Olá, Toni,
De fato, eu poderia estar, mesmo, escrevendo sobre você e sua situação prolongada de incerteza. Mas não estava, não. Estava falando de mim, que aguardava o resultado de um concurso de contos e poesia, no qual eu esperava uma classificação que, afinal, não veio. Por mais dura que seja a resposta negativa, a gente trata de se conformar e ensaia adaptações para continuar vivendo, sorrindo, conversando, inventando. Imagino que assim esteja também você: adaptando-se ao novo, da melhor forma possível.
Um abraço,
margamoura
DA LEI CONTRA A HOMOFOBIA
Homofobia significa discriminar as pessoas com base em sua orientação sexual ou em sua identidade de gênero. Trocando em miúdos, é você desconsiderar as pessoas porque sejam gays ou lésbicas, ou tenham jeito de homossexuais ou porque você acha que são homossexuais. E como se dá a discriminação? De infinitas maneiras. Desde o xingamento, na rua, à perseguição pessoal, por e-mails ou trotes telefônicos, passando pela recusa em emprego, até chegar à morte, como aconteceu em São Paulo, na praça da República, há muitos anos, quando um grupo punk perseguiu e matou um dos rapazes que namorava o amigo, na rua. Já existe a lei que pune a discriminação por raça, cor, etnia, religião e procedência natural. Agora, falta ser aprovada essa outra.
Excelente o artigo de Antonio Cícero, antes de ontem, na Folha de São Paulo, sobre esse assunto. Está tramitando no Senado Federal um projeto de lei que pune a discriminação baseada na orientação sexual ou na identidade de gênero do cidadão. Diz o articulista que “a aprovação da lei representará um passo para tornar o Brasil um país mais civilizado”.
E por que um país mais civilizado? Porque civilizado é quem se opõe à barbárie. E bárbaro, diz Antonio Cícero, é aquele que, guiando-se por preconceitos jamais questionados, não tolera qualquer comportamento alternativo. É aquele que busca impor aos outros, a todo custo, sua maneira própria de ser, tentando escravizar ou eliminar aqueles que não se conformem.
A lei em questão tem o sentido de garantir a cada qual o exercício de seu pleno direito de manifestar sua orientação sexual; que a orientação sexual ou a identidade de gênero de uma pessoa não a sujeite a agressões verbais, violência física ou assassinato, como frequentemente acontece em nossa sociedade.
É interessante a forma como o articulista distingue entre as leis da natureza, que são descritivas, e as leis humanas, que são prescritivas. Dizer que “isso deve ser assim” é prescrever; outra coisa, é observar a realidade. Se há uma “lei natural” dizendo que os indivíduos do mesmo sexo não sentem atração erótica uns pelos outros, basta ver que essa “lei” está errada, isto é, ela não existe. A invocação de uma lei natural para tentar tolher o comportamento humano é ridícula.
Artigos como esse certamente darão força para que a sociedade compreenda o que está sendo votado. E apoie.

Voltarei na próxima 4ª. feira. Venha comigo!
margamourablogadora // rimatambémcomescritora
TRANCADOS EM CASA

