Hoje, São Paulo completa 454 anos, uma cidade dinâmica, cheia de vida, de muita energia, que atrai o morador distante e geralmente o deixa com vontade de também vir viver aqui. No entanto, por outro lado, uma cidade cheia de problemas, de falta de um transporte público adequado, com uma lacuna tremenda na área da habitação, acostumada a receber os imigrantes que a procuram, esperançosos, sem que ela, de fato, tenha as condições mínimas necessárias para atendê-los.
Nesse sentido, lembrei-me de ter lido, há alguns meses, o primeiro capítulo do livro de Immanuel Wallerstein, “O Universalismo Europeu – a retórica do poder”, editado pela Boitempo, em São Paulo, em 2007.
Nesse livro pequeno, de menos de cento e cinqüenta páginas, o autor tece considerações a respeito das estruturas de poder no mundo atual, criticando esta forma de se dividirem os países e as regiões entre os mais ricos ou entre aqueles que chegaram primeiro. Fiquei impressionada com a clareza com que ele dá nomes aos bois. Diz, por exemplo, que a retórica dos líderes do mundo pan-europeu, da grande mídia e do establishment, está cheia de apelos ao universalismo como justificativa básica para suas políticas. O tom costuma ser moralista, intimidador e arrogante, mas a política costuma sempre ser apresentada como se refletisse valores e verdades universais. No entanto, diz ele, em nome da difusão universal dos valores cristãos, espanhóis e portugueses colonizaram as Américas e dizimaram seus povos originários; sob o lema do fardo da civilização, potências européias expandiram seus domínios imperiais e subjugaram nações africanas e asiáticas.
E ele vai por aí afora, denunciando a globalização, num tom que o deixa próximo de Noam Chomsky e Pierre Bourdieu, entre outros. A mim agrada o tratamento do tema, embora tanto o autor quanto qualquer um de nós saiba que hoje está muito difícil encontrar soluções ou respostas aproximadas de solução para os conflitos econômicos, políticos, religiosos, sociais, culturais, de falta de infra-estruturas que o planeta está vivendo. (Quem quiser, pode achar mais no site da wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Immanuel_Wallerstein).
E tudo isso tem a ver com a nossa cidade de São Paulo, brilhante como alguns grandes centros do primeiro mundo, e opaca, diante dos problemas básicos que não consegue resolver. Rica, opulenta, grávida de shoppings centers, Bancos, monumentos, automóveis último-tipo – e pobre, miserável, deitada a dormir nas ruas, esmolando, suplicando ajuda. O universalismo europeu e norte-americano não tem sido suficiente para resolver os problemas do mundo. Com Wallerstein, é preciso buscarmos outros caminhos.
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Oi, Cleide,
Obrigada pela participação no blog. Volte sempre! Depois do carnaval, pretendo entrar com histórias sobre a Palestina.
Oi, Ig, oi, Gigi,
Que bom que vocês estão sempre aí, por perto! Na verdade, estou chamando de crônicas, mas são pequenos contos. Estou me divertindo à beça, com esta história de brincar de Marina Colasanti. Mas não lhe chego nem aos pés!
Um abraço,
margamourablogadora
Quando ele se preparou para tomar o trem, naquela manhã de sexta-feira, pensou que no final da noite já estaria de volta em casa. Deu um beijo na esposa e abraçou a filha de sete anos.
No caminho, foi dando um balanço em sua vida, relembrando sua infância, gostosa, na casa dos pais, com os irmãos pequenos, os estudos no ginásio do Estado, os colegas divertidos ou sorumbáticos, estudiosos ou preguiçosos, com quem passara tantos anos, estudando. Depois pensou em seu primeiro emprego, nas agruras por que tinha passado, dinheiro curto, desejos de compra, muita inveja de quem tinha mais do que ele. E mesmo agora, casado, com um emprego pequeno e sem grande futuro, quem era ele, afinal?
Estava com esses pensamentos sombrios na cabeça, quando o trem em que viajava bateu em alguma coisa. O vagão inteiro gritou, mas o trem bateu novamente em alguma coisa. Todo mundo saltou dos bancos, uns correram para as portas, uma mulher gritava muito, outros se perguntavam o que teria acontecido.
Ele teve a sensação de que iria morrer daquela batida. Algo dentro dele se sacudiu, pelo impacto. Determinado, desceu do trem, a pasta de negócios na mão, e começou a caminhar. E foi caminhando sempre para a frente, sem olhar para trás, pela estrada que ladeava os trilhos do trem.
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Ela disse que se vestiria de preto, mas ninguém acreditou.
Naquele tempo, uma mulher não andava atrás de um homem, para pedir que ele se casasse com ela. Mas ela esperava pacientemente que ele se sentisse atraído e viesse pedir sua mão em casamento. Era assim que usava. Por isso, ela exultou quando, naquela tarde de domingo, ele veio até sua casa e pediu para falar com seu pai. Isso, sim! Isso é que era felicidade! E, no dia seguinte, ela pôs um vestido vermelho, bonito, ramado, e um chapéu de palha na cabeça, a coisa mais linda que já se viu! Era um modo de contar à cidade toda que seu coração explodia.
Depois, correram os proclamas na igreja e eles se prepararam para o casamento. Por isso, ela vestiu-se de branco, um vestido lindo, um ornamento na cabeça, de onde saía o véu branco, que lhe emoldurava os ombros, uma forma de contar à cidade que seu coração explodia. E cada vez que lhe nascia um filho ela envergava um vestido azul, vistoso, e punha na cabeça um chapéu gracioso, para que todos soubessem que seu coração explodia.
Agora, a cidade veio lhe contar que ele partia para a capital com outra mulher. E ela, feito uma chama viva, vestiu-se de preto, sem esperança de segurar seu coração, que explodia.
umblogqueéquasediário // témereceumcomentário
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