AS TRADIÇÕES NATALINAS
Já comentei neste blog e volto hoje à carga: qual o sentido de se montar uma árvore de Natal no dia 03 de novembro? A que eu vi está instalada no Shopping Center 3, na avenida Paulista. Árvore de Natal é um símbolo, um signo, um sinal, um objeto que representa a aproximação do Natal, a festa de confraternização e de fraternidade que se comemora no dia 25 de dezembro.

O Natal significa, para a cristandade, a rememoração do nascimento de Cristo, o filho de Deus que se fez homem para salvar a humanidade. Naturalmente, como todas as tradições e crenças terrenas, o significado dessa festa foi perdendo algumas cores e ganhando outras, de acordo com a passagem dos séculos e as diferentes formas de comemoração ao redor do mundo. O próprio nascimento de Cristo também foi mudando de significado e também não representa hoje certamente o que representava na Idade Média ou no século V, por exemplo, no Império Romano.
Apesar, porém, das mudanças sofridas de significado, compreensão, rituais, oferendas e modos de comemoração, houve um núcleo que permaneceu vivo: no Natal, há a representação do nascimento de Cristo numa manjedoura, o que se consegue por meio de orações, representações plásticas, como o presépio, leituras do Antigo e do Novo Testamento, celebrações do culto, como a missa, entre outras. Ao lado do presépio como um símbolo da festa, apareceram outros objetos simbólicos, como a árvore de Natal, que pode ser de pinheiro natural ou de plástico, de madeira ou de material sintético, verde, azul, vermelha, com bolas, algodão imitando neve, pacotinhos embrulhados fingindo presentes, que se acende nas casas de família, nos shoppings, nas praças, na entrada dos edifícios, nas igrejas, nos templos, enfim, onde for possível homenagear-se o nascimento e a presença do Menino Jesus, lá geralmente se encontrará uma árvore de Natal.
Os tempos mudaram. Os objetos tiveram sua significação alterada. O Natal foi sendo cada vez menos cristão e cada vez mais uma festa de confraternização, um momento em que os colegas de trabalho, os parentes, os amigos, se reúnem para se cumprimentar – e costuma-se trocar um presente, na ocasião, para marcar a data, fechar o ano vivido e preparar-se o espírito para o ano novo que está chegando. E, como é uma festa puxada basicamente a presentes, comidas e bebidas, o comércio se alvoroça com três ou quatro meses de antecedência e se põe todo bonito, com a disposição de vender o máximo que puder. Ora, festa e presente, presente e árvore, festa e presépio, árvore iluminada e cumprimentos, árvore carregada e troca de presentes, convencionou-se que essa ideia de se festejar o Natal poderia ser antecipada – e por que não começar a preparar os ânimos das pessoas desde o dia 03 de novembro?
E assim, em pleno século XXI, assistimos a mais uma mudança de significado dos símbolos: se a árvore iluminada vai deixar de marcar os dias que antecedem o Natal, será preciso dar início a uma nova tradição e inventar-se um novo objeto que dê sustentação ao Natal. Na minha opinião, estamos diante de uma nova fase de transformação das tradições e do significado da noite de Natal.
Estarei de nova na próxima segunda-feira. Até lá!
margamouraescritoraduradoura
ENCARAR OU FUGIR?