Ruy Castro, no editorial da Folha de São Paulo de 25 de novembro último, chamou o artigo de “Tiros e clichês”, descrevendo uma situação que você jura que ele inventou. E, ao final do artigo, ele fez um comentário: “Se o novelista escrevesse assim, nós iríamos dizer que ele encheu o conto de clichês. No entanto, são a pura expressão da verdade”: dois policiais saem atrás de dois jovens que traficam com drogas – não para puni-los, mas para extorquir dinheiro deles. Num carro emprestado. Aparecem os amigos dos traficantes de drogas, para defendê-los. Trocam tiros. Os vidros do carro (emprestado) ficam estilhaçados. Um dos policiais morre. Como a troca de tiros se dá em frente a uma escola, na hora da saída das aulas, uma bala perdida acerta um jovem de 17 anos, que morre, e duas moças ficam feridas.
Essas histórias, além de nos ajudar a perceber como o mundo atual nos arma ciladas diariamente, nos faz pensar na perda gradativa de confiança que toma conta de nós, quando, por precaução ou segurança, nos afastamos das pessoas, nas calçadas, dos policiais, dos carros de polícia ou das pessoas que simplesmente querem nos fazer uma pergunta, na rua.
Lembro-me de uma tarde em que eu estava passeando em Zurique e, quando ia deixar a calçada para começar a atravessar, um senhor de uns 80 anos que caminhava à minha frente caiu, no meio da rua. Rapidamente, olhei para um lado e para o outro, e como não viesse nenhum carro, atravessei rapidamente e fui até ele, ajudei-o a se levantar e, de braços dados, chegamos à outra calçada e procurei ver se ele estava bem. Como parecia não ter sido nada, ele me agradeceu e continuou a caminhar. Lembro-me como se fosse hoje do meu espanto diante da falta total de reação das pessoas, frente ao ocorrido. O homem poderia ter se machucado seriamente, havia várias pessoas no ponto, esperando o bonde passar, ninguém se levantou de onde estava para socorrer o acidentado. Que coisa interessante! Que cultura é essa que diz para você não se envolver com o outro, porque amanhã poderão até dizer que foi você que o empurrou, você que provocou o tombo, e vir a ser incriminado na justiça! Na época, eu encarei o incidente como total embrutecimento por parte das pessoas dos países ricos, que desenvolveram uma carapaça de metal sobre a pele, para não sofrer. Hoje, vejo o incidente como total falta de confiança no outro, que foi para onde nós também caminhamos, daqueles anos para cá, numa cidade grande como São Paulo, em que não podemos ficar conversando com o primeiro desconhecido na rua sem correr riscos de uma abordagem desleal.
Ainda assim, não vejo motivos para fazermos de nossas casas a “cidadela” de que se fala já há alguns anos, moradias tão completas, com tamanha tecnologia e infraestrutura, que não precisaremos mais sair à rua e nos expor à violência urbana. Será?
Voltarei na segunda-feira, dia 30 de novembro. Até lá.
blogqueéquasediário // témerececomentário
A DÚVIDA OU A CERTEZA?

O torneiro-mecânico preencheu uma ficha no Departamento de Seleção e ficou aguardando o resultado. Três dias depois foi chamado para uma entrevista. Ficou sabendo que havia cinco candidatos concorrendo àquela vaga. Ele e mais quatro. Os resultados sairiam em uma semana.
A moça bonita, de saia curta e cabelos longos, entrou na fila para uma cirurgia. Seu estado não era grave, mas aquela era uma cirurgia que precisava ser feita, mais dia, menos dia. No hospital, foi informada de que os médicos iriam operar duas pacientes na sexta-feira próxima, mas ainda não se sabia se ela seria uma delas.
Solteira e sem promessa de casamento à vista, ela solicitou um exame na clínica para saber se estava grávida. Se isso se confirmasse, ela tomaria uma série de providências em sua vida. Se fosse um rebate falso, ela seguiria com a vida normal, porém, mais atenta.
Ele participou de um concurso de contos e deu o máximo de si. Caprichou, escreveu, apagou, tornou a escrever, iluminou-se, recorreu à concentração, escreveu coisas lindas e aguardou o resultado do concurso. Era preciso esperar um mês pela resposta.
Todos esses casos têm a ver com uma situação de incerteza. Esperar por uma resposta geralmente envolve uma situação de ansiedade. Você passa todos aqueles dias pensando no que virá: serei aceito para aquela vaga, vou operar na próxima sexta-feira, estarei grávida, vou ganhar o concurso de contos?
O que é melhor: o tempo de espera, em que a resposta pode ser sim ou não, ou a certeza? Se você for o escolhido, o premiado ou se o teste der negativo, você ficará feliz e irá comemorar à noite, no barzinho. Se, pelo contrário, a resposta for outra, você ficará infeliz, deprimido, amargurado, sabendo que terá de recomeçar o processo. Na dúvida, você sonha, imagina, faz planos. Na certeza, você encara a realidade. O que é preferível: a dúvida ou a certeza?
Tenho para mim que a certeza é melhor do que a dúvida. Por mais duro que seja o conteúdo da resposta, ele nos traz à realidade e permite que voltemos a pôr os pés no chão. O sonho, a fantasia, a imaginação, são muito bons, a gente até precisa deles. Mas, numa espera prolongada, eles crescem em intensidade e, depois, na recusa, o tombo poderá ser maior. A certeza nos devolve à vida: foi contra mim, eu encaro, me levanto e recomeço. Foi a meu favor? Melhor, sorte minha, vamos comemorar.
Voltarei na próxima sexta-feira. Até lá!
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