, todo despreocupado: Mas o que foi que aconteceu? Ora, mãe, encontrei o Sandoval, a senhora sabe como é, pegamos na prosa...
O menino estava chorando muito, no colo da mãe, e não se sabia por que chorava. Cansada, depois de atendê-lo em tudo o que podia, perguntou-lhe: E agora, o que é que você quer? A fola da Santa. Na igreja, a folha dos ramos que enfeitavam a imagem de Nossa Senhora.
O menino era o Nicolau, apelido Lau. Tudo era para ele, só ele decidia, se não estivesse satisfeito, recolhia a bola de futebol e naquele dia ninguém mais jogava. E o outro era tratado exclusivamente de Tesouro, pela avó, que mimava o garoto a mais não poder. Tesoro mío era o que se ouvia pela casa, o dia todo.
A madrasta de meu avô, no final do século XIX, teve muitos filhos e, quando não os queria perto dela dizia: Menino, vai ver um pouco. Também eram dela outras expressões, como Menino, tira a mão da ilharga ou, ainda, Eu mato um hoje! frases que, imitadas com o sotaque português pela minha mãe, eram impagáveis.
É por isso que até hoje dizemos que a criança egoísta é o Lau, o Lauzinho, ou medimos os ciúmes e a competição dentro de casa pelos filhos tesourinhos da mamãe. Ou quando alguém não quer nada a sério, mas só amolar, dizemos que quer a folha da Santa. Se nos perdemos no meio do caminho pomos a culpa no Sandoval e sempre que nos defrontamos com uma dificuldade dizemos que o duro foi fazer a vaca sentar no banquinho, expressões muito nossas, açucaradas, daquelas que só nós mesmos entendemos. É muito divertido. Quando um bolo não saiu do gosto, dizemos que ficou chamarçã, adjetivo inventado pela babá negra da família, ou o melão está desabrido, expressão extraída do castelhano de uma pessoa muito amiga. E, se estivermos a ponto de perder a paciência com o outro, só falando como a portuguesa: E’ mato um hoje!
Segunda-feira tem mais. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Talvez você não goste de tênis ou simplesmente não esteja acostumado a vê-lo, na televisão. Talvez você goste muito, como eu, que nunca pus a mão em uma raquete. Mas acostumei-me a ver pela televisão e conheço praticamente cada jogador e jogadora do circuito internacional.
Mas meu interesse, hoje, não é tanto falar sobre o jogo de tênis, em si, mas da necessidade de garra que o acompanha. É incrível como o jogo de tênis, por ser individual, escancara as reações emocionais de cada tenista. Os adversários iniciam a disputa geralmente muito concentrados e mantêm-se assim enquanto sua motivação permanece alta, for grande sua convicção de que vencerá aquele set, for elevada sua auto-estima. No momento em que se inicia o revés, em que o adversário faz mais pontos, podem-se dar várias situações: o que está perdendo começa a se desanimar, o que, automaticamente, põe o adversário mais alto ainda; o que está perdendo entrega aquele set e espera ter mais sorte no próximo; ou o que está perdendo se enche de brio, levanta a cabeça, estufa o peito e vai para cima do adversário, disposto a lhe mostrar quem de fato será o vencedor. Porém, em situações em que um set tenha sido muito disputado, taco a taco, aquele que perde tende a se desanimar de um modo irreversível e você já sabe que dificilmente ele se levantará. Nada como um ponto ou um set muito disputado para projetar o vencedor e derrubar o perdedor.
E é por isso que eu entendo que esses jogadores profissionais, homens e mulheres, deveriam sempre buscar um apoio psicológico em seus treinamentos, não se contentando apenas com o preparo físico e técnico. É muito bom saber jogar bem, mas, acima de tudo, é necessário trabalhar a cabeça e ter garra. Pois é disso que quero passar a falar agora.
Ontem, assisti à disputa entre Dementieva e Safina, duas russas, no Torneio de Roland Garros. Dementieva, muito bonita, elegante, porte aristocrático; Safina, rosto bolachudo, cara de camponesa russa. Primeiro set, vence Dementieva, por muito pouco. Começa o segundo e quando se pensa que Safina irá para cima da outra, Dementieva abre uma vantagem de dois a zero. O set caminha e Dementieva chega a 5 a 2, é ela que está sacando, tem tudo para encerrar a partida, chega a ter um “match point”, quer dizer, a vitória está para ela por um fio. E Safina arranca lá de detrás e destrói, ponto por ponto, tudo o que
Dementieva havia construído. É demolidora. Anula um a um o castelo de cartas e o derruba por inteiro. Garra, consistência, concentração ao extremo, desejo de vencer – mas, sobretudo, muita capacidade técnica, porque só a garra não lhe seria suficiente. Que linda partida, que bela vitória! De quanto tempo Dementieva precisará para se recompor dessa derrota?
Minha maior mágoa: vou aos comentários do Uol, hoje de manhã, e não encontro uma palavra de elogio para todo o trabalho de construção de Safina. Essa mídia é demais!
Na próxima sexta-feira estarei de volta. Venha comigo!
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