CURTO CONTO CURTO

De repente, ele pressentiu que ia morrer.  Ali, caminhando na rua, sozinho, ele ia morrer.  Que pena, que raiva, que angústia!  O mal-estar começou no coração e espalhou-se pelas pernas abaixo.  Ele encostou-se à parede, uma senhora passou, um rapaz o viu, um homem lhe perguntou se não se sentia bem.  Sim, arfou ele, você pode me ajudar?  O homem botou-o num táxi e rumaram para o primeiro pronto-socorro de que se lembraram.

 

Mas ele foi piorando.  Já era mais do que um simples mal-estar, era a certeza da morte.  Era a Magra, que o chamava e o convidava a despedir-se deste mundo.  Pensou em sua mãe, que já morrera. Pensou em sua esposa, de quem se afastara havia vários anos.  Lembrou-se das irmãs e ainda conseguiu um sorriso esgarçado de ternura. Pensou na cervejinha gelada que nunca mais tomaria. Sentiu remorso por ter gritado com seu pai.  Eram os últimos pensamentos. Relutante, foi estendendo a mão à Magra, mas não conseguiu sorrir-lhe.  Doía, doía muito.  Doía-lhe o peito, doía-lhe a alma, doía-lhe o pressentimento de que era o fim.

 

Estamos chegando, disse-lhe o homem que o socorria.  Mas ele já se fora.  No pronto-socorro, o homem pagou o táxi e deixou o corpo inerte entregue à própria sorte.

 

margamourablogadora // rimatambémcomescritora

 

DE PALESTINA, MORALISMO E ÓDIOS

Olá, Cleide,

Os assuntos aqui no blog parece que têm um fio condutor, mesmo quando eu não os esteja percebendo.  No fundo, estamos falando de como as pessoas se relacionam entre si, em grupos pequenos, em grupos maiores e em grupos grandes.  Em vez de caminharem para uma compreensão e um entendimento mútuo, que tornem suas vidas mais felizes e preparem um caminho melhor para seus filhos, preferem digladiar-se entre si, exalar um ódio recíproco, ditar de cátedra o que os outros devem fazer e como devem se comportar.  E tudo isso para quê?  E por quê?  Para ganhar o céu -- ou para ganhar a própria terra, em termos de patrimônio, status, dinheiro, riquezas?

Até o dia da Palestina 3.  Um abraço,

margamourablogadora

AS CRENÇAS QUE SE EXPLICITAM

Deu no Le Monde, em 09 de fevereiro último.  Marcel Kalmann, um americano de 64 anos, afirma não ter sido atendido num café-restaurante na cidade flamenga de Bruges porque estava usando um solidéu. “Nesta casa a gente não atende os judeus.  Fora daqui”, teria dito um garçom do estabelecimento, no centro da cidade. Embora seja um tremendo exemplo de discriminação – e o artigo diga que Marcel não conseguiu o apoio de que necessitava para provar que isso é ilegal e até caso de prisão –, eu queria discutir hoje o fato de as pessoas expressarem suas crenças e valores por meio da forma como se apresentam. Tenho acompanhado com interesse a polêmica que se desenrola na Europa a respeito de como os muçulmanos se vestem e de como se comportam de modo diferente dos ocidentais. 

 

Estou me referindo à polêmica existente atualmente sobre o fato de a mulher muçulmana usar ou não usar o véu.  Inclusive na Turquia, onde esse assunto esteve dormitando durante anos, agora desencavou-se o tema, uma vez que o país dá demonstrações de inclinar-se em favor do Islã. Um artigo do New York Times de 19 de fevereiro, na Uol, dá conta do que se desencadeou por lá, pelo fato de o governo querer abolir a proibição que havia de irem as mulheres à universidade com a cabeça coberta por um véu. Recentemente, a França quis obter esse mesmo tipo de proibição, alegando que, se querem morar na França, precisam vestir-se à moda ocidental. Mas as mulheres bateram o pé, insistindo em seus direitos de andarem vestidas como quiserem.  Dá a impressão de que cada lado tem suas razões e fica difícil dar uma opinião, principalmente quando me lembro de que os sacerdotes e as freiras da religião católica sempre foram às universidades usando seus hábitos, que os distinguiam como aqueles que professavam uma crença, e não me lembro de ter havido nenhuma discussão por causa disso.

