O que para uma mulher que vive na Índia é objeto de um sacrifício, uma oferenda aos deuses, no ocidente se torna motivo de cobiça. O que a mulher faz, de modo despojado e sem receber um tostão, é vendido a peso de ouro para mulheres que, por outros motivos, querem aquele material de que a oriental se despojou. Valores totalmente diferentes, crenças opostas, despojamento versus vaidade, o ocidente se aproveita daquilo de que o oriente abre mão. Estamos falando do corte de cabelos, de homens e mulheres.
Deu no Der Spiegel, traduzido no Uol, em 04 de março. Uma mulher chamada Manibhen Yashwanthpur, num dia úmido, no Estado de Karnataka, no sul da Índia, acordou cedo e foi, com o marido e os dois filhos, cortar seus cabelos longos e de um castanho escuro, numa homenagem ao Senhor Venkateshwara. Ela implorara a ele, em orações, que livrasse seu marido do alcoolismo – e, como faz um mês que o marido não bebe, ela considerou isso como um milagre concedido e foi dar-lhe seus cabelos em oferenda.
Os templos hindus, que por tradição sempre receberam esses oferecimentos na forma de cabelos das mulheres, agora estão vendendo essa mercadoria ao ocidente, onde mulheres famosas, como Angelina Jolie, entre outras, adotaram a moda de usar cabelos estendidos. Ter esse luxo não é barato, mas uma alemã , em Munique, economizou mil euros de gorjetas, para ter essa regalia. No passado, o cabelo que as mulheres indianas ofereciam aos deuses era usado para produzir filtros de óleo e encher colchões, mas tudo mudou desde que as extensões entraram na moda.
Aqueles que sacrificam seu cabelo estão dando aos deuses um pedaço de si mesmos. Porém, depois, os cabelos serão preparados, lubrificados, trabalhados, antes de serem vendidos. Cortar os cabelos, no ritual ancestral hindu, é despojar-se da vaidade. Manibhen não recebe compensação por sua oferenda. "Isto é uma tradição, não é um negócio", diz o administrador do templo. Após o ritual, ela se lavará, vestirá seu sari laranja limpo e rezará para que seus filhos recebam uma boa educação. Na cabeça raspada, colocará um lenço.
O jornal lançou o artigo em duas etapas. Na segunda, ele narra como a competição nesse comércio de cabelos se tornou feroz, como os templos fazem para administrar esse dinheiro das vendas que entra – e dá exemplos de vendas ilegais de cabelos de homens e mulheres no mundo todo. É incrível como se pode comerciar qualquer coisa, qualquer objeto, os órgãos humanos, os cabelos de homens e mulheres. Tudo se torna motivo de cobiça e tem um preço. E que preço!
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Ei, Gigi,
Obrigada pela força! Um abraço,
margamourablogadora
Fui ler o capítulo dois do livro “A Loucura de Churchill”, de Chirstopher Catherwood, conforme havia anunciado aqui no blog, e me confundiu mais ainda a cabeça. Embora eu já tivesse lido um bocado sobre este assunto do Oriente Médio, o autor contou umas coisas que eu desconhecia.
Não dá para reproduzir aqui o emaranhado de idas e vindas e de acordos, secretos ou dados à luz, entre a França, a Grã Bretanha e a Rússia, de um lado, e a Alemanha, de outro, a quem se junta o Império Otomano, formando-se, assim, duas frentes de nações armadas, na Primeira Guerra Mundial, cada qual com seus interesses particulares, a França, a Grã Bretanha e a Rússia com interesses capitalistas, colonialistas, de olho na derrota e fracionamento do Império Otomano – e a Alemanha, interessada em sair vencedora.
Uma das coisas interessantes que o autor relata é que a história de T.E. Lawrence, nossa conhecida, mediante o filme Lawrence da Arábia, que se baseou no livro que ele mesmo escreveu, Os Sete Pilares da Sabedoria, não é totalmente verdadeira. Embora Lawrence tenha dito no livro que relata os fatos como aconteceram, Catherwood se baseia nos depoimentos de vários historiadores para dizer que muito daquilo tudo foi falseado, principalmente a noção de que os árabes foram traídos – “Lawrence traído, Faiçal traído e, em conseqüência, toda a nobre raça árabe traída com eles; todo aquele heroísmo dos revoltados do deserto transformado em poeira e cinzas nas mãos de ocidentais inescrupulosos, conspirando por trás de bravos guerreiros que desejavam apenas a liberdade”. A verdade é que pode ter havido traição, mas os árabes não foram tão inocentes quanto se pensa.
Numa tentativa de resumo, havia o rei Hassein, xarife de Meca, e seus dois filhos, Faiçal e Abdulá, parceiros da Grã Bretanha, que governava a Índia e queria evitar qualquer tipo de transtorno àquele país. O império otomano, de turcos muçulmanos que, a partir de 1910, vinham se tornando mais turcos do que muçulmanos, se alia à Alemanha. Estoura a guerra e cada qual assume seus partidos. Mas os árabes de Hassein iniciam, em 1917, uma Revolução Árabe, contra os alemães e os otomanos. A maioria árabe não vem com eles e o movimento fracassa. A França, como sempre, interessada nas terras da Síria. Em 1917, a revolução russa derruba o Czar e, em 1918, a Rússia se retira da guerra. Os Estados Unidos entram em cena, em 1917, e ajudam a Grã Bretanha e a França a vencerem a guerra contra a Alemanha. O império otomano, já esfacelado, caminha para seu final e a Turquia, pelas mãos de Kemal Ataturk, em 1924, torna-se um país independente. A França ia ficar com um território em que havia petróleo, mas a Grã Bretanha assume o controle do Oriente Médio e da Palestina.
Há muito mais por ser dito. O autor refere-se a Sykes e Picot e à Declaração de Balfour, em 1917, porém, não diz o que foram, mas que eu precisarei dizê-lo, se quiser continuar com um relato consistente. Portanto, estarei de volta na próxima segunda-feira. Me aguarde!
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