Se você estiver na mata e der de cara com um leão, faz parte da natureza humana sentir um medo incrível do bicho, pôr-se a tremer, a suar frio, sabendo que só se salvará por um milagre. Talvez você suba na primeira árvore (mas será que leão não sobe também em árvores?), você saltará uma cerca altíssima de arame farpado à sua frente ou abrirá um buraco no chão para se esconder. Mas dificilmente você encarará a fera, pois está desarmado e nem um pedaço de pau para cutucar o focinho dela você tem.
Entrar em pânico, ter medo, suar frio, fugir, são algumas das defesas com que a natureza brindou o ser humano, dos tempos em que viviam todos no campo, nas matas, indefesos e precisando proteger-se contra os animais e as intempéries. Hoje, porém, a maioria da população vive em cidades e já não se defronta de uma hora para a outra com um leão ou um tigre. Os seres que nos assustam são, mesmo, os humanos, os outros iguais a nós.
As relações interpessoais são uma constante, em casa, na rua, no trabalho, na escola, no clube. É preciso o tempo todo estabelecer limites, os pode e os não-pode, as críticas, os desafios, para que cada um possa delimitar satisfatoriamente seu espaço próprio de ação. Uns querem mandar ou de fato mandam nos outros, uns obedecem, outros se revoltam, as brigas, os diz-que-diz-que são constantes, muita fofoca, muita calúnia, muita crueldade nas relações. A ironia é uma forma indireta de dizer ao outro alguma coisa que está entalada na garganta. O muxoxo, o desdém, a careta, muitas vezes acompanham palavras que pretendem ser amigáveis e o clássico tapinha nas costas.
Aqui, de novo, entra a imagem do leão da floresta. Se você encarar o outro como alguém que o amedronta, que lhe causa medo, sua primeira tentação será fugir dele. Entram em cena as desculpas pelo telefone: “Não, ele não está. Não sei a que horas volta”, os e-mails que ficam sempre sem resposta, os pedidos de se retornar a ligação que nunca acontecem. O medo é paralisante. E algumas pessoas preferem fingir, fugir, esconder-se, passar a vida esquivando-se, para não encontrar-se com a outra na rua, nas festas, no teatro.
Diferente de fugir é enfrentar. É encontrar-se com a pessoa que nos está questionando e enfrentá-la. Ir fundo, tentar esclarecer, pedir desculpas – se for o caso – desculpá-la, quando for necessário. Enfrentar é reconhecer suas próprias falhas, é topar rever-se, é verificar que realmente errou, é prometer que não voltará a acontecer – ao mesmo tempo em que expõe ao outro seus sentimentos, suas dúvidas, os pontos em que se sentiu machucado. Quando as relações se dão nesse nível, fica tudo mais fácil, mais tranquilo, menos úlceras de estômago, menos câncer de intestino.
É só perceber que não se está mais na selva e nem sujeito a topar-se com as feras. E dimensionar que os leões e os tigres das cidades grandes podem ser enfrentados sem que seja preciso dispor-se de uma carabina.
Voltarei na próxima sexta-feira. Até lá!
margamouraescritoraduradoura
DA MORTE

Um dia por ano a gente dá uma parada e pensa nos amigos e parentes que já faleceram. Quem tem vontade, vai até visitar seus túmulos, para sentir-se mais perto deles, para lembrar-se deles, para achar que eles ficam mais próximos, embora estejam tão distantes.
A morte é um tema que nos acossa, ainda que a gente se esforce por mantê-lo longe de nós. Temos medo da morte. Queremos viver, somos presos à vida, mesmo que seja uma vida muito penosa. A morte assusta pelo aspecto do desconhecido. Quem é que não gostaria de morrer dormindo, de modo a evitar a percepção da morte, fechar os olhos à noite e não abri-los nunca mais?
A morte é um tema tão denso, tão complexo e, ao mesmo tempo, tão próximo, que gera um sem-número de reflexões: pode-se debater sobre seu significado, como as diferentes culturas lidam com ela, se há vida depois dela, quantas mortes podemos ter, como fugir dela, quando se descobrirá o elixir da longa vida, como se dá a manutenção em refrigeração dos corpos mortos, para serem despertados um dia pela ciência, como se dará a ressurreição dos corpos, quem tem medo da morte – e muitos outros ângulos de exploração do tema, tal seu volume, sua densidade e a importância que tem em nossas vidas.
Há documentários, no cinema, mostrando como as diferentes culturas lidam com a morte, ao redor do mundo. Os povos celebram a morte de acordo com suas próprias crenças. Se ela é motivo de alegria, há quem comemore a morte e faça os rituais de despedida – jogando o corpo no mar, enterrando-o ou cremando-o – entre cânticos e danças alegres. A morte pode ser considerada como o início de uma nova vida e, nesse caso, uma vida melhor, daí os sentimentos de felicidade dos que ficam. A morte pode ser uma etapa, apenas, na vida da pessoa, e, nesse caso, ela estaria renascendo para uma nova vida, até que chegasse efetivamente à morte definitiva. A morte pode significar o descanso eterno, o desembaraço de uma vida cheia de tropeços e aflições.
As concepções e os significados da morte variam de acordo com as crenças de cada grupo, de cada cultura. E os debates que mais se estendem são aqueles sobre o que há, para o ser humano, após a morte terrena. Há quem acredite que morre o corpo, mas fica o espírito. Onde? Presente, aqui na terra, rodeando os familiares de quem se despediu. Ou ficam no Além, junto de Deus, esperando a ressurreição dos corpos, no dia do Juízo Final. Há os que acreditam em Céu e Inferno, e, nesse caso, as almas ou os espíritos estariam penando no fogo do inferno ou gozando das delícias do paraíso. São crenças, são artigos de fé, são frutos daquilo em que as pessoas acreditam.
Mas, independentemente de crenças, a morte consiste num tema complexo e doloroso, tão próximo de nós e tão distante. Algumas coisas estão em comum, nas diferentes culturas: a morte é dolorosa, porque tira de nós um ser querido; porque geralmente é precedida de um mal que faz as pessoas sofrerem; porque é para sempre; e porque não nos deixa dúvida quanto a sua efetividade: ela virá, com certeza.
Voltarei na próxima quarta-feira. Venha comigo!
margamouraescritoraduradoura
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