 

No último 13 de fevereiro, em artigo no Der Spiegel, na UOL, Henryk Broder pergunta: quais as implicações de uma possível adoção da lei islâmica no Reino Unido?  Isto é, com os muçulmanos chegando ou nascendo em grande número (mais os britânicos que se rendem à religião de Maomé), será que as leis britânicas deveriam fazer certas concessões e introduzir uma parte da sharia (leis e tradições muçulmanas) em seus artigos de lei?  Ora, pergunta o artigo, qual seria o limite disso?  Até que ponto se deve conceder?

 

Eis aí o problema – e é bastante sério.  Em meu modo de pensar, em sociedades pluralistas e democráticas, respeitam-se os direitos das pessoas à livre expressão, a se trajarem como quiserem (dentro de certos limites, é claro), de rezarem para seus deuses e de defenderem seus ideais, desde que não entrem em confronto com os valores e a legislação já expressados pela maioria e que até constam por escrito.  Porém, ou os grupos se aculturam e se fundem com as novas populações que estão adotando como pares – ou não se misturam e continuam a comportar-se como em seus países de origem, o que gera verdadeiros quistos dentro do país adotado.

 

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PALESTINA 2

Meu avô materno deve ter sido descendente dos judeus convertidos de Portugal, pois se chamava David Pimentel – e os sobrenomes portugueses relacionados com frutas, como se sabe, são, entre outros, indícios de judeus que se converteram em Portugal (além do primeiro nome, David).  Seja por esse fato, seja devido a sempre me sentir atraída pelo tema dos judeus, o fato é que me liguei nas histórias do Antigo Testamento e, mais recentemente, nas questões do Holocausto. Quem leu Leon Uris descrevendo o gueto de Varsóvia, durante a Segunda Guerra Mundial, não consegue ficar mais indiferente. Porém, depois do 11 de setembro de 2001, vi-me completamente absorvida pelos assuntos ligados ao terrorismo e fui estudar a origem e a história dos povos árabes. Caí em cheio nos temas ligados aos muçulmanos e, por tabela, me vi no centro do dilema Israel – palestinos.  Li “Fora do Lugar – Memórias”, de Edward Said e, ao fazê-lo, mergulhei no tema da expulsão maciça dos palestinos,em 1948, da implantação do sionismo, da guerra dos seis dias, em 1967, e de todo o horror que se seguiu a isso e que tem tirado o sono de muita gente, nas últimas décadas.

 

Em 2005, escrevi um livro infanto-juvenil sobre esse conflito e entremeei a realidade com assuntos de fantasia, criando uma Dama do Deserto e um Velho das Barbas Brancas, dos quais gosto muito.  Tenho lido bastante sobre Jerusalém e tentado compreender como é a vida nessa cidade em que as pessoas vivem cercadas de Deus, almoçam e jantam em nome de Deus, rezam diariamente e, no entanto, trazem os corações carregados de ódio.  Difícil de entender.

 

No momento, estou desvendando o pensamento de Christopher Catherwood, por meio do livro “A Loucura de Churchill”, traduzido no Brasil pela Editora Record, em 2006.  Ele pretende mostrar, ao longo do livro, que Churchill, apesar de ter trazido muitas glórias e honras para a Inglaterra, na Segunda Guerra Mundial, antes disso cometeu um erro muito grave, ao formar um país novo, com a caneta na mão, que viria a se chamar Iraque, sem levar em conta as diferentes etnias e religiões que aí residiam: os muçulmanos xiitas (maioria), os muçulmanos sunitas (minoria) e os curdos, ao norte (além, obviamente, de outras populações que aí residiam).

 

Bem – e o que isso tem a ver com a Palestina?  Tudo.  Porque, ao falar dos erros e traições cometidos em relação ao Oriente Médio, o autor nos permite penetrar nos meandros das relações entre o Ocidente e o Oriente e sentir, já de longe, o mau cheiro do que foram as relações entre os poderosos e os dominados, o que, sem dúvida, é uma das causas dos ódios que existem hoje entre eles.

 

Na próxima segunda-feira tem mais.  Venha comigo!

 

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