Ela se abaixou para pegar aquele pedaço de papel do chão com tamanho esforço que parecia que não ia conseguir voltar à postura normal. Trouxe-o à altura dos olhos, depois sorriu um sorriso triste e o largou na primeira cesta de lixo que encontrou. Que imbecil! pensou ela. Só porque era alaranjado...
Lembrava-se daquela triste manhã. Ele se aproximou dela, acariciou seu pescoço e lhe disse no ouvido: “Vou-me embora, doçura. Não posso mais ficar com você”. E se foi e foi só isso e nada mais disse e nem perguntou, nem sequer voltou-se para um último sorriso – e ela ficou parada, pregada no chão, sem um soluço, um gesto de adeus, uma nota falha na garganta. Nada.
Rodando pela cozinha, deu com o pedaço de papel alaranjado sobre a pia. Ali, de modo pouco visível, só metade do que fora um recibo, o carimbo da Caixa Econômica e a cifra impressa de trezentos e vinte e cinco mil reais. Sorriu de novo, agora com desdém. Um jogador seria pra sempre um jogador.
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
Meu caro Renato,
Você estranhou que eu falasse das Festas do ângulo da tradição e não da religião. Isso acontece porque nós, pessoas e grupos, temos crenças e valores diferentes, uns dos outros. Para você, o Natal representa a vinda de Jesus, a renovação, a promessa de um ano de mais amor. Porém, é inegável que as Festas de fim de ano têm um lado bem profano, regado de presentes e de consumismo, de descanso e, para muitos, de libertação parcial das regras sociais, como se, no final do ano, houvesse permissão para transgredi-las.
Valores e crenças são algo muito entranhado nos diferentes grupos humanos e variam de grupos para grupos, pequenos ou grandes, de povos para povos. Por isso, quando a gente escreve e quando a gente lê, é preciso levar em conta essas diferenças de visões culturais, políticas, religiosas, sociais. Você concorda?
Um abraço,
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
A família estava composta, feita, redondinha. E parecia que tudo se encerraria por ali. Porém, um belo dia, nasceu uma menininha. Que sonho, que alegria, que veneração! E aquela pedrinha verde, preciosa, cresceu entre os irmãos mais velhos e virou gente.
Um dia, a pedrinha preciosa, verde, saiu de casa e resolveu correr mundo. Esteve na Itália, onde foi visitar aquela estátua de Moisés, feita por Michelângelo, que de tão perfeita o artista lhe pediu que falasse. Na igreja de São Pedro, no Vaticano, ficou impressionada com a estátua da Pietá, do mesmo Michelângelo. Ah! Como são felizes esses italianos, rodeados de obras de arte!
Pedra preciosa, verde, foi para a Espanha. Em Barcelona, visitou a igreja gótica, no bairro gótico, e ficou verdadeiramente impressionada com aquela maravilha de obra de arte. Depois, quis conhecer a igreja da Sagrada Família, obra do famoso arquiteto Gaudí. Perdeu a fala. Em Budapeste, foi conhecer o bairro de Buda e encantou-se com o castelo e as outras belezas que viu por lá. Em Viena, precisou procurar pelo Danúbio, pois ele passa um tanto longe do centro da cidade, E, finalmente, deixou-se ficar em Paris, bela, bela, a mais não poder.
Na volta, seus irmãos lhe perguntaram o que havia visto de mais bonito, em sua viagem ao redor do mundo. Pensativa, parando para pensar, ela respondeu: Não há o que bata o conjunto da Pampulha, de Niemeyer, em Belo Horizonte.
blogqueéquasediário // témerececomentário
Ei, Gigi,
Você, pelo visto, virou minha fã de carteirinha. Fico muito contente. Agora estou iniciando o ano com crônicas. Aproveite!
Carlinhos,
Que bom que você voltou a visitar meu blog. Um grande abraço e um Feliz 2008.
Com carinho,
margamouraescrevinhadora
Era o 6 de janeiro e Papai Noel foi visto perambulando pelas ruas, carregando sacos imensos e vazios, ou andando em círculos pela praça, as folhas caídas no chão, um varredor sonolento iniciando o trabalho do dia. Homens e mulheres dormiam ainda nos bancos ao relento, o sol já nascera, o céu azul lhes dava bom-dia. Papai Noel parecia bêbado, mas não estava, era só impressão. Ele estava era zonzo de cansaço. Vinha do cumprimento de uma longa missão, entregando os presentes de Natal de casa em casa, de chaminé em chaminé – e ainda lhe restaram alguns, poucos, de Ano Novo, por entregar. Agora, sem mais o que fazer, era rumar de volta para sua casa, a Lapônia, acima da Finlândia, onde morava. Mas fazia um calor danado e ele não sabia onde se haviam metido suas renas, as mesmas que o haviam trazido de tão longe.
Sentado num banco da praça, ele meditava sobre as tradições. Que força era essa que fazia com que os humanos eternamente se lembrassem dos dias de comemoração, das festas religiosas e profanas, das datas marcadas como especiais na folhinha, que faziam com que, ano após ano, as tradições passassem de pais para filhos? Agora mesmo dava para ele ver o movimento naquela casa de amplas janelas abertas, duas senhoras trabalhando, talvez uma mãe e uma filha, desmontando a árvore de Natal, pegando com cuidado cada bola colorida e voltando a embrulhá-la, tal como estivera em dezembro passado, para ser guardada e tornada a desembrulhar no dezembro seguinte. Movimentos mecânicos, idênticos, repetindo tradições que vinham de dezenas de anos...
E por que em 6 de janeiro? Porque, mediante uma outra tradição, as Festas vão de início de dezembro até o dia da Epifania, que significa “aparição divina”, em que se comemora a visita dos três Reis Magos ao Menino Jesus, no celeiro em que ele nasceu. Nesse dia, reza a tradição que as Festas se acabam e voltarão a ser celebradas no mês de dezembro seguinte.
Desmontar a árvore, apagar as luzes, voltar ao que era antes. Com as mesmas ou com novas ilusões. Sonhos desfeitos, sonhos renovados, máscaras que rolaram ou novas máscaras postas no lugar das antigas, comemorações, fantasias, ilusões, desejos, quanta emoção rola nas festas de fim de ano e no início do ano novo.
E Papai Noel levantou-se com cuidado, deu uma puxada nas vestes, assobiou pela quinta vez para as renas, que afinal se dignaram a aparecer, e foi-se, ainda pensando com carinho na força das tradições.]
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
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